Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

Elogio ao óbvio

Por Alfredo Henrique em 23/10/2012 na edição 717

Fazer jornalismo é contar uma história. Esta primeira frase, apesar da ingenuidade aparente, conseguirá sustentar, pelo tempo necessário, alguns exemplos cotidianos que nos ajudarão a evidenciar os diversos contextos sobre ações que nos rodeiam – quer os queiram encarar ou não.

Os veículos de comunicação – não importa o suporte midiático – dependem do mercado e, ao mesmo tempo o constituem, agregam, divulgam. O mercado também precisa destes suportes midiáticos para tornar seus produtos conhecidos, ou melhor, cotidianos. A divisão de temas em cadernos de jornais, revistas e portais (por exemplo) demonstram – infimamente – a complexa rede de interesses que permeiam a sociedade. Pesquisas de interesse são feitas, definindo assim quais escolhas os veículos farão para atrair mais consumidores de informação.

Vamos usar como exemplo uma banca de jornais e revistas. É possível perceber rapidamente a variedade de “espécies” que constituem este “habitat” de opções de informação. Revistas direcionadas para quem gosta de fofoca, literatura, política, cotidiano, putaria, entretenimento, ou que reúnem tudo isso e um pouco mais, são vendidas e – consequentemente – sustentam uma estrutura constituída por profissionais, que selecionam o que alguns irão ler e que outros irão consumir. Os temas mais “consumidos” geralmente são da área entretenimento (entendam fofoca, cultura inútil e esporte) e violência.

Outra preocupação

Os “produtos” sobre violência mais consumidos são os factuais, com prazo de validade, que são substituídos diariamente, contribuindo para a alienação de uma parcela da sociedade – parcela esta que prefere não refletir sobre a gravidade de situações que ocorrem ao seu redor. Para compensar isso, o mesmo mercado que oferece o produto violência também disponibiliza o produto entretenimento. O exemplo mais próximo disso são as novelas de TV, as “notícias” que elas geram e que são consumidas e usadas como “assunto em comum” em diversos ambientes.

O exemplo mais recente é o da novela Avenida Brasil, da Rede Globo. No dia 15 de outubro, a novela registrou 49 pontos do Ibope. No mesmo horário, o SBT ocupava a segunda colocação e marcava 5 pontos. Cada ponto equivale a 60 mil casas na grande São Paulo. Um comício na capital de São Paulo, em que a presidente Dilma Rousseff iria apoiar a candidatura do petista Fernando Haddad à prefeitura, foi adiado porque ocorreria no mesmo horário do capítulo final da novela global – no dia 19 de outubro.

O jornal O Globo, da mesma rede que produz a novela, também publicou reportagem em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a população se preocupava mais com a queda Palmeiras para a segunda divisão do futebol paulista do que com o julgamento do “mensalão” – que já condenou nomes importantes da cúpula do PT por corrupção, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente e o ex-tesoureiro do partido, José Genoíno e Delúbio Soares, respectivamente. A frase de Lula, na íntegra, é assim: “Eu não estou preocupado com isso agora. O povo não está preocupado com isso, o povo está preocupado é se o Palmeiras vai cair e se o Fernando Haddad vai ganhar.” (A matéria onde consta esta frase pode ser lida aqui.)

Lição de Capote

Não critico o jornal, estou mostrando como o mercado de informação é amplo e oferece o que a pessoa quiser – basta escolher. Um dos destaques da primeira página do jornal Folha de S.Paulo do dia 17 de outubro é sobre o último capítulo da já mencionada novela da Globo. A Folha também publicou a frase de Lula e divulgou informações sobre a novela – pois, como empresa, sabe que este segundo produto acaba financiando o primeiro.

A frase de Lula sobre “as preocupações do povo” repercutiu negativamente, mas sem querer parafraseou com uma máxima atribuída ao filósofo grego Platão: “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles gostam.” É óbvio, mas a política é feita desde o momento em que uma criança convence um adulto a lhe dar um doce antes do almoço, até decisões que influenciam diretamente nossas vidas – para bens e para males.

Infelizmente, a prática mostra que ainda estamos longe. A imprensa, como participante do mercado da informação, oferece informações tanto para quem se interessa como para quem não se interessa por política. Independentemente disso, ela é feita. Não adianta generalizar e proferir frases que morrem ao vento como “político é tudo ladrão.” Também não adianta atribuir as mazelas da sociedade às instituições, outras pessoas etc. A imprensa faz sua parte – na medida do possível, evidenciando irregularidades que, para serem mudadas, precisam de participação, de ação. Não condeno, muito menos defendo, o fim do entretenimento. Mas que ele não seja encarado como uma compensação e usado como ferramenta de crítica, ingenuamente, contra a obviedade.

O jornalista e escritor Truman Capote (1924-1984) escreveu uma frase que sintetiza esta reflexão: “Não há gênero de intolerância mais desgastante do que o resultante da condenação de características que você mesmo possui.”

***

[Alfredo Henrique é jornalista, Guarulhos, SP]

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