Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

FEITOS & DESFEITAS > MERCADO EDITORIAL

Projeto de uma revista em Alto Araguaia

Por João José Alencar e Lawrenberg Adv&i em 17/09/2013 na edição 764

O presente registro se faz pertinente para apontar possíveis caminhos ao jornalismo impresso, sobretudo, ao praticado nos mais distantes rincões do país. É evidente que ainda é muito cedo para obtermos prognósticos precisos acerca desta experiência desenvolvida pelos egressos de Jornalismo de Alto Araguaia, cidade localizada na divisa entre os estados de Mato Grosso e Goiás e com 15 mil habitantes (IBGE – 2010). Entretanto, é notório relevarmos alguns aspectos importantes sobre o processo em sua totalidade. Afinal, de um lado temos em discussão o status da pesquisa experimental no campo da comunicação diante de tantos reducionismos e retóricas de especialidade e tecnicismos; enquanto de outro, enxerga-se um inevitável descompasso entre a realidade do mercado e a academia.

Distante de reproduzir a danosa dicotomia teoria-prática aqui, logo avisamos que a pretensão do texto é mais modesta, pontual. Diríamos que está mais próximo de um relato e com subsídios suficientes para o fomento de boas reflexões.

Desafiando a lógica hegemônica do mercado editorial em si, da qual, quase de praxe, sempre acabou atrelando a existência do jornalismo de revista tão-somente aos grandes centros urbanos no Brasil, durante a última tarde de sábado (14/09) os egressos do curso de jornalismo de um pequeno campus da Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat, Rosana Dias da Silva (de 42 anos) e João José Alencar (de 22 anos), fizeram o lançamento da primeira edição da revista Mixtura, na Praça da Igreja Matriz de Alto Araguaia; demonstrando que a experiência acumulada nos laboratórios de disciplinas teóricas-práticas como Planejamento Gráfico pode se converter em esboços de cidadania, de transformação social e cultural.

Direcionada à culinária

A revista, que em sua primeira edição teve uma tiragem de 1.000 exemplares e 32 páginas coloridas no tamanho 18 x 26 cm, é voltada para a culinária popular da região, contrariando assim as linhas editoriais das principais revistas do estado de vocação agrícola, revista Óptima (agronegócio), RDM (política e agronegócio) e Camalote (turismo). Ela possibilitou o acesso ao conhecimento e à cultura em uma via de mão dupla: ao privilegiar uma fina “mistura” entre culinária e história socioeconômica regional, tanto entre os alunos envolvidos na produção da revista quanto, principalmente, aos seus leitores.

Para a sua concepção deve se considerar o pioneirismo de fazer uma publicação segmentada para uma cidade pequena que mal sequer possui uma revistaria e, onde historicamente a TV (TV Integração – filiada da Rede Record) e o rádio (emissora Aurora) ainda constituem a principal fonte de informação de pelo menos 90% da população, enquanto os únicos jornais impressos produzidos tiveram vida curta, vide o jornal Comtexto (um ano) e Folha do Araguaia (dois anos).

O projeto é resultado de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), cujo tema contemplava majoritariamente o jornalismo em sua intersecção com a cultura regional, e que, agora, depois de um planejamento mercadológico conciso (pesquisa de mercado e cronograma de atividades), passa a ser a primeira revista do sul de Mato Grosso direcionada para a culinária popular e local. Também compõem a equipe os estudantes de jornalismo Flaucilene Pinheiro e Réulliner Rodrigues.

O lançamento

O evento de lançamento realizou-se na praça matriz da cidade de Alto Araguaia, atraindo a atenção de muitos pedestres e motoristas. Um varal de revistas foi erguido, substituindo as tradicionais prateleiras. Nas mesas de bar, bastante similares às dos botequins e cervejarias, havia uma bem decorada travessa com queijos de cabacinha (alimento típico da região), cortados em pequenos cubos e em palitos com azeitonas. Abaixo das mesas, via-se da caixa de isopor refrigerantes produzidos por uma fábrica da região, o Mineiro da cidade goiana de Mineiros.

Esta descrição densa da estrutura incipiente do stand se justifica até de maneira proposital a fim de legitimar uma combinação tática de ações e alocação de recursos, que, direto ou indiretamente, refletem o modus operandi do jornalismo de revista em locais ainda com um mercado midiático quase inexistente. O que talvez acentue a excepcionalidade da revista Mixtura, sobretudo, em se tratando da relação com o seu público-leitor.

A cobertura fotográfica do lançamento pode ser vista na página da revista (fanpage) no Facebook, que em uma semana já teve mais de mil visitas. E do ponto de vista de sua distribuição, pode ser adquirida entre uma das conveniências da cidade, a do Vando, e uma Livraria e Papelaria Mariano, localizada já cidade vizinha, Santa Rita do Araguaia, estado de Goiás.

******

João José Alencar e Lawrenberg Advíncula da Silva são, respectivamente, jornalista e professor de Jornalismo, Alto Araguaia, MT

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem