Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > HUMOR NA WEB

Porta dos fundos

Por Marcelo Coelho em 17/09/2013 na edição 764
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 11/9/2013

“Valdo, você sabe quem eu quero ajudar?”, pergunta um político ao seu colega. “Quem?”, pergunta Valdo. “O povo brasileiro…”, responde o primeiro. O outro se indigna. “Não fode, Laércio! Não fode!” Um pouco mais adiante no vídeo, Valdo estende-se na indignação. “O teu caseiro entrando no Facebook… É isso o que você quer?” “Não”, responde o outro. Eis aí. Valdo reforça o ponto. “Porque parece que é isso que você quer!”

Transcrevo um dos diálogos de Porta dos Fundos (editora Sextante), livro que reproduz, com fotos e comentários, mais de 30 esquetes humorísticos de Gregório Duvivier, Fábio Porchat, Antonio Tabet e seu grupo, sucesso incendiário na internet. Um dos muitos feitos de Porta dos Fundos está, a meu ver, em ter descoberto uma saída – passou o trocadilho – para fazer humor num país em que, como diz José Simão, já se vive a piada pronta.

Depois de ver no noticiário normal importantes personagens políticos enfiando dinheiro na cueca, o grau de explicitude necessário para produzir surpresa e riso tinha de ser elevado a níveis para lá de escandalosos. E isso não se resume aos costumes de Brasília. Para lembrar outros tempos, Juca Chaves fazia muita graça, nos anos 1970, com uma publicidade de seus próprios shows em que dizia apenas: “Ajude o Juquinha a juntar mais um milhãozinho”, ou coisa parecida.

Meu nome é Uélerson

O mero fato de agir com o propósito de ficar rico surgia como algo desabusado e audacioso naquela época. Hoje, palestras sérias defendem o que a pensadora americana Ayn Rand sistematizou como “a virtude do egoísmo” e o humor de Juca Chaves, nesse ponto, esvaiu-se no real. O cinismo clássico não abala mais ninguém. É como se, diante dos gritos do menino do conto de fadas, o rei respondesse: “Sim, eu estou nu mesmo, e quem não está?” Enquanto os humoristas de Pânico reagem pelo desespero, como que tentando arrancar em público as roupas dos alvos de sua sátira, os de Porta dos Fundos encontram alternativas mais sutis. Já que o rei está nu, trata-se de explorar a sua intimidade. Que seja retirado da praça pública e da rua, e levado de volta à esfera do cotidiano, do particular. Assim o encontraremos, diante do computador, em nossa casa, reproduzindo os nossos próprios preconceitos de classe.

Sem os embaraços da televisão, os atores de Porta dos Fundos podem desprezar uma série de marcas populares. O guaraná Kuat, as bolachas Mabel, tudo o que for coisa “de pobre” será identificado como tal. Para nada falar do Orkut, que até como piada já ficou velho.

A graça com os pobres não se faz sem violência. É o caso do famoso esquete em que a mocinha procura uma lata de Coca-Cola com o seu nome no rótulo. A estratégia de marketing apelava a consumidores que se chamassem Rodrigo ou Tatiana. Mas ela se chama Kelly. “Isso é nome merda!”, diz Fábio Porchat na pele de um atendente de supermercado. Para atenuar a coisa, ele mesmo confessa se chamar Uélerson. Mas a graça já foi feita.

A verdade surge explosiva

Como apontou com razão Vinicius Mota, na coluna “São Paulo” desta segunda-feira (9/9), o universo de Porta dos Fundos é o da “velha classe média”. Estamos rindo “de um estilo em transformação, à medida que novos atores batem na porta da frente”. Não cabem mais piadas contra negros, índios ou nordestinos. Sintomático disso é o quadro em que Fábio Porchat é o líder de uma seção da Ku Klux Klan. Os convocados para a reunião tiram as máscaras: são todos negros, a começar do que se chama Denzel.

Os humoristas, na verdade, é que tiram a própria máscara. Não é cinismo; o tom é de denúncia. Por vezes, o obsceno social ganha tradução para a esfera do sexo. A mulher, na hora da sobremesa, explica para o marido que não quer “fazer amor”. “O que eu quero é foder, Mário Alberto… Fo-der.” A mesma lógica faz o chapeiro de uma lanchonete dizer à cliente que não servem este ou aquele sanduíche. “Temos rola. Rô-la.” O efeito é de vandalismo verbal.

No segredo do iPad ou do computador, a verdade surge explosiva. O formato, sem controle nem as imposições do ritmo de produção da TV, evita aquela repetição de personagens e situações que levava Chico Anysio e Jô Soares ao esgotamento. Os segredos da copa, da cozinha, da suíte e do lavabo, assim como tudo o que nos cega nos supermercados e salas de reunião, não acabam nunca de sair por essa porta dos fundos.

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Marcelo Coelho é colunista da Folha de S.Paulo

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