Sábado, 16 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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FEITOS & DESFEITAS >

Imprensa não está preparada para o jornalismo online

Por José Cleves em 30/04/2013 na edição 744

Essa vida de repórter que vira notícia está me deixando cada dia mais decepcionado com a nossa categoria. Toda vez que sou personagem central de um fato de maior repercussão, acordo contrariado e envergonhado com o noticiário a respeito do assunto. Agora mesmo, fui ouvido como testemunha no julgamento de Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, réu acusado de ter matado em 2010 a ex-amante do goleiro Bruno, Eliza Samúdio, e o resultado da notícia a respeito do que falei no júri foi desastroso em alguns veículos de comunicação.

Ocorreram erros de informação e de discernimento, numa afronta aos fundamentos do jornalismo. Por que erram tanto? Não sei, tudo parece muito confuso, mas alguma coisa tem que ser feita para que a nossa imprensa não venha a ser responsabilizada pela formação equivocada da opinião pública.

A pressa do jornalismo online acirrou a competição entre os veículos e isso pode explicar tantos erros porque grande parte dos jornalistas responsáveis pelo noticiário em tempo real são jovens recém-formados, com pouco conhecimento de fatos passados e sem uma retaguarda eficiente. A impressão que se tem é de que do jeito que se ouve, se escreve e publica, sem pesquisa e avaliação prévia da redação, como ocorre com os repórteres de rádio e TV, quando estão ao vivo.

Repetentes da Escola Base

Ora, o jornalismo escrito não goza de recursos que a tecnologia das emissoras de rádio e televisão possui, como microfones e relatos na primeira pessoa de seus personagens. O repórter do impresso – ou do online escrito – registra o que viu ou escutou, numa rapidez tão grande que o fato é reconstituído à medida do seu acontecimento, e isso coloca em risco o resultado final dessa transmissão relâmpago de pensamentos.

Não é todo repórter que está preparado para isso, daí os erros de informação. Até porque, muitos deles têm dificuldades para organizar tanta informação ao mesmo tempo, alguns por falta de experiência. Esta coisa precisa de ser resolvida pela redação. Tem que “dar um time” entre o que se escreve e a publicação, para a revisão criteriosa do texto. Os erros na cobertura do julgamento foram tantos, que o polêmico advogado de defesa Ércio Quaresma, aborrecido com as informações truncadas, advertiu a imprensa sobre a necessidade de se qualificar primeiro para informar depois. Disse o criminalista no final do meu interrogatório, exibindo o meu livro A Justiça dos Lobos – por que a imprensa tomou meu lugar no banco dos réus (nome, aliás, muito sugestivo para o assunto em pauta).

“A imprensa precisa usar cotonetes, pois não está ouvindo direito o julgamento”, ele disse, referindo-se, principalmente, a uma informação equivocada sobre o que dissera no dia anterior a respeito do réu. O livro narra erros cometidos pelos repetentes da Escola Base em 2000, quando boa parte dos jornalistas comprou lacrada a versão da polícia de que eu havia matado a minha mulher, vítima de um assalto que a polícia transformou em homicídio de minha autoria. O erro levou-me à condição de réu julgado e absolvido, com o processo sendo arquivado em 2009 com a minha versão inicial do assalto e a prova e contraprova das fraudes do inquérito.

A “prisão”

Intimado pela defesa de Bola para desqualificar o trabalho do ex-delegado Edson Moreira, o mesmo do meu caso, neguei-me a comparecer ao fórum por entender que em nada poderia colaborar com o julgamento e também porque não queria mais saber de holofotes sobre esse meu drama. Não teve jeito. Diante da rebeldia, a juíza Marixa Fabiane Lopes determinou a minha condução coercitiva ao tribunal, uma espécie de prisão, com direito a invasão de meu apartamento por quatro militares e três oficiais de justiça que me levaram à força.

Fiquei dois dias aguardando o depoimento no fórum – eu, o deputado estadual Durval Ângelo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de MG, e o corregedor-geral da Polícia Civil de MG, delegado Renato Patrício Teixeira, ambos também arrolados como testemunhas de defesa e de acusação, respectivamente. Ficamos incomunicáveis em salas separadas e dormimos em um hotel do centro de Belo Horizonte, sem direito a televisão, telefone e contato um com o outro. Os quartos foram previamente revistados, inclusive com detectores de metal. Nossas bolsas foram revistadas e o corredor guardado por oficiais de justiça e militares.

Marcaram o meu depoimento para o dia 24/4, mesmo dia do interrogatório do ex-delegado Edson Moreira. Ele pela manhã e eu à tarde; depois inverteram a ordem e fui o primeiro a ser ouvido. Ao final do interrogatório, de mais de quatro horas, a juíza me pediu desculpas pela coerção, alegando que o meu depoimento era considerado imprescindível pela defesa que já havia me intimado no julgamento de Bruno, porém com endereço errado, o que facilitou a minha rebeldia.

Ou o delegado sabia da armação ou foi usado pelo grupo

Vamos ao que eu disse e ao que, infelizmente, foi divulgado por parte da imprensa.

O interrogatório começou com o advogado querendo saber dos erros praticados pelo ex-delegado Edson Moreira no meu caso. Relatei, em detalhes, as fraudes existentes no inquérito, como a montagem fotográfica grotesca de um revólver sobre uma luva (na verdade, um pano preto), para dizer que eu utilizei uma luva (e assim a polícia justificar a inexistência de pólvora em meu braço).

Falei, ainda, da farsa sobre os dois depósitos desta arma – o primeiro dois dias após o assalto e o outro uma semana depois para a montagem da arma sobre o pano preto. Enfim, respondi, de frente para a juíza Marixa Fabiana, e de perfil para os sete jurados, tudo que o advogado e o promotor Henri Wagner Vasconcelos me perguntaram, afirmando, inclusive, que o delegado divulgou na imprensa que havia pólvora na minha mão, digital na arma e que a balística era positiva, resultados esses desmentido pelos laudos.

Relatei, também, que o delegado escondeu essas informações do promotor Rogério Felipeto, designado pela Procuradoria-Geral de Justiça para acompanhar o caso, a meu pedido. Já no final do interrogatório, o promotor me perguntou três coisas: o que eu achava do delegado, profissionalmente, e se foi ele quem fez o depósito da arma na cena do crime. Respondi que tinha, até a morte de minha mulher, uma boa impressão do então delegado Edson Moreira (“que é um bom delegado, reforcei”), e que não foi possível desvendar quem foi o autor dessa façanha, completando que, caso soubesse disso, teria escrito no livro.

O promotor perguntou se eu não achava estranho a polícia colocar a arma na cena do crime e pedir o exame de balística. Respondi que havia duas hipóteses para o caso: ou Moreira sabia da armação preparada para me colocar na cadeia ou foi usado por esse grupo, sem saber de nada, inclusive que a arma fora colocada na cena do crime (o delegado foi designado para investigar o caso dia 12 de dezembro, dois dias após o crime, mesmo dia da localização surpreendente do revólver calibre 38).

O que importa

Pois bem. Isso foi o que eu disse. Infelizmente, boa parte dos veículos valorizou duas informações em detrimento das demais que nem citadas foram, ambas favoráveis à acusação: a de que eu chamara o delegado de competente e que, segundo disse (sic), ele, o delegado, não tivera culpa sobre os erros cometidos no inquérito. A TV Alterosa, afiliada do SBT em Belo Horizonte, por exemplo, deu essa notícia em primeira mão, logo após o meu depoimento: “Arrolado pela defesa de Bola, José Cleves disse que Edson Moreira é um bom delegado e que não teve culpa nos erros cometidos no seu caso.”

A mesma notícia foi repetida por vários veículos de comunicação, numa forma simplista de fechar a reportagem da maneira mais conveniente possível. Foram partidários, quando deveriam ser neutros, e isso é gravíssimo em nossa profissão. Alguém pode arguir pressa (no caso das TVs), mas jornalismo ao vivo é isso mesmo, o repórter tem que ter muita atenção e discernimento.

Foi, na verdade, um verdadeiro coice no interesse público, por falta de critério jornalístico e discernimento, porque o mais importante no meu depoimento é a parte acusatória – o fato, por exemplo, de eu ter dito que o delegado escondeu laudos do promotor, mentiu à imprensa sobre resultados de laudos e rubricou provas imorais do inquérito, sem qualquer questionamento sobre a grotesca montagem fotográfica da arma sobre o misterioso pano preto. Eu disse que a tal luva desapareceu do processo e ninguém levou em consideração essa violação dos autos. Falei sobre várias outras coisas importantes, mas o que interessou a estes jornalistas foram as palavras que melhor soavam aos seus ouvidos. Será que o fato de eu dizer que não sei quem fez o depósito da arma é mais importante do que este depósito? Será que o fato de eu considerar o delegado um profissional competente, é o suficiente para tirar a sua responsabilidade sobre as fraudes assinadas por ele no inquérito? Ou será que a capacidade cognitiva de uma pessoa sobrepõe-se ao caráter, ou seja, não importa o dolo e a má (ou boa) fé, o que importa é que o indivíduo é competente, e isso basta.

Erros de informação

Como se sabe, o conhecimento e a experiência, fatores qualificadores de qualquer profissional, podem ser utilizados para o bem ou para o mal, sendo a inteligência um traço característico dos piores bandidos desse planeta. Um jornalista competente pode, por exemplo, pelo ardil peculiar aos asnos da informação, produzir textos conforme a sua conveniência, de forma quase imperceptível, sou testemunho desse tipo de manobra em nosso meio.

Mas, além dessas falhas de fundamento do jornalismo, tivemos erros absurdos de informações, um deles, o mais brutal, foi praticado pelo G1/MG (Globo), conforme pode ser comprovado no link http://g1.globo.com/minas-gerais/julgamento-do-caso-eliza-samudio/n…

Diz a reportagem num dos trechos:

“A testemunha afirmou também que cinco dias antes do assassinato da mulher foi assaltado e o revólver dele foi roubado, e colocado próximo ao local do crime, dois dias depois. Segundo as investigações, foi a arma usada para matar a vítima.”

Meu Deus, onde a repórter Sara Antunes arrumou essa aberração? Se isso fosse verdade, eu era hoje um homem condenado de forma inapelável. Meu revólver roubado? Nada foi escrito, registrado, falado e ouvido sobre tal absurdo. A arma em questão pertencia a um militar que disse nos autos tê-la vendido a uma pessoa, sob minha encomenda, porém sem qualquer prova dessa negociação mentirosa. Está farsa já foi desfeita, desmoralizada e imortalizada em livro, portanto, já era. Já a versão reportada pela referida jornalista, não passa de uma quimera, algo inadmissível a um profissional da área de comunicação.

A conclusão que tiro de tudo isso é de que a imprensa não está preparada para o jornalismo online, em tempo real.

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José Cleves é jornalista

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