Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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Cobertura enviesada dos protestos estudantis na USP

Por Duanne Ribeiro em 29/10/2013 na edição 770

Folha de S.Paulo tem realizado uma cobertura parcial das atuais manifestações estudantis na USP, que se declaram por alterações no modelo de eleição do reitor e pela instauração de uma estatuinte (com poder para, por exemplo, extrair das estruturas da universidade ordenações herdadas da ditadura). A parcialidade da cobertura deve se tornar evidente com a interpretação seguinte.

O primeiro exemplo de tendência data de 24 de outubro. O jornal publicou matéria sobre o manifesto de um grupo de professores da FFLCH, com o título “Manifesto de professores critica greve de estudantes da USP“. Os trechos selecionados servem para condenar as práticas dos estudantes e o que seria a negligência dos mesmos educadores que assinam o documento. (Sintomaticamente, não se destacou essa tese: “Não desconhecemos que as atuais estruturas de poder da USP sejam pouco permeáveis às aspirações coletivas (…)” – leia completo). A questão aqui é por que o periódico se abalou para divulgar este manifesto, mas não outros dois.

Em 8 de outubro, o professor do departamento de História Rodrigo Ricupero fez conhecer, em seu perfil no Facebook, um manifesto com 80 assinaturas. Cerca de uma semana mais tarde, no dia 17, um outro, com 16 assinaturas. Não há registro de nenhum dos dois nas páginas do diário. Quanto ao escrito que privilegiaram, o contraponto foi dado logo depois pela resposta do professor Osvaldo Coggiola e a análise do pós-graduando Antônio David. No momento em que escrevo, não há qualquer registro desse debate na Folha, nem do fato de que Ricupero e outros sete professores propuseram, neste 25, uma reunião com os colegas opositores.

Ideia de “um voto por cabeça” não tem hegemonia

O segundo exemplo é fornecido pela seção Painel do leitor. Em 13 de outubro, foi publicado “Leitores divergem sobre eleição direta para reitor da USP“, com “dois lados” que só se balanceiam nessa ocasião em particular. Nos demais casos, só se vê o acúmulo dos opositores: no dia 5, “Para funcionário da USP, depredação da universidade é intolerável“; no 6, “Professor questiona quantas universidades escolhem seus reitores de forma direta“; no 14, “‘Espero que a USP não sucumba ao avanço do perigoso vírus populista’, diz leitor“; no 23, “Para leitor, estudantes têm de fazer ‘lição de casa’ antes de cobrar mudanças“. Aparentemente, segundo o que se pode apreender pelo jornal, existe um “consenso”. Existe?

Um terceiro exemplo é a reportagem feita sobre as entrevistas dos reitoráveis na eleição deste ano. A matéria “Candidatos a reitor da USP discordam sobre eleição na universidade“ traz citações dos depoimentos de Hélio da Cruz, João Cardoso, Marco Zago e Wanderley da Costa. Três dos quatro concordam com a definição da Lei de Diretrizes Básicas (LDB) da Educação Nacional, mas isso não é exibido pela/o repórter. À pergunta “É a favor de eleições diretas para a reitoria?” se diz:

José Cardoso: “Uma eleição direta na USP é muito difícil. O colégio eleitoral, no entanto, pode ser expandido. Sugerimos uma etapa com a participação de todos para eleger os delegados de uma Assembleia Universitária, e outra, com cerca de 5 mil representantes na configuração preconizada pela LDB: 70%, 15% e 15%, entre professores, funcionários e alunos.”

Hélio da Cruz: “Concordo com os parâmetros estabelecidos pela LDB de 70% dos votos de docentes, 15% de alunos e 15% de servidores técnicos e administrativos. Eleição direta, com os votos ponderados pelos os percentuais da LDB, é a mais adequada para a constituição da lista.”

Marco Zago: “Esta decisão não pode ser exclusiva do reitor, por isso nos comprometemos a promover o processo amplo e democrático para aprimoramento da governança e de discussão das estruturas de poder e formas de escolha dos dirigentes a partir da primeira sessão do Conselho Universitário de 2014.”

Wanderley Da Costa: “Não, mas somos a favor de sistema eleitoral que propicie a ampla participação da comunidade universitária. O sistema recém-aprovado representa um avanço considerável nesse sentido e pode ser aperfeiçoado no futuro, adotando-se, por exemplo, os critérios de participação dos três segmentos previstos na LDB.”

O jornal não destaca essa concordância, nem se pergunta por que a USP não está de acordo com o determinado pela LDB. Ainda mais, bem vista, a discordância do quarteto de professores é, por outro lado, alinhamento contra a posição (segundo o texto) do movimento estudantil. Diga-se de passagem, a ideia de “um voto por cabeça”, implícita na descrição da reportagem, não me parece ter hegemonia nas manifestações dos estudantes. Essa discussão interna também passa batida.

Nesse sentido, o periódico desconhece artigos como o do professor Renato Janine Ribeiro, “Proposta de Mudança Para a Eleição de Reitor da USP“, lançado em 2011 no Informe nº63 da FFLCH, que estuda, com mais dedicação do que breves respostas de entrevista, essa questão.

Páginas de opinião

Para além do jornalismo propriamente dito, que se pretende objetivo e, no caso específico da Folha, “plural”, o jornal em 4 de outubro se declarou politicamente sobre o tema. O editorial “Fetiche democrático“ (reverberado, portanto, por dois leitores nos dois dias seguintes) não deixa de afirmar que “não há dúvidas de que a eleição para reitor da USP é pouco representativa” e que “o modelo de escolha do reitor precisa ser aprimorado”, mas suas críticas recaem somente sobre o que querem os estudantes, não, por exemplo, à decisão do Conselho Universitário – que, na prática, modifica quanto da estrutura anterior?

A seção “Tendências/Debates” abriu espaço para o jogo dos contrários. Publicou o “Universidade não é nem deve ser democrática“, do professor Marcos Fernandes G. da Silva (que, com efeito, discorda de todos os reitoráveis, do próprio jornal e até mesmo do atual reitor) e o manifesto do Diretório Central dos Estudantes da USP, “Diretas Já“. Particularmente, penso que o recolhimento sazonal de opiniões do DCE explícita uma preguiça jornalística: tanto a Assembleia Geral quanto cada uma das assembleias de curso exemplificariam ao repórter atento uma múltipla cena de ideias e posições. Por fim, dois colunistas se posicionaram: no mesmo dia 4 do citado editorial, “Lagosta no bandejão“, de Hélio Schwartsman, o reforça; no dia 8, Vladimir Safatle, com “Democracia na USP“.

O que foi exposto se crê capaz de demonstrar o enviesamento do trabalho de reportagem e a ineficácia da cobertura em prover o leitor dos recursos precisos para formar a sua opinião sobre o caso. No âmbito deste texto, não discuto o mérito das posições de lado a lado, mas estou disposto a tratá-lo por e-mail – os argumentos de oposição me parecem especialmente fracos.

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Duanne Ribeiro é jornalista

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