Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > TELEGRAMAS

Crônica de uma morte anunciada

Por Alexandre Rodrigues em 24/09/2013 na edição 765
Reproduzido da “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo, 22/9/2013

Uma onda de nostalgia correu o mundo quando os correios da Índia anunciaram, em julho, o envio do último telegrama no país. Depois de prejuízo nos últimos anos e enfrentando a concorrência dos celulares, o governo local decidiu encerrar o serviço, que funcionava no país desde 1850.

Então todos se puseram a lembrar de uma tecnologia considerada moribunda. A agência Euronews noticiou que aquele seria o último telegrama no mundo, enquanto o jornal inglês “The Guardian” afirmava que a Índia era o lugar derradeiro onde as pessoas ainda enviam telegramas. No Brasil, no entanto, esse meio de comunicação está muito vivo, e a Empresa de Correios e Telégrafos não tem planos de acabar com o serviço.

Em 2012, foram quase 20 milhões de telegramas enviados, um recorde 15% superior aos 17,4 milhões de 2011. Saíram de cena os telegramas de pêsames, declarações de amor e de aniversário para dar lugar às mensagens comerciais e comunicados da Justiça. Hoje, o serviço é usado basicamente por empresas, e a maioria das postagens, segundo os Correios, é feita via internet. Apenas 10% dos dez milhões de telegramas enviados de janeiro a julho foram preenchidos no balcão, à moda antiga; os telegramas fonados representam número ainda menor: 1,5% do total.

“O telegrama soube se modernizar”, diz o historiador Romulo Valle Salvino, chefe do Departamento de Gestão Cultural dos Correios, em Brasília. “É um serviço que ainda atinge muita gente, por oferecer a garantia de que a mensagem foi entregue. Em qualquer tecnologia nunca se deve esquecer o fator cultural, e isso funcionou no Brasil.”

Dez anos atrás, não seria descabido apostar no fim do serviço. Mesmo depois de os Correios criarem uma agência virtual em seu site, em 1998, permitindo pela primeira vez o envio pela internet, os números caíam ano após ano, com a concorrência do e-mail e do celular, até que em 2003 a tecnologia tocou o fundo do poço: apenas 6,8 milhões de telegramas foram enviados no país. Desde então, porém, com a facilidade de envio pela internet, os telegramas recuperaram terreno. Já em 2004 foram 10,6 milhões. Nos anos seguintes, as postagens continuaram aumentando, mas de 2011 para 2012 houve um salto, passando de 17.480.543 para 19.978.539.

Persistência 

Os números revelam a persistência de um serviço que há mais de um século, desde a invenção do telefone, tem sua morte seguidamente anunciada a cada nova tecnologia que nasce.

Mesmo que desde o século 16 já existissem no Brasil os chamados telégrafos óticos –sistemas que enviavam mensagens à distância através de bandeiras e outros recursos visuais–, foi em 1852 que o imperador dom Pedro 2º inaugurou a primeira linha do telégrafo, oito anos depois da primeira transmissão, nos Estados Unidos, pelo americano Samuel Morse.

O objetivo era ajudar a combater o tráfico de escravos, proibido desde 1850. Mas o telégrafo acabou sendo fundamental mesmo na Guerra do Paraguai (1864-70), transmitindo informações do campo de batalha para a Corte no Rio; e de lá, instruções para as tropas.

Em 1874, um cabo submarino ligou o nordeste do Brasil a Portugal, iniciando as transmissões internacionais. Surgia a primeira rede mundial de transmissão de dados em alta velocidade.

“Foi a maior revolução nas comunicações desde o desenvolvimento da imprensa escrita”, diz o escritor inglês Tom Standage, autor de “The Victorian internet: the Remarkable Story of the Telegraph and the Nineteenth century’s On-line Pioneers” (a internet vitoriana: a notável história do telégrafo e dos pioneiros on-line do século 19; St. Martins Press, R$ 50,60, 240 págs.).

O impacto do telégrafo sobre as comunicações da época foi, segundo Standage, muito maior do que do e-mail ou o de qualquer outra tecnologia moderna. Se por milênios a rapidez da troca de mensagens era lenta e dependente da velocidade de homens e cavalos, com os cabos telegráficos centenas de quilômetros passaram a ser percorridos em minutos.

“Hoje em dia é difícil imaginar a revolução para os negócios que foi o telégrafo”, explica o historiador Valle. “Até então, se alguém queria encomendar algo, o pedido ia de navio e levava 40 dias na travessia do oceano até Portugal. Depois era o tempo de o navio ser abastecido e mais 40 dias na travessia de volta. Qualquer negócio levava meses.”

Literatura 

A literatura da época registrou a novidade. No romance “O Moço Loiro”, de Joaquim Manuel de Macedo, de 1845, aparece a torre do telégrafo visual inventado pelo francês Claude Chappe –um sistema de braços mecânicos que formavam sinais interpretados como letras de alfabeto, no morro do Castelo, no Rio.

Machado de Assis escreveu mais de uma crônica sobre o telégrafo. Primeiro desancando a invenção, como na vez em que chama os telegramas de “logro”, protestando contra a imprecisão do conteúdo em comparação com as cartas (revista “Ilustração Brasileira”, 15 de agosto de 1877). Mais tarde, reconhece a rapidez do meio em informar a morte do maestro Carlos Gomes, em 1896 (“A Semana”, edição de 20 de setembro daquele ano).

Também é com a chegada de um telegrama, comunicando a morte da mãe do protagonista, que começa o romance “O Estrangeiro”, de Albert Camus. E, às vezes, telegramas da vida real veicularam exercícios quase poéticos, como numa troca de mensagens entre Victor Hugo e seu agente. Em 1862, autoexilado na ilha de Guernsey e querendo saber como andavam as vendas de seu novo “Os Miseráveis”, Hugo telegrafou apenas: “?”. E o agente respondeu: “!”.

No Brasil, o serviço de telegramas ainda foi importante para integrar o território com as missões do marechal Cândido Rondon, que espalhou 8.000 quilômetros de cabos telegráficos nas primeiras décadas do século 20, ligando as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste à capital. Só no fim dos anos 1970, quando começaram as transmissões via satélite, os postes foram sendo abandonados.

Hoje, com a internet, todas as mensagens são primeiro processadas no Centro Corporativo de Dados dos Correios, em São Paulo, e depois passam por um dos Centros de Serviços Telemáticos, em São Paulo, Rio e Minas Gerais, que formatam o arquivo e enviam para impressão na agência mais próxima do destinatário.

Com as mudanças no processamento, expressões como a corrente “PT SAUDACOES”, que entrou para o vocabulário popular, já não comparecem. Tampouco há mais necessidade de escrever abreviaturas e nem os famosos “AMANHAN” e “ATEH” da linguagem telegráfica, já que a cobrança não é por caracteres –cada telegrama nacional sai por R$ 6,64.

As proibições relativas ao conteúdo, porém, seguem reguladas por uma lei de 1978. Não se permite, por exemplo, enviar um telegrama com palavrões. O mesmo vale para “dizeres injuriosos, ameaçadores, ofensivos à moral, contrários à ordem pública ou com notícias reconhecidamente falsas”.

Coleção 

Embora as normas de correção tenham se mantido, dificilmente surgirá, nos telegramas de hoje, algo parecido ao dos exemplares de correspondência que a atriz e dramaturga Keli Freitas guarda em sua coleção no Rio.

São cerca de 50 itens, quase todos encontrados em meio a lotes de cartas. Um deles diz apenas: “SAUDADES PT AMOR PT”. “O telegrama parece sempre ter um caráter de exceção por ter a ver com a urgência, e não com o andamento normal’ da vida”, diz a colecionadora, que começou em 2007 a guardar cartas, postais e telegramas e já acumula 2.000 itens –a carta mais antiga data de 1887.

As mensagens nem sempre são sentimentais. “ESTOU URUGUAYANA NAO POSSO SEGUIR MUITA CHUVA”, comunica um morador do Rio Grande do Sul em 1948. Há o grave “FINESA INFORMAR RECEBEU NOSSO FONO DIA 19 CORRENTE E SI PROVIDENCIOU RESPEITO COMPRA CAMINHAO COM TOMBADEIRA SAUDACOES” e ainda a comunicação que pretendia ser informativa, mas soa demasiado humana: “TENHO MUITA VONTADE DE COMPRAR O CARRO MAIS SO TENHO CENTO E TRINTA MIL CRUZEIROS”.

Keli anota frases como essas em um caderno e depois as transforma em carimbos –na página Carimbaria, que ela mantém no Facebook, há fotos de vários exemplos estampados em papel. Mesmo que, curiosamente, nunca tenha enviado um telegrama, a colecionadora lamenta que a maioria da população tenha deixado de lado essa forma de correspondência. “É uma memória que se perde”, acredita.

Essa sensação nostálgica fez com que, na Índia, o anúncio do fim provocasse uma verdadeira corrida às agências de pessoas querendo enviar sua última mensagem à moda antiga.

Mas aquela que foi a derradeira mensagem transmitida causou comoção nas redes sociais, devido ao destinatário escolhido pelo Escritório Central dos Correios: o vice-presidente do Congresso, Rahul Gandhi, playboy ligado a uma família tradicional de políticos.

Como ironizou na internet um indiano, o telegrama, ao tornar-se uma relíquia, fará “Pappu ser famoso nos livros de história” –em hindi, Pappu, apelido pejorativo de Gandhi, significa “bobo”.

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Alexandre Rodrigues, 46, é jornalista e escritor, autor de Veja se Você Responde Essa Pergunta (Não Editora)

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