Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA, IMPUNIDADE & MITOS

O Brasil político à procura de sua identidade

Por Reinaldo Cabral em 18/12/2012 na edição 725

Há quatro questões essenciais em discussão no Brasil dos últimos 10 anos, cuja definição paradigmática será crucial para a história política do país: o fim da impunidade, a redefinição de mito político, o encontro da paz e o posicionamento/regulamentação da mídia. Os embates políticos registrados no Brasil, sejam sangrentos ou meramente organizacionais, em sua maioria, são historicamente pontuais. Até as intervenções políticas e sociais guiadas pelo Estado ou em nome dele que poderiam ter criado paradigmas de longa duração, acabaram sendo desvirtuadas por exigências circunstanciais, perdendo em serenidade e equilíbrio, vantagens só permitidas pela maturidade política.

Desde a Proclamação da República (1889), a história política do Brasil está abarrotada de ações, intervenções, movimentos marcados pela busca de dominação de uns grupos ou segmentos (partidários e sociais) políticos por outros, mas em cujo período de supremacia se observa quase sempre uma grande discrepância entre os objetivos de curto, médio e longo prazos. Aliás, o longo prazo tem sido esticado por uma idealização de democracia cuja realidade tem tornado o futuro inalcançável.

Assim, o Brasil tem quase um milhão de leis que servem para tudo. Apesar disso, a impunidade se mantem incrustrada: bons advogados da lista dos que trabalham para os próprios ministros dos tribunais superiores, como Nabor Bulhões, encontram brechas para resolver praticamente todos os problemas dos seus clientes. As pessoas leigas ficam perplexas ao constatar, por exemplo, como o bicheiro Carlinhos Cachoeira é condenado num dia, preso no outro e permanece na cadeia o tempo suficiente para o seu defensor preparar a documentação necessária à sua soltura.

A desmistificação de Lula

Por isso, a transmissão do julgamento do mensalão pela TV Justiça não foi apenas um espetáculo midiático nunca antes visto pela sociedade brasileira com acesso à TV fechada como mostrou ser possível o país caminhar corretamente pelos caminhos do direito constitucional sem abdicar de sua participação cidadã através do Poder Legislativo.

Certamente, a melhor contribuição para a sociedade em termos paradigmáticos do julgamento do mensalão foi a delimitação do fim da impunidade. Uma atribuição de que o STF-Supremo Tribunal Federal pode, mas não deve, abrir mão sob pena de lançar o país à deriva dos embates parlamentares.

A trajetória política do ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, com seus altos e baixos, é explicada pela antropologia embora antigos manuais de comunicação mais ortodoxos consagrem a teoria do ideólogo nazista Joseph Goebbels mais aplicável ao caso – de tanto se repetir a mesma coisa o tempo todo as pessoas acabam acreditando ser aquela a verdade única. Orientado pelo ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, Lula encharcou a nação com seu “não sabia de nada”, agora fartamente desmentido com a publicação do depoimento do operador do mensalão, Marcos Valério, pelo jornal O Estado de S.Paulo.

Convivência entre os contrários

Primeiro, criou-se uma auréola histórica em torno do nome do ex-metalúrgico, quando a grande mídia se mostra aparentemente convencida de que ele seria um grande presidente da República. Os coleguinhas adoravam compará-lo ao Lech Walesa (presidente da Polônia entre 1990-95), eletricista e líder dos trabalhadores do porto de Gdansk, na Polônia. A mitificação de Lula foi consolidada com sua viagem, de carro, pelo interior do Brasil antes das eleições que o conduziriam ao Planalto.

Quando percebeu que havia conquistado novos parceiros políticos orientadores de sua “missão” política, já ideologicamente autônomo, Lula se afastou do grupo de sociólogos da Universidade de São Paulo, orientador dos seus primeiros passos na política brasileira. Daí ser surpreendentemente difícil a desmitificação de Lula pelos mesmos editores políticos que o mitificaram. A própria mídia conservadora à qual Lula só teve acesso após empunhar a faixa presidencial hoje parece constrangida ao noticiar os percalços e desvios dele na presidência – se ele não estivesse envolvido com o mensalão estaria a caminho de um fenômeno sociológico classificado de sacralização.

A carência ou vazio de líderes políticos históricos foi suprida, de uma hora para outra, com a “descoberta” possibilitada com o passamento do arquiteto Oscar Niemeyer. O perfil de Niemeyer tem as características de uma sociedade almejada, mas pouco tolerada por segmentos políticos dominantes ao longo do último século: a convivência entre os contrários. Comunista confesso, o pensamento dele sempre foi plural. Nunca deixou de ser fraterno nem solidário.

Educação para a paz

Nunca é demais comparar a diferença que conduziu o planeta a ter um mito consistente. A ação política de Mahatma Gandhi (1869-1948) na Índia foi o episódio inicialmente pontual contra o colonialismo controlador das exportações de sal da Índia para o império britânico, mas cuja duração e resultados o transportaram para os umbrais da história do pacifismo mundial.

Como um ato contínuo, o pacifismo planetário teve grande impulso com a ação de líderes mundiais indianos a partir de 1970 com uma grande difusão de hare krishna, uma invocação direta de Deus. A mitificação de Gandhi obedeceu a uma trajetória histórica que não foi quebrada por altos e baixos de uma carreira política como a do Lula, que serviria de exemplo para toda uma geração não fosse intercalada de sucessivos escândalos, com respingos de sangue – como o assassinato do prefeito paulista Celso Daniel, crime não inteiramente esclarecido até hoje.

No século 20, os Estados Unidos sofreram uma onda de violência, de longe, bem maior que a do Brasil dos nossos dias, iniciada com o assassinato do presidente Kennedy. Foi a partir daí que a educação para a paz começou a tomar pé, a ponto de em vários estados norte-americanos, como os da costa-oeste, a educação para a paz estar presente nos currículos escolares desde o ensino fundamental até a universidade.

Novo marco histórico

As turbulências egocentristas e transformacionais do segundo quartel do século 20 no Brasil têm levado a extremos paradigmáticos cuja concretização consolidará os rumos da história do país. As novas mídias brasileiras estão surgindo desde o advento da internet e as mídias conservadoras só tomarão conhecimento delas quando forem ultrapassadas.

Talvez um novo marco histórico esteja sendo construído pelas novas mídias, como a radio online e TV YouTube, um dos alicerces para uma nova estabilização do processo político democrático do Brasil. Quem sabe dessa forma o país consiga finalmente encontrar sua identidade política?

***

[Reinaldo Cabral é jornalista e escritor]

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