Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Qual a utilidade dos colunistas?

Por Tomás Barreiros em 04/09/2012 na edição 710

O professor de filosofia Carlos Ramalhete publicou na quinta-feira (30/8), em sua coluna no jornal Gazeta do Povo (principal diário impresso do Paraná), artigo intitulado “Perversão da adoção”, no qual critica duramente a possibilidade de adoção de crianças por casais homossexuais. O texto causou polêmica e provocou reações justamente indignadas contra suas posições conservadoras e “reacionárias” (entre aspas, para indicar que se adota aqui o sentido vulgar do termo).

O professor fez uso do seu direito democrático de expressão. Não há o que reparar quanto a isso. Felizmente, gozamos de total liberdade de pensamento (que não pode ser coibida senão pelo sutil domínio das consciências, geralmente obtido pela indução do medo interior, como o medo do pecado, por exemplo, que condena “os maus pensamentos”) e da liberdade de expressão do pensamento, esta regulada por lei – pois tem limites, como acontece com toda liberdade cujo exercício possa interferir em direitos de terceiros: é o caso da interdição legal à calúnia, à difamação e à injúria.

Entretanto, cabe questionar se um veículo de comunicação importante como é a Gazeta deve, em nome da pluralidade, abrigar qualquer opinião, por mais absurda que possa parecer ao juízo de muitos. Alguns argumentam que não cabe à imprensa acolher todas as opiniões, o que poderia afetar a ética jornalística, já que ser imparcial (dever teórico do jornalista) não significa “dar a Hitler o mesmo tempo que aos judeus”, conforme a irônica frase do cineasta Jean-Luc Godard.

Temas que afetarão a todos

De qualquer modo, o jornal escolhe quem deseja ver em suas páginas. E a divergência de opiniões sempre é salutar numa sociedade madura, a ponto de não precisar temer sequer os argumentos de um Hitler. Obviamente, quando escolhe alguém para ser seu colunista, um veículo de comunicação indica sua linha editorial. E isso é um dado útil para que o leitor conheça o veículo que lê. Um dos modos de expressão da ideologia de um jornal, para além dos editoriais, é a escolha de seu corpo de articulistas. Portanto, saber da existência de um Ramalhete entre os colunistas da Gazeta tem sua utilidade. Em relação ao padrão corrente da grande imprensa brasileira, a Gazeta do Povo é um bom jornal. Que ela abrigue em suas páginas os artigos frequentemente retrógrados é um dado importante para o leitor identificar melhor o alinhamento do jornal.

Entretanto, há outra utilidade mais relevante na publicação de artigos de tal jaez num jornal de grande circulação: é preciso que o leitor se posicione, explique-se a si mesmo diante das mudanças importantes pelas quais passa a sociedade atual. Deparar com as ideias de uma mentalidade mumificada como aquelas frequentemente apresentadas pelo colunista obriga o leitor a se posicionar ante o desvelamento do pensamento conservador que por séculos dominou a sociedade brasileira e que ainda subsiste em considerável parcela da população.

Portanto, independentemente da conveniência ou não de um grande veículo de comunicação publicar pensamentos como os de Ramalhete (que, evidentemente, não está só na grande mídia), eles são importantes para que o leitor reflita e se posicione ante temas cruciais que, mais dia, menos dia, afetarão a todos.

***

[Tomás Barreiros é jornalista, mestre em Comunicação e Linguagens, doutorando em Ciências da Educação e coordenador do curso de Jornalismo do Centro Universitário Uninter (Curitiba-PR)]

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