Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ARTES DO OFÍCIO

A nova trincheira de Gabeira

Por Hubert Alquéres em 17/09/2013 na edição 764

No início deste ano Fernando Gabeira lançou um novo livro de memórias, Onde está tudo aquilo agora?, pela Companhia das Letras, e declarou, nas páginas finais, que “chegara a hora de deixar a política como profissão”.

Na semana retrasada estreou um novo programa de TV do canal Globonews e o fez com aquela inteligência, disposição e sentido de urgência que todo o Brasil já conhece. E não deixou por menos: o primeiro programa foi dedicado aos dez dias que rodou o Maranhão e o Amapá para examinar como pessoas se viram para minimizar o caos que é a saúde pública no país. Ele mostrou que, além da falta de médicos, equipamentos e gestão, hospitais e laboratórios, o desvio de dinheiro público é um problema comum no Brasil. Só no Amapá, quatro secretários de saúde já foram presos, acusados de corrupção.

No mesmo fim de semana li e reli sua entrevista à Época, de leitura obrigatória.

Cheguei a uma conclusão: Gabeira não aposentou as armas ao decidir não se candidatar a mais nada. Apenas ocupou nova trincheira – o retorno ao jornalismo – para travar a boa batalha: a defesa da democracia e do humanismo do século 21, com sua agenda que envolve todo o planeta e é suprapartidária.

Esquerda democrática

Desde o exílio, o bom guerreiro tem sido uma usina de ideias, na qual não há espaço para o dogmatismo. Menos ainda para concepções arcaicas.

Quando grande parte de seus antigos companheiros (na cadeia, no exílio ou na clandestinidade) ainda se apegava ao culto da luta armada, Gabeira já achava que o caminho para a superação da ditadura não era por aí.

No exílio, onde foi jardineiro de cemitério, porteiro de hotel e condutor de metrô, iniciou a ruptura com a concepção leninista (ou stalinista) de partido, que permeava as organizações de esquerda da época. Algumas mantem o mesmo dogma até hoje!

Na Europa, percebeu a importância de uma nova agenda, extremamente contemporânea: a defesa do meio ambiente, do crescimento sustentado, do direito das minorias, das bandeiras supranacionais – como o combate à fome e a todo tipo de discriminação.

Na redemocratização do país, sua agenda “não política” foi desdenhada pelos partidos e pela esquerda tradicional, ainda apegada aos dogmas marxistas.

O Gabeira de hoje guarda coerência com sua trajetória. Na entrevista à Época, sem meias-palavras, afirma que o capitalismo predominou sobre o socialismo.

Nos dias atuais (a não ser as viúvas do stalinismo e os áulicos de Fidel Castro, entre eles vários membros da esquerda brasileira), “ninguém mais fala no confronto capitalismo versus socialismo. Fala-se em modernizar e democratizar o capitalismo”.

Sua afirmação nos leva a uma reflexão: por que o “socialismo real” sucumbiu? Não há ainda uma reposta global. Mas algumas causas são óbvias: por ter adotado um modelo de Estado totalitário, baseado na ditadura do partido único. Também pela estagnação econômica, pois foi incapaz de possibilitar às massas o pleno acesso aos bens de consumo modernos. Mas principalmente por não ter incorporado a democracia como valor universal.

A supremacia do capitalismo não significa que estejamos vivendo o fim da história. O máximo, porém, que se vislumbra hoje é a reforma do capitalismo, com vistas a torná-lo mais justo socialmente e mais democrático. Este é o recado de Gabeira, na Época:

“Não há dúvida de que o capitalismo predominou e o socialismo deixou de ser uma alternativa desejável. Isso não significa que algumas ideias de esquerda e de direita não continuem presentes no universo político. Certas ideias de que as pessoas são culpadas pela própria pobreza continuam existindo. Certas ideias de que as pessoas precisam ser protegidas na velhice, ter uma aposentadoria digna, também continuam aí. Hoje, não se fala mais tanto em capitalismo versus socialismo. Fala-se mais numa forma de modernizar e democratizar o capitalismo.”

O autor de O que é isso, companheiro? continua, portanto sendo um homem de esquerda, mas de uma esquerda radicalmente democrática. Quer distância de uma esquerda que sente detentora da verdade absoluta, seguidora do conceito de que os fins justificam os meios e que se apossa do Estado, quando chega ao poder.

Nova trincheira

Fernando Gabeira conhece o PT por dentro, até por ter sido eleito, uma vez, deputado federal pela legenda. Seu desencanto com o Partido dos Trabalhadores veio rápido, logo no começo do governo Lula.

Cedo, percebeu que o Estado brasileiro passou a uma extensão do PT, assim como entidades sindicais viraram correias de transmissão do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores.

Há uma frase na entrevista à Época que é extremamente dura, mas necessária para se entender seu desencanto (e de quem não rifou os valores) com o PT:

“Politicamente, o grande problema do PT foi ter prometido uma renovação ética no Brasil – e, ao chegar ao governo, aliar-se aos políticos que eles criticavam, recorrer aos mesmos métodos usados antes e incorporar outros igualmente condenáveis. Nesse aspecto, o PT significou algo muito negativo para o Brasil, porque, no fundo, dizia que quem propõe mudar ou traz a esperança está apenas enganando a população, e que os artífices da esperança são os mesmos que construirão uma nova armadilha.”

Há um episódio recente que vale a pena ser relembrado, para saber o quanto Fernando Gabeira não transige no terreno dos princípios.

No início do ano, visitou o Brasil a blogueira cubana Yoni Sánchez, perseguida e cerceada pela ditadura de Fidel Castro. A embaixada cubana mobilizou stalinistas brasileiros, de diversos matizes, para uma campanha contra a blogueira.

Gabeira foi impagável na crítica a uma esquerda esclerosada e ultrapassada, em seu artigo “Furacão em Cuba” publicado no jornal O Estado de S.Paulo:

“Grande parte dos neurônios da esquerda triunfante brasileira foi irremediavelmente perdida na guerra fria. Com seus aliados cubanos, ela nos jogou no século passado durante a visita da blogueiraYoani Sánchez…

“Sartre pediria uma dose de absinto para entender que outro furacão ameaça Cuba: a revolução digital. Marx precisaria de boas almofadas para acomodar seus furúnculos no bumbum ao constatar que uma ditadura comunista não resiste ao avanço tecnológico e científico da humanidade.”

E não parou ai na desconstrução de uma esquerda intolerante e estagnada no tempo:

“A recepção que cubanos e petistas eletrônicos deram a Yoani não tem a graça do século passado. É um equívoco que envolve o destino de 11 milhões de cubanos e a reputação internacional do Brasil. No passado, pelo menos, havia alguma imaginação. Se um dia a esquerda encastelada no poder for obrigada a voltar a lutar nas ruas por uma causa justa, estará perdida. Imaginem quem será convencido por um grupo de pessoas, narizes de palhaço, gritando coisas do século passado… Ainda não perceberam que o século passou e levou consigo a Juventude Hitlerista, os Guardas Vermelhos, deixando-nos apenas com uns estridentes palhaços chamando de traidora uma jovem mulher cuja vida é o exercício de liberdade.”

Aos 72 anos, Fernando Gabeira está mais lúcido do que nunca. Dizer que é imprescindível nesta quadra histórica do Brasil, é dizer o óbvio.

Na sua nova trincheira não dará trégua às concepções totalitárias e preconceituosas. E, aguerrido, abrirá novos horizontes para os amantes das causas humanistas. Estes estarão, nas noites de domingo, de olhos fixos na telinha para ver, ouvir e matar a saudade deste velho e bom guerreiro.

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Hubert Alquéres dirigiu a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo entre 2003 e 2011. É vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e professor no Colégio Bandeirantes

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