Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1020
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Cresce a demanda por novos roteiristas

Por Karla Spotorno em 02/07/2013 na edição 753

O mercado audiovisual aqueceu de vez. Como nunca, procuram-se boas ideias e roteiristas capazes de capturar a atenção dos 52 milhões de espectadores da TV por assinatura no Brasil. O zum-zum-zum em torno do profissional de roteiro ficou ainda mais alto nos últimos meses, porque as empresas do setor se veem às vésperas da entrada em pleno vigor da chamada lei da TV paga. A legislação, que vigora parcialmente desde o ano passado, passará a exigir 3h30min de produção nacional por semana nos canais por assinatura a partir de setembro.

Nos cálculos da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o aumento significa que a produção audiovisual no Brasil precisará passar das atuais 400 horas por ano para mais de 2 mil. Pelo que diz seu presidente, a Ancine não permitirá que o cumprimento da lei se dê na base do vale-a-pena-ver-de-novo-e-de- novo. “Não admitiremos que haja reprises excessivas”, afirmou Manoel Rangel, diretor-presidente da agência.

Como indica Rangel, a lei chacoalhou o setor de audiovisual no Brasil. O número de produtoras independentes passou de 175 para 329 nos últimos 18 meses, segundo a Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPITV). “Percebemos que há, não apenas uma demanda por roteiristas, mas por formatos que possam ser exportados pelos canais estrangeiros que estão no Brasil”, afirma Mauro Garcia, diretor-executivo da ABPITV. Na agenda cultural de várias cidades, cresce o número de cursos e eventos nessa área (leia abaixo).

A lei provocou muito mais do que aquecer o mercado de audiovisual. Por um lado, elevou a profissão de roteirista a um dos ofícios com maior potencial de valorização no país. Por outro, revelou as fragilidades da carreira e também a imaturidade do setor audiovisual no Brasil como uma indústria. Uma dessas fragilidades é a questão da remuneração. O problema é mais complexo do que simplesmente o valor dos cachês, segundo dizem os profissionais. Trata-se da forma como o mercado está organizado. Ao contrário das emissoras da TV aberta, os canais por assinatura normalmente não produzem o conteúdo que exibem. Compram de produtoras independentes que, por sua vez, compram as ideias e os textos de roteiristas freelancers.

“O grande problema é que, geralmente, não há verba para o desenvolvimento do roteiro na produção independente”, diz Newton Cannito, presidente da Associação de Roteiristas (AR) e premiado pelo roteiro da série “9mm: São Paulo”. Algumas produtoras já estruturaram áreas de criação e desenvolvimento de novas ideias, mas muitas ainda propõem que o roteirista trabalhe “no risco”. É uma forma elegante de dizer que o trabalho só será remunerado quando e se for contratado por um canal. Cannito e a AR reclamam dessa prática. Recomendam que os profissionais insistam com seus contratantes no cumprimento de uma tabela que está no site da associação (www.artv.art.br). Ali, um roteiro de teledramaturgia com 60 minutos deve remunerar o profissional em R$ 10,4 mil.

Para os roteiristas ouvidos pela reportagem, essa situação é uma consequência da história das produtoras independentes no Brasil. A maioria surgiu para atender a publicidade. Eram contratadas para executar um roteiro e imprimir seu estilo a partir da figura do diretor. “A cultura do audiovisual no país valoriza muito o diretor”, diz Patricia Oriolo, diretora da AR e roteirista de programas como “Supernanny”. A carreira de roteirista pode, portanto, não sair tão rentável e glamurosa como se espera.

Força na carreira

Essa parte da história o publicitário Tony Goes pode dizer que conhece bem. No início deste ano, abriu mão da carreira de redator publicitário e da carteira assinada por uma grande agência para trabalhar como roteirista. Por ora, vai ganhar metade do que recebia e aderir à vida de freelancer. Ele não demonstra estar incomodado. Entende que o mercado está se reorganizando e que vale arriscar. Afinal, a demanda está mais promissora que no início da década passada, quando ele havia feito exatamente o mesmo movimento, mas teve de voltar atrás porque o mercado estava mais difícil.

Goes retomou a carreira de roteirista driblando outra fragilidade do ofício no país. Em vez de trabalhar sozinho, assumiu o projeto de uma série para a produtora Coração da Selva – a mesma de “Antônia”, entre outras obras – com a roteirista e atriz Sílvia Lourenço. Juntos, eles trabalham numa “sala de escritores”, como dita o jargão importado do inglês (“writer's room”). É um espaço onde eles testam ideias, conceitos, arquétipos, diálogos e escrevem. E revisam. E escrevem. E reescrevem. Para Jacqueline Cantore, consultora do Programa Globosat de Desenvolvimento de Roteiristas, essa é a forma correta de escrever roteiros para a TV. “Nos Estados Unidos, as séries são escritas desse jeito”, diz Jacqueline, que voltou ao Brasil depois de 16 anos trabalhando no exterior para também aproveitar o momento do mercado.

“Uma cabeça sozinha não faz televisão”, afirma Mara Lobão, sócia da Panorâmica e parceira do programa da Globosat. A produtora carioca comporta atualmente duas “salas de escritores”. Numa, quatro roteiristas escrevem “Gaby Estrella”, uma série que estreia no segundo semestre no Gloob, um canal infanto-juvenil. Na outra, quatro vão desenvolver, para o canal Viva, “Meu amigo encosto”. Esse é um dos roteiros selecionados pelo programa Globosat.

Outra fragilidade da carreira do roteirista no mercado de produção independente é a própria carreira e como ela evolui. Diferentemente de outros ofícios, não há uma clareza sobre como o profissional começa. Muitos estreiam oferecendo um roteiro a uma produtora. “Não existe uma trajetória explícita para o roteirista, como há para quem quer seguir carreira na direção”, afirma Ana Maria Giannasi, coordenadora da graduação em audiovisual do Centro Universitário Senac, em São Paulo. O roteirista e professor Aleksei Abib concorda. “Vai demorar para o roteirista ganhar um plano de carreira”, diz Abib, professor do b_arco.

Enquanto isso não acontece, os profissionais ingressam na carreira aproveitando as oportunidades que surgem. Nem todas são para escrever. Como afirma Abib, começa a ganhar força a consultoria de roteiro ou “script doctoring”, que pode render R$ 7 mil, segundo a AR. “Nesse caso, o profissional não vai escrever. Vai analisar o roteiro”, diz o especialista, que prestou consultoria para “Hoje”, longa-metragem em cartaz.

Também falta ganhar força na carreira do roteirista de TV a figura do “showrunner”. É o responsável por manter a unidade criativa do texto ao longo da série, assumindo funções de produtor executivo. Observa orçamento, escolha de elenco, locações. Para Jacqueline Cantore, é o ápice da carreira do roteirista. Como sugere o nome em inglês, é o cara que põe o show para correr. Ou melhor, é ele quem corre para o show acontecer.

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Karla Spotorno, do Valor Econômico

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