Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / LUIS PRADOS

‘Não acredito em jornalismo cidadão’

Por Nathália Carvalho em 03/12/2013 na edição 775
Reproduzido do Comunique-se, 27/11/2013; título original “‘Não acredito em jornalismo cidadão’, diz diretor do El País no Brasil”

Era maio de 1976 quando a primeira edição do El País foi às bancas. Trinta e sete anos depois, o jornal acumula 15 milhões de usuários únicos por mês, investiu em digital e, atualmente, pelo menos 40% do número total de acesso online vêm de leitores de fora da Espanha.

Com sede em Madri, e pensando em ser global, a empresa fez acordo de distribuição com diversos países, estruturou redações em Barcelona, Sevilha, Valencia, além de escritórios em Washington, Bruxelas e México. Neste fim de novembro, foi a vez do Brasil, que acaba de receber a versão em português do site.

Há quem diga que o jornalismo passa por crise. El País acredita que os meios de comunicação tradicionais passam por mudanças, mas não há problemas com a publicidade no continente. Diretor de redação do veículo no Brasil, Luis Prados conversou com o Comunique-se na terça-feira (26/11) sobre modelo, apostas e contou como escolheu os 11 jornalistas que compõem a equipe.

Confira, abaixo, a íntegra do bate-papo:

Em que momento vocês decidiram vir para o Brasil?

Luis Prados – O Brasil era como uma assinatura pendente para nós. Desde o começo do jornal, tínhamos o objetivo de ser voltado para o internacional. Quando não existia internet, essa seção estava sempre na página 2, 3 ou 4. El País sempre tratou do assunto no início, sempre foi o nosso ponto forte. Graças às novas tecnologias, conseguimos atingir várias pessoas pela internet. Durante os protestos, por exemplo, o número de leitores brasileiros aumentou e foi uma surpresa boa. Então, pensamos junto com os executivos o porquê não investíamos no país. Estamos falando de 200 milhões de leitores que falam português e que nós não cobríamos. Não estávamos suficientemente globais.

Atualmente, algumas redações brasileiras estão demitindo. O El País está investindo. Por quê?

L.P. – Existe crise financeira global, que começou em 2008. Em paralelo, temos a crise dos meios de comunicação tradicionais. Mas, neste continente, não vejo crise de publicidade, que é gravíssimo na Europa, por exemplo. Existem mudanças nos modelos de negócios, já que tivemos salto tecnológico grande. É como se tudo conspirasse contra a profissão. A venda de celulares aumenta cada vez mais e as pessoas estão lendo pouco em papel, a publicidade foi desaparecendo nesta mídia e as empresas precisaram cortar gastos demitindo o pessoal. É um desastre para a nossa profissão. A meu ver, o jornalismo segue sendo necessário com o profissional que conhece a área, ideologia, ética da informação e etc. Não acredito em jornalismo cidadão, assim como não acredito em médico cidadão (amador). Cada um tem a sua profissão.

Como vocês enxergam esse investimento?

L.P. – É a primeira vez que El País tem tanta ousadia. É um idioma diferente, é um país com diversas variedades. É um grande desafio.

Como foi a escolha da equipe?

L.P. – Eu vim para São Paulo algumas vezes e em junho deixamos público a nossa intenção de montar a redação aqui. Depois disso, vários jornalistas começaram a enviar currículos. Em setembro e outubro, comecei a separar os que me interessavam, fiz entrevistas e percebi as pessoas que poderiam funcionar. Buscava, acima de tudo, jovens. E assim fomos contratando. Tirando uma jornalista brasileira sênior, todos os outros são juniores. São quatro espanhóis, contando comigo, e sete brasileiros.

Quais são as expectativas?

L.P. – Queremos que o público brasileiro nos veja. Não queremos ser um corpo estranho na sociedade. Vamos ser divertidos, interessantes e contar as coisas por outro ângulo, de maneira que isso sirva de contraste. Acabamos de nascer e vamos começar pela parte de entender esse povo, para que ele nos conheça e nos procure. 

O que o leitor pode esperar?

L.P. – O leitor de El País no Brasil deve ter sensibilidade com informações internacionais. Ele terá proporção de reportagens brasileiras, que vai ser distribuída na Venezuela, na Argentina, nos Estados Unidos e em outros países. Se o leitor só se interessar por política nacional, vai acabar sendo escasso. Os nossos leitores são pessoas que se interessam por ver seus países em contexto global e é isso que vamos oferecer. Temos que levar em conta que não existe fato que acontece num lugar e não afete imediatamente o resto do mundo.

Existe previsão de pageviews?

L.P. – Não existe. Vamos começar como nos países da América: pouco a pouco. Queremos descobrir o país, transformar a realidade do Brasil desde o nosso ponto de vista até o nosso estilo jornalístico dentro do contexto global. Já temos esse DNA, agora com sensibilidade brasileira. 

Vocês pretendem cobrar pelo acesso ao conteúdo?

L.P. – Em longo prazo, quem sabe. Não existe fórmula mágica. Ninguém sabe qual modelo deve ser trabalhado e o que dá certo. O The New York Times cobra, mas não é por isso que todos devem fazer o mesmo. Acredito que ninguém sabe, ainda, como tornar o online mais rentável.

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Nathália Carvalho, do Comunique-se

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