Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > ALEMANHA

A encenação midíatica dos socialdemocratas

Por Fátima Lacerda em 02/10/2012 na edição 714

O partido socialdemocrata alemão já teve momentos de glória e fama com políticos do naipe de Willy Brandt e Helmut Schmidt. Com Gerhard Schröder, chanceler entre 1998 e 2005, o partido que pela sua história defendia com unhas e dentes o caráter social do Estado, ganhara com o ambicioso Schröder um ranço neoliberal que persiste até hoje. Com a lei “Agenda 2010”, que provocou protestos em todo o país, Schröder iniciou uma mudança de paradigma que resultou em desequilíbrio entre o papel do Estado alemão e o seu caráter social, razão pela qual é odiado até hoje.

Desde o fim da chamada Era Schröder, o Partido Socialista Alemão (SPD, na sigla em alemão), desde 2009 condenado ao banco da oposição, havia meses vinha cozinhando a mídia e a opinião pública com o que a imprensa alemã chama de “K Frage” (a escolha do candidato a chanceler, em tradução livre).

Os candidatos na berlinda

>> Sigmar Gabriel, chefe do partido, rejeitado pela população pela rápida mudança de opinião em temas de relevância na sociedade, como aposentadoria aos 67 anos e medidas para evitar a pobreza na terceira idade.

>> Frank-Walter Steinmeier, exímio diplomata e ex-vice chanceler em coligação com Angela Merkel (2005-2009), correto demais para o necessário jogo político diário.

>> Peer Steinbrück, ex-ministro presidente da região mais populosa do país, a Renânia do Norte-Vestfália, sem sucesso em qualquer eleição até hoje, mas com os mais importantes cabos-eleitorais do país: Helmut Schmidt e a revista Spiegel.

Pela TV

Várias indagações da mídia – quem afinal seria o adversário de Angela Merkel nas eleições? – ficavam sem respostas. Gabriel alegava que o candidato seria somente coroado durante a convenção federal do partido, em novembro próximo, mas o maestro não foi tão exímio em seu plano.

Quebrando toda a dramaturgia gabrieliana, a ética de Frank-Walter Steinmeier falou mas alto. No início da semana passada, ele declarou à imprensa não estar disponível para o que seria a sua segunda candidatura. Dos três candidatos, sobraram dois.

Com essa mudança de roteiro, Gabriel não teve outra alternativa além de partir para o ataque. No dia seguinte, reuniu a mídia e nomeou Peer Steinbrück como candidato do partido para as próximas eleições federais sem consultar a base, nem os chamados “corredores” de direita e esquerda do partido, que ficaram sabendo de tudo pela TV (ver aqui). A direção do partido só foi oficialmente informada na segunda-feira (1/10).

A incompatibilidade

Steinbrück e o partido são tradicionalmente como água e óleo. Muitas vezes o candidato já atacou severamente o partido e, quando ministro das Finanças, agiu de forma pragmática sem qualquer preocupação ideológica em manter o perfil social do partido, vértebra do movimento socialdemocrata no país.

Durante todo o fim de semana, a imprensa especializada questionava como será possível uma unidade pelo menos programática entre o tinhoso Steinbrück e as diversas tendências do partido. Em seu discurso de retórica pseudo-humilde na convenção regional do partido, no fim de semana, ele disse: “O candidato tem que combinar com o perfil do programa, mas o programa também precisa combinar com o candidato. Eu desejo liberdade para as minhas pernas, liberdade de movimento”, disse, recebendo aplausos.

Ratificando o seu estilo marrento e inegociável, Steinbrück deixou claro que só existirá uma coligação com o Partido Verde e que somente esse seria o modelo. Rejeitou claramente a possibilidade da chamada “coligação Jamaica”, incluindo socialdemocratas (vermelhos), os verdes e os liberais, e mais uma vez mostrou distância estilística e retórica dos eleitores, esquecendo que esses que, de fato, definem a constelação partidária numa democracia.

Sigmar Gabriel, foi onipresente no fim de semana nos programas políticos Bericht aus Berlin, e Berlin Direkt, defendendo a candidatura do carrancudo Steinbrück.

O lema da transparência

A plataforma “Abgeordnetenwatch” (De olho no parlamentar), situada na cidade de Hamburgo, tem como lema mais transparência nos trâmites políticos e apresenta na internet uma estatística meticulosamente preparada de quais membros do Parlamento faltaram às sessões. Peer Steinbrück é um dos primeiros dessa lista, sem falar nas inúmeras palestras sobre o setor financeiro que ele faz. Em 2011, seu faturamento com as palestras, especialmente para bancos, alcançou o valor de meio milhão de euros.

Perguntado no domingo à noite pelo âncora do programa Berlin Direkt o quão confiável seria Steinbrück, exatamente por ter a maior parte de sua renda advinda de palestras para grandes bancos enquanto no discurso político prega a regulamentação do setor financeiro, Gabriel, que tem pavio curto, esculhambou o entrevistador chamando-o indiretamente de oportunista, alegando que o fato de Steinbrück dar palestras a bancos não implicaria compactuar com a política dos mesmos. Para que o “barraco” não consumisse o horário nobre, o âncora agradeceu e, sem pestanejar, tirou Gabriel da lente das câmeras e passou para a matéria seguinte, com elegância invejável.

O silêncio merkeliano

Em sua conduta de praxe, a chanceler Angela Merkel até o momento não se pronunciou sobre a candidatura-relâmpago dos social-democratas. De fato, até setembro de 2013 ainda há muito chão político a percorrer, mas tudo indica que o modelo “vermelho-verde” se tornou obsoleto numa constelação político-partidária em alto grau de mutação no país, com grande perda de aceitação dos partidos políticos de formato tradicional.

Se pela falta de conteúdo os piratas não afundarem até setembro de 2013,
pode ser que a constelação do novo Parlamento seja bem mais inusitada do que se imagina no momento.

***

[Fátima Lacerda é jornalista freelance, formada em Letras, RJ, e gestão cultural em Berlim, onde está radicada desde 1988]

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