Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Sem debates, campanha começa insossa

Por Reinaldo Cabral em 28/08/2012 na edição 709

Se depender do comportamento da grande mídia nacional até hoje (21/8), a campanha eleitoral municipal deverá ser mais insossa do que já se mostra quando a expectativa quase geral entre eleitores era de que a essa altura o nível de debates entre as mais diferentes correntes políticas já estivesse a todo vapor. Mas ainda há tempo. Embora em diferentes municípios brasileiros de grande porte, como nas capitais de maior contingente populacional como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, os temas centrais, como violência, transporte, moradia e saúde sejam considerados como alvos principais dos discursos, avaliações, críticas e planos dos candidatos, ainda não têm sido colocados nas devidas escalas hierárquicas.

A realização das eleições municipais deste ano encontra o Brasil diante de realidades sociais e políticas bem diferentes das de quatro ou de 40 anos.

Comparativamente, há 40 anos, em 1972, não houve eleições municipais. A ditadura militar não permitiu: ainda sob os efeitos do Ato Institucional no. 5, que determinou a censura total nos meios de comunicação social, o país vivia sob a égide das nomeações – do prefeito ao presidente da República. Cabia a uma Juntar Militar criada em 1969, onisciente e onipresente, fazer essas nomeações.

Opção equivocada

Com a Assembleia Nacional Constituinte de 1988, as regras democráticas foram restabelecidas e já válidas para as eleições diretas para prefeito e governador em 1982. O exercício político é fundamental para o funcionamento do organismo democrático. A militância política, já dizia Weber, é como a respiração para o organismo humano. Ou como oxigênio para o cérebro.

Com a interrupção desse exercício entre 1964 e 1988, o país praticamente ficou paraplégico: sem saber mover-se, levando pelo menos mais duas gerações (20 anos) para superar a fase de contemplação, a paralisia criminosa. Por isso, chegam a ser hilariantes as exclamações de apresentadores de programas comemorativos, como o Criança Esperança, da TV Globo, ao saborear as delícias de um projeto social coletivo comandado por uma corporação construída às sombras da ditadura militar.

As questões sociais são tão gritantes hoje a ponto de não ser impossível a nacionalização das discussões de alguns temas, como a violência e a desorganização urbana. Muito superficialmente, mas não fora do tempo, a presidente Dilma Rousseff incluiu a construção de 10 mil km de malha ferroviária entre os objetivos de longo prazo do seu PAC. Com certeza, a questão do transporte ferroviário, que foi marginalizado pela ditadura militar, retornará ao centro dos debates, em contraste com o reconhecimento público indiscutível de que, se essa tivesse sido a opção brasileira em 1964, hoje o país não estaria amargando o sepultamento anual de 22 mil mortes em acidentes automobilísticos.

Atenção para o trânsito

O palco dos acidentes não são os estados, mas as cidades. Está nas mãos dos eleitores, que vão escolher os vereadores e prefeitos, aqueles capazes de deter essa mortalidade. Porque é possível, sim, uma questão nacional desse porte ser debatida e equacionada onde ela acontece, embora seja na presidência da República e no Congresso Nacional que a política industrial do país e as regras do trânsito devam ser equacionados.

É preciso que a grande mídia atente para isso. Caso contrário, ficará ao largo e os problemas nacionais à margem do processo político decisório.

***

[Reinaldo Cabral é jornalista e escritor]

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