Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > ELEIÇÕES ALEMÃS

Merkel vs. Steinbrück, tudo novo de novo

Por Fátima Lacerda em 03/09/2013 na edição 762

O horário nobre do domingo (1/9) na TV alemã não foi ocupado pelos casos de alto teor criminalista da série-cult Tatort, mas por um debate de meticulosamente contados 90 minutos entre a Chanceler Angela Merkel e seu concorrente, o socialdemocrata Peer Steinbrück.

O que o jargão da imprensa especializada chama de “confrontação cara a cara” não tem tradição no período pré-eleitoral na Alemanha. Somente na era-Schröder (1998-2005) o debate se tornou um ritual midiático no período pré-eleição. Com muita pompa e encontro de jornalistas políticos de todo o país, o duelo do domingo teve o formato 4×2, quatro jornalistas frente aos dois candidatos ao cargo da chancelaria federal. Exibido simultaneamente em cinco canais, a audiência não deixou a desejar: 17,6 milhões de espectadores assistiram ao debate.

Participaram duas jornalistas – respectivamente das TVs públicas ARD e ZDF –, além do jornalista Peter Klöppel, âncora do jornal de notícias da rede privada RTL. O novo nesse time foi Stefan Raab, da rede privada Pro7 – este, comediante, produtor, descobridor de talentos e líder de audiência do grupo alvo entre 20- 40 anos com seu programa nos fins de noite.

Com o artigo: “Ousadia com direito a banalidade“ (em tradução livre), o jornal Süddeutsche Zeitung criticou de forma taxativa o formato do debate com quatro jornalistas, alegando assim ser impossível uma abordagem mais lenta de temais cruciais, com a crise do euro, que segundo o jornal deveriam tomar 30 minutos do programa.

De acordo com as enquetes divulgadas pelas redes públicas ARD e ZDF logo depois do debate, o socialdemocrata Steinbrück teria conseguido alcançar eleitores indecisos, que compõem a maior parte do bolo eleitoral. 

Quesitos como simpatia e competência também foram avaliados e divulgados pelas TVs públicas, como também pelo tabloide Bild, com pequenas diferenças de margem: Merkel foi a favorita no quesito simpatia. O socialdemocrata Steinbrück disparou no quesito justiça social, pilastra-mor do seu partido (SPD, sigla em alemão).

Nada de novo

A chanceler Angela Merkel continua seguindo o princípio que vem caracterizando os anos do seu governo: nada de polêmica ou barracos políticos, tornando quase impossível o adversário conseguir atacá-la.

A própria Merkel é responsável pela campanha mais apolítica dos últimos anos. Cartazes gigantes pelas ruas do país anunciam: “Juntos, continuaremos na trilha do sucesso”, no melhor formato de que não se mexe em time que está ganhando. Mesmo os apelos constantes da mídia alemã por uma campanha eleitoral, seja polêmica ou personificada, Merkel continuou irredutível e só aceitou apenas um debate na TV contra o adversário Steinbrück. Os comícios e respectivos palanques eleitorais são cuidadosamente escolhidos e planejados pelo seu comitê eleitoral. O sucesso desses comícios tem sido motivo de deboche na internet (ver aqui).

Resenhas midiáticas pós-duelo

Os analistas políticos, entre eles Michael Spreng, dão a vitória para Steinbrück, que teria convencido pela clareza, pelas respostas curtas e concisas, mas também por uma rasteira na chanceler. Quando veio à tona a intenção do (tinhoso encrenqueiro) ministro-presidente da Baviera de não assinar qualquer contrato de coligação com o partido de Merkel se não houver a introdução de um pedágio para estrangeiros que usam as estradas alemães, Merkel foi literalmente arrancada da zona de conforto.

Como sempre, evitando ser concreta, Merkel foi colocada contra a parede ao vivo e em cores. Com um sorriso maroto que quem descobriu uma brecha, Steinbrück disse: “Sra. Merkel, eu quero saber aqui e agora se vai haver a introdução desse pedágio, mesmo porque o Seehofer [o ministro-presidente da Baviera] vai lhe confrontar com esse assunto”. Relutante, mas ao mesmo tempo sem saída, Merkel respondeu: “Sob o meu governo, não haverá pedágio algum”, colhendo um “ainda bem, finalmente!” do co-moderador Stefan Raab. Ponto para Steinbrück, concordam os analistas políticos.

Pipocando na rede

Não foram os temas relacionados à aposentadoria ou uma lei europeia para a regulamentação do setor financeiro prometida por Merkel há longos tempos, mas a corrente com as cores da bandeira alemã, usada por Angela Merkel, que foi obteve mais sucesso no Twitter –gerando, durante o debate, 4000 seguidores. Com o hashtag #schlandkette (corrente alemã, em linguagem coloquial), tuiteiros postavam comentários entre escárnio, deboche, mas também de irritação, já que a corrente foi colocada do lado avesso, suscitando as cores da bandeira da Bélgica. Uma tuiteira não deixou por menos: “Eu não sou da Bélgica!”

No site do noticiário Tagesschau, da rede pública ARD, os comentários eram adaptados de frases conhecidas no país. A palavra Kette (corrente, em alemão) servia para todo o tipo de escárnio e deboche.

 

Stefan Raab trouxe um quê de irritação e de questionamento ao debate. Foi ele que, ao vislumbar o relógio que media o tempo disponível para Merkel e Steinbrück, não hesitou: “Sra. Merkel, o relógio nos mostra que a Sra. até agora falou muito mais do que o seu adversário. Peço para que considere isso.” (1:26-1:31) Por essas e outras, o tablóide Bild, que apontou Raab como “o jornalista da noite”, publicou um vídeo com o título: “Como Stefan Raab colocou os candidatos contra a parede” (ver aqui).

Merkel entrou no debate como favorita, com aquilo que os analistas chamam de “Amtbonus”, o bônus de atualmente ocupar o cargo de chanceler. O duelo entre os dois candidatos teve o resultado positivo de alcançar os até então indecisos. As estatísticas dos últimos anos mostram que cada vez menos alemães vão às urnas no dia da eleição. A tendência da tão abrangente Politikverdrossenheit (aversão à política e aos políticos, resultando um processo de despolitização) na Alemanha, levou uma rasteira na noite de domingo: Agora não rege mais na imprensa nem na opinião pública uma certeza conformista da continuação do governo Merkel. O constante apelo da imprensa alemã por uma “fase quente da campanha eleitoral” foi finalmente atendido. Na segunda-feira (2/9) pós-debate mostrou que muita água vai rolar até o dia 22 de setembro.

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Fátima Lacerda é jornalista freelance, formada em Letras, RJ, e gestão cultural em Berlim, onde está radicada desde 1988

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