Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MERCADO

Por que Apple e Facebook tomam direções opostas na bolsa

Por João Luiz Rosa em 28/08/2012 na edição 709
Reproduzido do Valor Econômico, 27/8/2012; intertítulos do OI

A segunda-feira (20/8) foi simbólica para a indústria de alta tecnologia. Ao mesmo tempo em que a Apple se tornava a empresa com maior valor de mercado da história, as ações do Facebook registravam seu mais baixo nível desde que a rede social estreou no mercado de capitais, em meados de maio. Os papéis da Apple aumentaram 2,6% em Nova York, para US$ 665,15, garantindo o recorde à criadora do iPhone e de outros sonhos de consumo. Enquanto isso, o Facebook chegou a seu patamar mais baixo – US$ 18,75 –, para fechar o dia a US$ 20,01, uma elevação de 5%.

As duas companhias têm mais em comum do que parece – multidões de usuários, uma reverência quase fanática de uma parte significativa dos consumidores e a internet como um canal fundamental de negócios e relacionamento com o público. Por que, então, elas representam, hoje, os extremos do setor?

Em meados da década passada, antes do retorno do cofundador Steve Jobs ao comando da companhia, a Apple estava à beira da bancarrota. Acuada em um pequeno segmento da indústria de computadores – o de agências de publicidade e departamentos de arte – nada indicava que a companhia pudesse reagir a ponto de fazer frente a rivais muito maiores, como a Microsoft e a Hewlett-Packard (HP). Jobs simplificou a extensa e confusa linha de produtos da Apple, jogando fora modelos que não funcionavam, e passou a dar atenção especial ao design, o que ajudou a criar a aura de exclusividade que acompanha a Apple até hoje.

Receita da publicidade

Ao mesmo tempo, passou a pensar em produtos novos, que atendessem a necessidades que ainda nem estavam claras para o consumidor, em meio a um mundo digital em formação. O resultado é o que se sabe: o iPod, o iPhone e o iPad. Esta, portanto, é parte essencial do sucesso da Apple: inovação. A palavra foi vulgarizada nos últimos tempos. Hoje, qualquer coisa que vá um pouco além do comum é considerada inovação. No caso da Apple, porém, a expressão é totalmente aplicável. A empresa tornou-se a maior vendedora de música do mundo, desbravando um modelo de venda via internet, e superou gigantes, como a Nokia, em um campo de ação no qual era novata: o dos celulares.

Não só isso. A inovação, na Apple, não se limitou aos produtos. O modelo de negócios também mudou. Jobs soube evitar a armadilha de ficar preso a um único segmento, no caso, os PCs. Nesse mercado, aliás, a companhia continua a ter uma posição discreta e não aparece na lista dos cinco maiores fabricantes mundiais das consultorias IDC e Gartner, embora já seja a terceira nos Estados Unidos em ambos os rankings. A inteligência de Jobs foi criar um conjunto variado de fontes de receita: equipamentos (Macs, iPhones, iPads, iPods e acessórios), mídia (músicas e filmes) e softwares (a companhia fica com 30% de todos os aplicativos vendidos em sua loja online).

À sua maneira, o Facebook também inovou. O projeto surgido na Universidade de Stanford rapidamente ganhou o mundo, com as pessoas disputando um convite online – sim, no início só convidados entravam – para ingressar no site de relacionamento. À medida que crescia, a companhia foi acrescentando funções ao site, tornando-se a principal responsável pela popularização dos jogos sociais, por exemplo. Mas em contraste com a Apple, a receita do Facebook vem de uma única fonte: a publicidade online. Isso faz muita diferença para o investidor.

Resposta que não deixa dúvidas

Companhias bem mais maduras, como o Google e a Microsoft, sofrem do mesmo problema, sob o olhar dos acionistas. A Microsoft é exemplar. No segundo trimestre, pela primeira vez em 26 anos como empresa com ações em bolsa, a dona do Windows registrou prejuízo. E isso devido a encargos extraordinários relacionados à compra de uma empresa de publicidade online, a Quantive, em 2009. As perdas foram de US$ 492 milhões, frente a um lucro de US$ 5,9 bilhões no mesmo período de 2011. Excetuando o episódio, a Microsoft costuma apresentar, trimestre após trimestre, resultados consistentes. Isso, porém, não é o suficiente para deixar os investidores muito animados. A ação da companhia acumula alta de quase 20% neste ano, o que é positivo, mas está muito distante da Apple. A Microsoft vale cerca de US$ 256 bilhões, a Apple, US$ 627 bilhões.

A questão, para os investidores, é que a Microsoft continua a retirar a maior parte de sua receita do sistema operacional Windows e do pacote Office, ambos ainda muito concentrados em um setor – o dos PCs – que perde espaço para os dispositivos móveis, como celulares e tablets. Não é à toa que uma das principais apostas da Microsoft é o Windows 8, que planeja lançar em 26 de outubro e com o qual pretende unificar os sistemas para computadores e aparelhos móveis.

O caso do Facebook parece incomparavelmente mais grave porque a companhia não tem uma gestão madura como a da Apple. Quando Steve Jobs morreu, em outubro do ano passado, houve muitas dúvidas sobre a capacidade da companhia de manter o prestígio e crescimento acelerado sob a condução do sucessor Tim Cook. O desempenho das ações nesta semana é uma resposta que não deixa dúvidas.

Jeans e camiseta

A posição do Facebook é muito diferente. Os problemas técnicos – e éticos – no lançamento das ações lançam dúvidas sobre a capacidade de Mark Zuckerberg conduzir a companhia. Por exemplo, a aquisição do software de fotografia Instagram por US$ 1 bilhão, pouco antes da oferta pública, está sendo questionada. E não se vê uma reação de Zuckerberg à queda das ações, como seria de se esperar de um executivo-chefe.

Zuckerberg tornou-se um rosto popular ao transformar-se em personagem do filme, A Rede Social, e seu hábito de só usar hoodies, aqueles moletons com capuz, lembra a mania de Jobs de se apresentar exclusivamente de jeans e camiseta preta de gola rulê. Mas o certo é que, se quiser de fato assemelhar-se a Jobs, Zuckerberg terá muito a provar pela frente.

***

[João Luiz Rosa, do Valor Econômico]

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