Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DO ‘NEW YORK TIMES’

Uma manobra midiática

Por Marcos Antonio Improta Sampaio Junior em 03/09/2013 na edição 762

Circula nos principais meios de comunicação do Brasil a notícia do jornal The New York Times que compara a cantora brasileira Ivete Sangalo a ícones da musica mundial como Janis Joplin e Tina Turner. A matéria, escrita pelo jornalista Larry Rohter, que foi correspondente do jornal americano no Brasil – muito conhecido por aqui pelo seu livro Deu no New York Times, lançado pela editora Objetiva, e que em 2004 foi ameaçado de ser expulso do país depois de declarar que o então presidente Lula, na época, bebia demais – começa da seguinte forma:

“Se Ivete Sangalo fosse uma cantora americana, em vez da vocalista mais popular do Brasil, ela seria, sem dúvida, descrita como uma belter. No palco ela é atrevida, ousada e barulhenta, que faz parte de uma linhagem que inclui Janis Joplin, Tina Turner e Bette Midler (…)”

Aqui acaba a comparação e começa a realidade. Rohter diz, em certo momento da matéria, o que a mídia “brazuca” não citou em nenhum meio: que Ivete, para pior ou melhor, reflete o estado da música brasileira em seu momento atual: “simples música para dançar com letras muito básicas”. Não seria outra a verdade. E prossegui, citando como fonte o co-autor da história da música pop The Brazilian Sound, Chris McGowan, que em entrevista por telefone do Brasil, disse ao jornalista o seguinte: “Ela é uma profissional consumada, com uma voz poderosa, controlada, que pode subir o timbre e usar de polirritmias. Mas, por outro lado, ela não tem sutilezas e grande talento, apenas show business puro.” Daqui em diante, a matéria não fala mais de música, dando atenção aos dotes de empresária bem-sucedida da cantora.

Otom irônico

O estardalhaço da mídia brasileira sobre a matéria tem dois motivos. O primeiro, é o nosso “complexo de vira-lata” misturado com um “complexo de inferioridade mórbido”, com notas de nacionalismo retrógrado bem como nosso grande desvio moral de querer se dar bem em tudo, além de nossa típica falta de autocrítica.

Segundo, é que a mídia brasileira vive de jabá – todos sabemos que a maioria das matérias e críticas sobre os artistas populares do país são propagandas de multinacionais, verdadeiras colunas muito bem patrocinadas. Jornalistas são muito bem pagos para falarem bem do que é ruim.

A maioria dos brasileiros não fala inglês e não se preocuparia em ler a matéria original, mesmo que de uma tradução no Google. Isso tornar as estratégias de marketing diante de uma notícia dessas muito mais fáceis de serem digeridas pelas massas acríticas. Dessa forma, o povo acaba acreditando na mentira contada mil vezes e a Ivete ocupa o dobro de espaço nas mídias e dobra seu faturamento. E isso é a verdadeira intenção da repercussão da notícia.

Não houve, em momento algum na matéria de Larry Rohter, uma comparação objetiva dos talentos da Ivete com as artistas citadas. E se fizermos uma análise textual foucaultiana, será perceptível o tom irônico com que o jornalista do New York Times descreve não só o sucesso da cantora Ivete Sangalo, como o momento frívolo e sem muito inovação do mainstream da música brasileira. O título da matéria poderia ser: “Como uma cantora, com voz rouca, sem sutileza artística e muito pouco talento, conseguiu se transformar em uma milionária cantando músicas bobas, alegres e dançantes”.

As diferenças

Três aspectos que vão fazer o brasileiro esperar algumas décadas por sua Madona. 1) O mercado de entretenimento brasileiro não é universalista. Ainda não adquirimos gosto pela cultura pop e não entramos na era da industrialização da arte. Somos deveras primitivo, acostumados com um ancestralismo percussivo misturado a uma poética pouco expressiva em nossa cultura popular, salvo exceções, a maior parte da produção musical brasileira é para o Brasil. 2) Nós temos medo de inovar. Os ritmos populares brasileiros (o samba, o pagode, o axé music, sertanejo etc.) tem estruturas rítmicas engessadas, e como o carnaval, o sucesso desses artistas durariam apenas sete dias, tempo suficiente para o gringo deglutir uma sonoridade exótica, enjoar e voltar os ouvidos novamente para o que lhe convém, o som futurista da musica eletrônica, do hip hop, do blues e do rock. 3) Somos nacionalistas demais para sermos globais.

Views no YouTube não garantem o sucesso de uma carreira mundo afora. E não compare shows internacionais com carreira internacional. O motivo de um artista como Michel Teló está fazendo uma série de shows no Japão não o torna um artista internacional. Uma carreira artística internacional só é possível com a globalização do sucesso do artista.

Entre Ivete e Janis existem mais diferenças que igualdades. Ivete é grave, Janis é aguda. Ivete faz axé music, ritmo musical brasileiro, Janis cantava blues e rock, gêneros musicais universais que têm influências espalhadas no mundo todo. Ivete tem empresas que já foram acusadas por sonegação de impostos, Janis não. Ivete tem uma posição política retrograda, Janis tinha uma libertária. Ivete é morena, Janis loira. Ivete não usa óculos, Janis usava. O maior sucesso de Ivete é “Festa”, o da Janis é “Piece Of My Heart”. Janis morreu e continua sendo lembrada; quando Ivete morrer, Janis continuará sendo lembrada.

A diferença entre Ivete Sangalo e Janis Joplin é a mesma de um carro velho para uma Mercedes Benz.

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Marcos Antonio Improta Sampaio Junior é poeta, produtor cultural e bolgueiro

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