Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Mensaleiros são rejeitados pelas redes sociais

Por Reinaldo Cabral em 16/10/2012 na edição 716

A aparente indiferença dos primeiros dias do julgamento do STF não ocultou o impacto negativo da presença de familiares e parentes de mensaleiros nas redes sociais. Mas a hipótese levantada por um ministro da Suprema Corte de que a aspiração do núcleo político sob julgamento na etapa final era a perpetuação no poder encontrou plena acolhida nas facilidades identificadas nas movimentações dos principais envolvidos. Foi a partir daí que finalmente se esfarelou o conjunto de defesas apresentados no primeiro dia do julgamento pelo batalhão de advogados contratados pelo bloco. Também foi esse o momento do estresse final da parentada e quando começaram a vir a público as cartas cuja circulação nas redes começou enviezadamente.

A crítica ácida de internautas aos mensaleiros acabou se ampliando para pura rejeição não aos políticos apenas, mas à quadrilha por eles representada, sob a condenação principal de José Dirceu, tendo ao seu lado José Genoíno e Delúbio Soares. Daí para cá, a toada é a mesma: nas redes, a grande maioria espera a finalização do processo punitivo do STF com a cadeia para todos.

No Brasil, tudo é diferente: primeiro a polícia atira e depois pergunta: “Tem alguém aí?” No banco, o sujeito primeiro fura a fila, depois pede licença para passar na frente. No restaurante, além de furar a fila, o sujeito deixa cair resto de alimentos para mostrar que está apressado. Na hora de pagar a conta dos alimentos consumidos, do local do cafezinho após a refeição, em várias ocasiões o sujeito se mistura aos que estão saindo e acaba passando pelo caixa sem pagar a conta. Embora isso não seja a regra, a prática em diferentes lugares e ambientes acabou se rotinizando no interior da sociedade. Do mesmo modo, aquela pergunta que se popularizou entre as décadas de 50 e 60: “Você sabe com quem está falando?”

A filha de Genoíno e as lágrimas do senador

Esses gestos, atitudes e costumes incorporaram-se ao jeito do brasileiro. E passaram a ocorrer tão amiúde, a permear seu comportamento, a ponto de frações da sociedade parecerem estressadas com a proximidade da finalização do julgamento do mensalão pelo STF-Supremo Tribunal Federal. As lágrimas do senador Eduardo Suplicy (PT) quando leu a carta de uma filha do ex-deputado José Genoíno (11/10) – onde, entre outras coisas, questiona que meios de comunicação são esses incapazes de ouvir um inocente – são a essência de “uma metamoforse ambulante”, mencionada há mais de 40 anos com propriedade pelo poeta Raul Seixas.

Ao apreciar exclusivamente os autos, o STF se debruçou diante de calhamaços de documentos juntados pela Procuradoria-Geral da República. Ao contrário dos tribunais de exceção, o STF estabeleceu o tempo necessário para ouvir um verdadeiro batalhão de advogados de defesa, um a um. Esperto, um grupo de advogados pretendia empurrar frações do material em julgamento para instâncias jurídicas onde, esgotados os esforços para modificar a decisão final condenatória, coubesse recurso ao STF. Os ministros do Supremo debateram a questão e decidiram assumir todo o julgamento. Como se tratasse de um jogo de cartas marcadas, logo uns acusados tentaram diminuir o impacto das decisões do STF avisando que vão recorrer a uma corte jurídica internacional. O que é consensualmente negado nesses casos.

Ora, exauridos praticamente todos os atenuantes capazes de salvar envolvidos, cessada a ladainha segundo a qual “Lula não sabia de nada”, observado um verdadeiro clamor social em relação à violência a alcançar todos os segmentos da sociedade e, mais do que isso, a sede geral pelo fim da impunidade, quase caem no vazio as lembranças da filha de Genoíno e as lágrimas do senador Suplicy.

Debate e prática política

O eco da carta aberta remetida enviezadamente pelo professor e teatrólogo José Arrabal de São Paulo, e postada quarta-feira, 10/10, de Paris através da professora e escritora Eliana Bueno Viana Ribeiro dos Santos nas redes sociais, tem o tamanho exato da própria atitude do Lula “não sei de nada”.

Ora, chegar ao final do julgamento do mensalão e colocar Zé Dirceu e Genoíno no topo da luta contra a ditadura como se isso lhes emprestasse imunidade para a prática de erros políticos grosseiros futuros e, ainda por cima, espalharem que Zé Dirceu impediu que Lula renunciasse a presidência da República, como se isso fosse enfraquecer o julgamento do mensalão, é supor que no STF só há ministro burro, influenciável e comprado e também equivale a chamar de vagabundos a maioria dos frequentadores das redes sociais.

A veiculação de todas as expressões políticas é legítima e assim deve continuar num processo de amadurecimento democrático hoje experimentado pelo Brasil. O julgamento do mensalão, exibido em tempo integral pela TV Justiça, é o começo do coroamento do aprofundamento do debate e da prática política democrática no país. Praticamente todos frequentadores das redes sociais esperam a condução dos condenados para a cadeia para o cumprimento de suas penas, ao término da qual poderão naturalmente retornar à vida política.

Redes sociais são um bom filtro

Àqueles que tiverem cônjuges desempregados, filhos e netos precisando de ajuda, cabe aos amigos, às organizações sociais às quais pertençam, ajudar no que for necessário para não lhes faltar nada.

Estamos num ritmo de construção social a exigir de cada um de nós o cumprimento da sua parte. Seguramente, desse jeito, deixaremos de ser um país diferente no futuro. Tentar transformar pessoas que não respeitam sua própria história em personagens, celebridades, mitos, serve apenas para comprovar a volatilidade da mídia. Desse ponto de vista, a tentativa de catapultar e mitificar Dirceu e outros mensaleiros para as redes sociais foi um retumbante fracasso.

Para o bem ou para o mal, as redes sociais são um bom filtro.

***

[Reinaldo Cabral é jornalista e escritor]

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