Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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FEITOS & DESFEITAS > MIT TECHNOLOGY REVIEW

O recado do astronauta

Por Flávio de Carvalho Serpa em 30/10/2012 na edição 718

A revista do legendário Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), aMIT Technology Review, estreou na edição de novembro/dezembro uma reforma gráfica e editorial com uma capa que marca e dá o tom das mudanças. O belo retrato de Buzz Aldrin, o segundo homem a andar na Lua, minutos depois de Neil Armstrong, mostra toda a dignidade de ancião sereno e majestoso. O portrait foi capturado por Dan Winters, o fotojornalista das celebridades que vão de Barack Obama ao Dalai Lama, passando por Stephen Hawking e Angelina Jolie.

A presença de Winters na capa da MIT Technology Review, uma revista mais identificada com nerds e a elite intelectual global, é um dos sinais da reforma.

Fundada em 1899, a revista, agora com uma edição digital, vai muito bem e saiu incólume da tragédia das publicações impressas – afinal tem um público cativo que não segue o canto das sereias do modismo.

O editor da revista Jason Pontin, no editorial, com um certo desdém, deixa aos leitores o julgamento das novas firulas gráficas e garante, desconcertantemente, que não vai mudar nada no conteúdo – uma assertiva meio herética dos gurus da nova editoração que se encantam com besteiras e frivolidades cosméticas da moda.

Cenário desolador

A chamada de capa, dá o segundo tom da reforma. Abaixo da cara serena mas severa do moonwalker Buzz Aldrin com seus profundos olhos azuis, vem o título provocador: “Você me prometeu colônias em Marte. Em vez disso ganhei o Facebook”.

“Você” no caso não é ninguém particularmente. Difusamente, são aqueles que fizeram a humanidade sonhar com um futuro épico da conquista do espaço e nos deram a frivolidade de um Facebook, que muita gente acredita piamente ser o arauto uma nova era da humanidade sob o manto sagrado das redes sociais digitais.

“Não somos promotores acríticos de novas tecnologias. Reconhecemos que qualquer revolução tem ganhadores e perdedores”, escreve Pontin, “mas estamos dispostos a acreditar que a tecnologia é uma força poderosa para o bem.”

Abaixo da chamada de capa, uma linha fina categórica: “Paramos de resolver grandes problemas. Conheça os tecnólogos que não desistiram”.

Os grandes problemas são aqueles que acabam sendo varridos para debaixo dos tapetes e empurrados com a barriga pelos governos e a sociedade. Como os Estados Unidos perderam a capacidade de resolver grandes problemas?

Quem tenta responder é o editor Pontin, num longo artigo que soa como uma convocação para a retomada do espírito progressista e aventureiro da ciência e tecnologia. Depois de recapitular a epopeia da missão à Lua de Armstrong e Aldrin, Pontin mira no Vale do Silício, que deveria ser o celeiro de grandes inovações. Foi lá que o editor pescou os sinais de descontentamento na Meca das tecnologias. Começando por Peter Thiel, um dos fundadores do bem sucedido PayPal: “Queríamos carros voadores e em vez disso nos deram os 140 caracteres… o Twitter deu a 500 pessoas segurança no emprego pela próxima década, mas que valor criou para a economia inteira?”, pergunta o cáustico Thiel.

O editor chefe da MIT Technology Review achou um cenário desolador no Vale do Silício. Os chamados startups dos últimos 15 anos são ridículos, com exceção do Google. Nada como empresas do tipo da Intel, Apple ou dos desafios enfrentados por Bill Gates, de “por um computador em cada casa e mesa de trabalho”.

Desafio da sobrevivência

Os grandes problemas, repete Pontin, estão escancarados: crise energética, crise acadêmica, poluição, fome, doenças endêmicas e os bilhões de pessoas no planeta que não têm água potável nem energia elétrica.

Essa edição especial da MIT Technology Review avança por todos os grandes problemas e pelo trabalho de cientistas e tecnólogos que persistem no caminho de encarar o desafio de fazer algo grandioso que ainda valha a pena.

O depoimento de Buzz Aldrin tem seu lado melancólico de ver que a paixão romântica pela ciência e tecnologia na sua juventude parece ter se esvaído, e que vivemos hoje com os restos herdados desse ímpeto criativo que levou o homem à Lua. Mas ele continua otimista, acreditando num novo começo que leve a humanidade a enfrentar o maior problema da atualidade: a sustentabilidade num planeta de recursos finitos. Dessa feita, em vez do empurrão apaixonado na descoberta e aventura do espaço cósmico e conquista da Lua, o motor para enfrentar esse grande desafio é simplesmente a sobrevivência da humanidade num planeta castigado pelo abuso da tecnologia predatória.

***

[Flávio de Carvalho Serpa é jornalista]

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