Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Maria Julieta, filha de peixe

Por Edmílson Caminha em 18/06/2013 na edição 751

Um dos pesos carregados por escritores, músicos, atores e artistas plásticos é o talento que herdam de pais famosos, com quem são, às vezes, indevida e maldosamente comparados. Assim acontece com Luis Fernando Verissimo, cujo sobrenome vem do romancista Érico; Bibi Ferreira, tão boa em cena quanto o pai, Procópio; Maria Rita, herdeira do talento e do timbre vocal da mãe, Elis Regina, e Maria Julieta Drummond de Andrade, que recebeu de Carlos não o gênio poético, mas a igualmente luminosa vocação para a crônica. Esta não sentiu o problema que alguns não conseguem administrar, como afirmou em texto por ocasião dos 75 anos de Drummond: “Muita gente há de imaginar que ser filha de poeta deve ser um destino glorioso; outros, que o fardo será pesado. Para mim, sempre foi natural ter o pai que tenho”.

Com apenas 17 anos de idade, escreveu A Busca, publicada pela José Olympio em 1946, novela que surpreende pela riqueza humana e pela boa realização literária. Em 1977, tornou-se cronista do jornal O Globo, colaboração que se estendeu por dez anos, até quase à morte, pelo câncer a que resistiu durante todo esse tempo. Das centenas de crônicas que assinou resultaram os livros Um Buquê de Alcachofras (1980), O Valor da Vida (1982) e Gatos e Pombos (1986). A partir de então, passou Maria Julieta pelo esquecimento em que, disse Manuel Bandeira, os autores defuntos temporariamente repousam como se em hibernação, para só há pouco reviver, na excelente coleção “Melhores Crônicas”, da Editora Global. O professor Marcos Pasche fez a seleção e o bom prefácio, honesto ao ponto de não esquecer páginas de menor relevância na obra da autora belo-horizontina.

Sempre me pareceu injusto o silêncio a que a cronista fora condenada, como tantas vezes comentei com seus filhos, e meus grandes amigos, Carlos Manuel, Luis Mauricio e Pedro Augusto. A ela própria, disse que a considerava tão boa prosadora quanto o pai, ao que me confidenciou: “Pois vou dizer-lhe uma coisa que nunca contei a ninguém. Quando adoeci, e não pude mandar para O Globo minhas crônicas semanais, meu pai as escreveu e encaminhou ao jornal; quando o doente era ele, fiz a mesma coisa, para que o Jornal do Brasil não deixasse de publicá-lo três vezes por semana. Acho que editores e leitores de um e do outro não perceberam a diferença, pois nunca houve reclamação…”

Mundo melhor

De fato. Leia-se, por exemplo: “Penso nos que sofrem, como eu, nesta manhã. Nos que vão morrer e sabem disso, nos que não encontram alívio em remédios e frases, nos que perderam o que adoravam, nos que neste momento soluçam, inconformados, nos que têm medo. Penso em meus irmãos espalhados e perdidos pelo mundo, com fome, órfãos de tudo, solitários, sem casa, sem amor, sem água, cobertor, coragem, sem sol, sem, sem, sem”. Encontra-se em “A angústia domada”, escrita por Maria Julieta, mas se disséssemos que por Drummond ninguém, creio, daria escândalo, pois a delicadeza do sentimento e a elegância do texto são comuns a pai e filha.

Além da boa obra, a cultura brasileira deve à cronista o valioso trabalho que exerceu como diretora, de 1976 a 1983, da hoje Fundação Centro de Estudos Brasileiros, mantida por nossa embaixada em Buenos Aires. A instituição oferece cursos de português e forma professores para o ensino da língua, a par de uma programação que leva aos argentinos o que há de melhor na música e no cinema brasileiros. Entre os quase 20 mil volumes da Biblioteca Guimarães Rosa inclui-se meu livrinho Lutar com Palavras, de 2001, no qual se lê:

“Em Itabira, converso com Pedro Augusto sobre um encontro que não houve: o de Drummond com Jorge Luis Borges. Não houve mas poderia ter havido, ao tempo em que Maria Julieta dirigia, em Buenos Aires, o Centro de Estudos Brasileiros. Lá, Borges foi recebido para duas conferências, quando poderia ter estado com o colega. Que se diriam dois dos maiores e mais ilustres nomes da poesia mundial neste século?”

Se não nos proporcionou uma conversa que entraria para a história, a Maria Julieta sou particularmente grato por me fazer amigo de Manuel Graña Etcheverry, nosso Manolo, brilhante poeta e intelectual argentino, e dos três filhos que tiveram, presenças humanas sem as quais, para mim, o mundo seria menor, e a vida, menos bela.

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Edmílson Caminha é jornalista e escritor

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