Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > LINGUAGEM IMPRÓPRIA

Informações incorretas e arrogância profissional

Por Bemildo Alvaro Ferreira Filho em 28/08/2012 na edição 709

Sou assinante do Estado de S.Paulo há algum tempo. Com a crise da aviação brasileira exposta pelos acidentes de 29 de setembro de 2006 e 17 de julho de 2007, mais as urgências de infraestrutura aeroportuária e aeronáutica, entre outras exacerbadas pelos eventos Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos 2016, nomenclaturas da aviação passaram a ser frequentemente veiculadas na chamada “grande imprensa”. Esta procura informar a sociedade acerca de eventos nessas áreas, indo desde as condições dos “principais” aeroportos até a concessão à iniciativa privada de alguns deles.

Acontece que as informações muitas vezes passam longe da correção, seja nas denominações de atividades ou de aeroportos, seja na notícia em si. Leitor e, sobretudo, consumidor das informações dessa imprensa, esperava que alguns contatos com as editorias, por e-mail ou ombudsman, resolvessem algumas questões críticas na denominação correta onde optam pela equivocada denominação popular. Além de não receber resposta alguma, verifico que a situação se modifica para pior, beirando a arrogância profissional.

Assim, o Aeroporto Internacional de São Paulo, no município de Guarulhos, Grande São Paulo, é invariavelmente grafado pelo jornal como “Cumbica”, “Guarulhos”, “Aeroporto de Cumbica” e variantes como “Aeroporto Internacional de Cumbica”, “Aeroporto de Guarulhos” e “Aeroporto Internacional de Guarulhos”, não importando se a edição da matéria veiculada entra nas seções local, nacional ou internacional. Também a atividade “controlador de tráfego aéreo” se torna invariavelmente “controlador de voo”, da mesma forma que “controle de tráfego aéreo” passa a ser “controle de voo”. O jornal já foi alertado que aeroportos públicos que atendem voos comerciais não operam por instrumentos, ao contrário do que veiculam insistentemente, mas sim, permitem às aeronaves pousos e decolagens por instrumentos. Ou seja, são os aviões que usam instrumentos específicos para pousar e decolar com maior ou menor precisão, dependendo do aeroporto, independentemente do tempo nublado, chuvoso, enfumaçado por causa das queimadas, cinzas vulcânicas, neve, com nevoeiro ou com “céu de brigadeiro”, não nessa mesma ordem.

Confiabilidade questionada

Como cliente dessa prestação pública que é a veiculação de informação jornalística e como assinante de jornal de papel ou leitor no modo digital, vínculo mais estrito, sinto-me prejudicado pelo “vício de qualidade” na informação veiculada, segundo o mesmo Art. 20, tornando-a imprópria ao consumo e diminuindo-lhe o valor. A informação sobre os “aeroportos que operam por instrumentos” é inócua, isto é, não serve para o leitor decidir se vai viajar ou não e nem para o piloto e despacho da companhia aérea, já que carece de detalhes necessários a tomada de decisão. Portanto, reputo-a imprópria para o consumo.

Já a denominação popularesca “Cumbica” não traduz corretamente a dimensão socioeconômica atingida pelo Aeroporto Internacional de São Paulo nos seus mais de 25 anos de operação e que afetou a cidade-dormitório Guarulhos. Também não traduz corretamente a dimensão negativa de seus problemas crônicos. Portanto, diminui-lhe o valor e, também, da informação veiculada. Identicamente, podemos comparar a atividade laboral “controlador de tráfego aéreo”, denominação correta, constante de documentos oficiais e universalmente conhecida por air traffic controller que, ao se tornar “controlador de voo” a remete de imediato ao “caos aéreo” e outras ações negativas atribuídas à classe (já desmitificadas pelo TCU), isto é diminui-lhe o valor, e não destaca que quem controla o voo é o piloto, ficando ao cargo do controlador de tráfego aéreo a separação mínima entre os aviões para melhor ocupação do espaço aéreo. Creio se tornar, então, uma denominação imprópria para o consumo adequado da informação veiculada.

Outros meios de comunicação país adentro, além dos jornais de banca, possuem os mesmos vícios de origem – televisão, internet, revistas semanais. Outras denominações similares seguem o humor e conhecimento de quem faz a matéria. Cito exemplo: “Museu do Ipiranga”, “junto ao”, “turbina”, “jatinho” são facilmente encontradas. Essa última, então, usam para referir toda e qualquer aeronave que não seja da aviação comercial, principalmente tendo conotação pejorativa, como no caso ao denominar “jatinho” o bimotor a hélice do caso da suposta carona ao ex-ministro do Trabalho. A confiabilidade das informações da imprensa em outras áreas que não dominamos é, então, sacudida e questionada em vários pontos da sociedade. E isso ocorre supondo-se a contratação de jornalistas e editores dos grandes veículos da imprensa nacional formados em escola de nível superior. Como acreditar no que veicula essa imprensa, se a arrogância institucional prepondera?

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[Bemildo Alvaro Ferreira Filho é profissional do Controle de Tráfego Aéreo, São Paulo, SP]

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