Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

A velocidade da informação e a ética jornalística

Por Sthael Samara em 14/05/2013 na edição 746

Para o jornalista inglês James Dart, do The Guardian, as questões éticas são um problema sério no jornalismo esportivo contemporâneo. Durante o Seminário Internacional de Jornalismo Esportivo, Indústria e Sociedade, promovido pelo Instituto Projor/Observatório da Imprensa nos dias 7 e 8 de maio, em Brasília (DF), ele indicou que questões relacionadas a anunciantes, patrocinadores e fontes e a velocidade exigida pelo mercado atual são os principais fatores atrelados a conflitos éticos na profissão. “São tempos difíceis para o jornalismo e na Inglaterra acontece o mesmo”, disse.

Dart lembrou que na Grã-Bretanha os primeiros jornais foram criados pelo rei para falar sobre o rei e tornar a família real algo próximo à vida da população. Segundo ele, essa herança é perceptível até hoje nos tabloides ingleses, que falam da vida das celebridades e publicam qualquer coisa, mesmo que seja apenas um rumor, sem a necessidade de checar nada. “Nos tabloides, essa é uma postura evidente, mas será que essa herança não afeta aos jornais ditos sérios também?”, indagou.

Velocidade

Credibilidade da informação é premissa básica do jornalismo, disse o jornalista, ao lembrar que os conteúdos jornalísticos servem para informar a população, dar a ela conhecimento para pensar e agir, e também para se converter em registros históricos. “E aí, de repente, tem um cara inventando histórias ou publicando coisas das quais não tem certeza. E então, continuamos confiáveis? Isso é um problema sério”, afirmou. “Quando você vê o caso de um repórter que inventou uma história, isso é muito ruim porque compromete o jornalismo em sua raiz, [que é] informar com credibilidade.”

De acordo com Dart, as redes sociais são uma bênção que ampliou as possibilidades do jornalismo de muitas formas, mas, à medida que elas se consolidam, o problema de publicar besteiras também se ampliou, e muito. “Não porque o jornalista necessariamente invente mais histórias agora, mas porque não as checa”, explicou. Para ele, hoje, não apenas na cobertura de esportes, mas em todo o jornalismo, há uma necessidade crescente de velocidade que desconsidera o fato de que de nada adianta ser rápido, se não for preciso e exato. “Não adianta ser o primeiro a publicar se a informação estiver errada.”

O jornalista citou o exemplo do repórter de um portal online que cobre uma coletiva de imprensa e é solicitado a noticiá-la em tempo real. Segundo Dart, este repórter não tem tempo de refletir e tentar extrair outras informações dali. “Por isso, muitas vezes vemos informações confusas na internet.”

Outro exemplo dado pelo jornalista é o do caso de um jogador que tuíta uma declaração preconceituosa sobre um companheiro de time. Dart questiona em quanto tempo um jornalista para publicar aquela informação. “Quanto tempo antes que o concorrente publique e seu chefe brigue com você? Dois segundos? É só o tempo de um retuíte”, disse. Na sua opinião, essa pressão pela rapidez faz com que os veículos não tenham mais certeza do que publicam. “Como o repórter pode saber se não está comprando alguma coisa falsa? Ou se não há outras coisas por trás? Ele não tem tempo de verificar nada e esses são todos dilemas éticos”, afirma.

Segundo Dart, se você tem três ou quatro vozes de internautas que conseguem alguma atenção e influenciam pessoas, isso se propaga de modo assombroso. “E então as pessoas começam a acreditar em coisas que muitas vezes não são verdade. E todos passam a difundir aquilo como verdade absoluta”, disse. Ele alertou para o fato de que estes são tempos de muita tecnologia ao alcance de qualquer um, mas cabe ao jornalista não acreditar em tudo que ouve ou vê. “Precisamos ir atrás, verificar, ter certeza e descobrir novos elementos.” Contudo, na opinião do jornalista, o que acontece é o oposto disso. São jornalistas que “compram” as informações advindas das redes sem filtro algum e portais que, por consequência, acabam trabalhando com versões atualizadas da mesma notícia. “É a notícia [falsa], uma segunda desmentindo a anterior, outra com a resposta do jogador envolvido na notícia errada, e ainda uma quarta com a repercussão disso tudo”, afirmou.

Para ele, isso tudo tem a ver com a credibilidade dos conteúdos produzidos hoje. “A informação do jornalista não é presumida como confiável porque ele checa tudo mais de uma vez? E então ele publica coisas das quais não tem certeza? O que a ética diz sobre isso?”

Códigos editoriais e assessorias

Dart apontou ainda as questões dos códigos editoriais relacionados aos interesses do jornal. Segundo ele, se um banco, por exemplo, é um grande anunciante do jornal, o jornalista não pode escrever sobre um caso de fraude envolvendo a instituição. “É complicado porque breca a liberdade do repórter e impede a realização da sua função de informar”, disse. Ele comentou também o caso de marcas que pagam para ter seus nomes mencionados nos veículos. “Você pode assegurar que esses fatores não estão influenciando nas publicações? Acho que não”, afirmou.

O jornalista chamou a atenção para o fato de que times e atletas estão cada vez mais rodeados por assessores e, quanto mais assessores, mais eles tentam controlar e blindar as informações. “Nós temos que lutar contra isso. A informação é o básico para qualquer jornalista”, afirmou. Ele relatou que, na Inglaterra, uma prática que vem surgindo com alguma frequência é a de fontes cobrarem para dar entrevistas. “E aí? Você aceita? Até que ponto isso influenciará a informação obtida? E qual a durabilidade dessa relação paga entre fonte e repórter?”

O fantástico

Na opinião de James Dart, o caso Lance Armstrong, o ex-ciclista que confessou fazer uso de doping, é uma das melhores peças de jornalismo das últimas duas décadas. “Deixar-se levar pelo fantástico é um grande mal de quem trabalha com esportes, mas os jornalistas não podem se permitir ficar cegos”, afirmou. Dart apontou que o papel do jornalista não se resume a relatar o que aconteceu ou falar sobre o atleta incrível. Averiguar, investigar e ter faro também é parte do processo de checagem. “Se houver pelo menos a suspeita de algo, você precisa ir em frente e verificar, descobrir informações para fazer sua reportagem.” Ele afirmou, porém, que o que tem acontecido é que essa faceta do jornalismo está sendo obstruída pela mitologia do meio. Para ele, é impressionante assistir quando um atleta famoso que usa drogas para aumentar seu desempenho passa despercebido dos jornalistas que continuam falando da beleza de seus movimentos, mesmo com todas as indicações dos exames antidoping.

>> Entrevista com James Dart

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Sthael Samara é estudante de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e repórter da Agência de Notícias UniCEUB

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