Quarta-feira, 26 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº951

FEITOS & DESFEITAS > CULTURA & INTERNET

Degeneração Y

Por Gabriel Leão em 19/02/2013 na edição 734

Os personagens animados Beavis e Butt-Head, com suas cabeças deformadas, vomitam impropérios causticamente contra costumes americanos e de outras culturas; o roqueiro Kurt Cobain cantando sobre a vontade de tirar a própria vida; o rapper Tupac Shakur entoando versos aludindo a sexo e tiroteios; os lutadores de telecatch Shawn Michaels e Triple H, junto ao boxeador Mike Tyson, apontando repetidas vezes para suas virilhas e gritando “chupa” para a plateia, enquanto no outro canal Scott Hall, Kevin Nash e Sean Waltman, amigos do outro trio nos bastidores, reproduzem o gesto numa atração rival.

A cultura de massa dos EUA nos anos 1990 foi marcada pelas figuras citadas acima, expoentes da geração X. Cenas de desrespeito por figuras de autoridade não necessariamente por rebeldia, mas em muitos casos por hedonismo, cinismo ou desilusão. Michaels e Triple H se intitulavam “Degeneração X” e diante câmeras alcançavam milhões de lares nos EUA e outros países do mundo. A globalizada MTV por sua vez expandiu a fama de 2Pac, Cobain e Beavis & Butt-Head em ainda maior proporção.

O romantismo e valores morais dos baby boomers foram trocados por pragmatismo. A Sociedade do Espetáculo de Guy Debord era cada dia mais alimentada. A televisão adotou a linguagem de edição rápida de videoclipe e o exibicionismo abria espaço para os “15 minutos de fama” alertados por Andy Warhol.

A convulsão do império

O narcisismo é oriundo da insegurança, conforme o historiador Christopher Lasch em Mínimo Eu (1984) e somando as ideias deste autor com as dos intelectuais citados acima e adicionando a comunicação de massa e o entretenimento no mundo globalizado é possível adiantar o que viria depois. Catalisada pela internet, surgiu a Geração Y. Com seus computadores pessoais, estes que são a principal força de trabalho do momento e futuros líderes políticos e empresariais potencializam sua capacidade de serem estrelas mesmo que para um público próprio e segmentado. O minuto de “fama” está garantido.

O ego e o narcisismo estão nas telas de YouTube, comentários em sites, blogs, Instagram e outras ferramentas que perderam espaço há pouco tempo ou que vão perder e serem substituídas na liquidez da internet. Para eles, existir é estar online. Tendo que muito deste narcisismo venha da insegurança. São observados contemplando o futuro desconhecendo o que os espera. Muitas carreiras podem ser seguidas e não apenas opções tradicionais como no período de seus pais e avós.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que possuem uma vasta gama de personagens para interpretar no mercado de trabalho, há muitos atores buscando o mesmo papel. A ruptura econômica de 2008 mostrou no que o sonho americano havia se tornado e aliados e colônias despertaram convulsionando com o império.

Como semideuses

Em janeiro, a Espanha recebeu ao todo 4,98 milhões de pedido de auxílio-desemprego. As imagens das filas de emprego mostram muitos rostos jovens. A Grécia, berço da civilização, está quebrada e as cenas mostram muitos rostos sem marcas de tempo e expressão vociferando revoltados com o fim do mundo que conheciam. Em 2011, a revolta que tomou as ruas da Inglaterra, “foi um motim de consumidores excluídos”, analisou o sociólogo Zygmunt Bauman. Os Brics aparecem como vedetes da Nova Ordem Mundial, porém ao se olhar com cuidado é possível ver que agonizam com problemas de estrutura e Direitos Humanos.

Para aliviar a melancolia, a Geração Y busca alento no consumismo das marcas e “pornificação” de objetos e relacionamentos. Enquanto os preços dos imóveis não reduzem são pequenos reis em seus quartos morando com os pais comandando seus exércitos em games online. Conforme o mundo evolui, a Sociedade do Espetáculo vai acentuando seus traços. Festejam por festejar. A política cedeu espaço para a imagem, a rebeldia pronta para ser clicada e estampada em passeatas que terminam em “cervejadas”, “churrascadas” e outras “adas” acompanhadas por artistas cujos nomes não perduram por mais de uma década.

Como semideuses, estão sempre gozando nas redes sociais. Porém quando as luzes azuladas de iPhones se apagam, o som da música eletrônica é usurpado pelo silêncio e os filtros do Instagram não funcionam, esses meninos-homens contemplam o vazio horizonte com olhos cansados de idosos e percebem que estão “chupando”.

***

[Gabriel Leão é jornalista e mestre em Comunicação, São Paulo, SP]

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