Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > TRADUÇÃO, TRAIÇÃO

Traidores e tradutores

Por Nagib Anderáos Neto em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 95, julho de 2013; intertítulo do OI

É consenso entre escritores e leitores que todo tradutor é uma espécie de traidor, mesmo quando se está a interpretar pensamentos alheios no próprio idioma. O que não dizer quando se trata de fazê-lo de outros?

Traduzir vem do latim traducere, que significa conduzir além, transferir. Tradutor, do latim traductore. Traidor, do latim traditore.

O “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, de Fernando Pessoa, poderá ter numerosas interpretações, e nenhuma delas chegar perto do que o poeta pensou e sentiu ao urdir as dez pequenas palavras no verso tantas vezes repetido.

O misterioso “ser ou não ser”, de William Shakespeare, poderia ser traduzido por saber ou não saber, existir ou não. Talvez estivéssemos dando um conteúdo nessa traição que o poeta inglês sequer cogitara.

A “Morte a Deus” escrita pelo jovem Arthur Rimbaud nas portas das igrejas, como o “Deus está morto” de Nietzsche, poderia significar que o poeta estivesse mais próximo d’Ele, como ponderou Henry Miller, que os arrogantes poderes que dominavam a igreja daquele tempo.

“A palavra morre quando é dita, alguém diz. Eu digo que ela começa a viver naquele dia”, escreveu Emily Dickinson, a incomparável poetisa da América num econômico inglês que lhe era peculiar. A que palavra estaria ela se referindo? O que é a palavra? Ela vive? Morre? Sobrevive a quem a pronunciou? Qual o mistério que a envolve e substancia? Qual sua força?

Conceito e preconceito

O mistério da palavra é o do pensamento. Ela é a expressão física daquele e pode desaparecer; ele não, o pensamento cruza o espaço e o tempo e pode sobreviver.

Cada palavra é um símbolo mágico, metáfora viva que pode ser decifrada e interpretada, traduzida para o idioma metafísico.

Quando ouvimos Carlos Drummond de Andrade dizer “tinha uma pedra no meio caminho”, a sutileza metafísica é gritante; não é uma pedra física, é mental, um obstáculo a ser removido, um problema a ser resolvido.

A palavra Deus reporta a uma imagem que vem do conceito que se tenha; pode ser um senhor com uma enorme barba, ou o próprio Universo, ou um animal sagrado, o sorriso de uma criança, o gesto generoso de quem nos ajuda, ou uma inteligência maior de onde todas as demais provêm, ou absolutamente nada. A palavra refere-se ao conceito e pode ser uma metáfora morta se não evolui com o tempo transformando-se num preconceito.

As palavras, expressões físicas dos pensamentos, são pequenos detalhes com os quais se poderá chegar a Deus ou mergulhar na escuridão.

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Nagib Anderáos Neto, para O TREM Itabirano

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