Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Terceira geração dos Civita traça futuro da Abril

Por Cynthia Malta em 03/12/2013 na edição 775

Dona da maior editora de revistas do país e da América Latina, a terceira geração da família Civita está reorganizando o Grupo Abril. Busca uma estrutura mais enxuta e eficiente, com o objetivo de expandir os negócios de educação e logística. As revistas deixaram de ser o único foco do grupo. “Nossa visão…, a visão de meu avô e de meu pai, era de que a editora é o nosso principal pilar e que ele deve crescer. A minha trajetória, o que eu venho defendendo é que a editoria é um pilar, mas temos também outros pilares, que valem ser desenvolvidos”, diz Giancarlo Civita, presidente do conselho de administração do grupo, que emprega cerca de 9 mil pessoas e neste ano pode chegar a um faturamento de R$ 4,5 bilhões.

Gianca, como é mais conhecido, é neto de Victor Civita e filho de Roberto Civita. O avô, falecido em 1990, fundou a Editora Abril há 63 anos, com a publicação da revista do Tio Patinhas. O pai criou Veja – a revista semanal de maior circulação do país e a segunda do mundo, abaixo apenas da americana Time –, e tomou o leme dos negócios a partir da morte do fundador.

O neto começou a trabalhar na Abril aos 17 anos. Ele lembra com saudades da MTV, canal de televisão voltado para música no qual a Abril foi sócia da Viacom até meados deste ano. “Era muito divertido. Eu tinha 30 anos e a MTV era o melhor lugar do mundo para se estar.” Ele chegou a assumir a presidência executiva do grupo entre 2007 e 2011, numa das várias reestruturações pelas quais a companhia passou. Hoje preside também a Abrilpar, a holding onde é sócio em partes iguais com os irmãos Victor e Roberta.

A queda da curva da receita

Gianca se anima ao falar dos outros “pilares” que devem crescer no grupo: a DGB, que opera no mercado de distribuição e logística, e a Abril Educação, que está passando por uma reestruturação. A reorganização dos negócios é ampla. “No grupo, nós temos mais de 80 empresas. Estamos fazendo uma reestruturação para que essa estrutura fique mais simples, mais limpa, para que seja uma estrutura mais eficiente do ponto de vista fiscal”, diz Gianca.

Na divisão que corresponde à editora, comandada por Fábio Barbosa, ex-presidente do Banco Santander, o plano é concentrar os esforços em um grupo mais seleto de revistas do que o dar mais foco ao abrangente portfólio de 49 títulos – de saúde a moda, passando por celebridades, tecnologia, educação etc. “Atuamos em 26 setores com as revistas. Estamos focando, no momento, em quatro frentes”, diz Gianca, que trata o assunto com extremo cuidado. Afinal, a divisão de mídia é a responsável ainda hoje pela maior parte do faturamento do grupo – dos R$ 4,5 bilhões esperados para o ano, R$ 2,7 bilhões devem ser aportados pela área das revistas.

Mas, enquanto a Abril Educação e a DGB crescem e têm perspectiva de manter forte expansão nos próximos anos, a divisão das revistas não tem tido um desempenho tão positivo. “A receita deste ano, que deve chegar a R$ 2,7 bilhões, vai ser flat [sem crescimento] estável com 2012”, diz Barbosa. “Estamos tentando adiar a queda da curva da receita”, diz Barbosa, que não vê “grande aumento” de receita de publicidade nos próximos dois anos. “Em 2014 não virá e 2015 é uma incógnita”, diz.

O acordo com o Huffington Post

O grupo quer colocar foco, daqui em diante, em quatro grupos de revistas, consideradas mais promissoras: Veja, Exame, Claudia e as Vejinhas. Esta nova orientação da divisão de mídia – que será discutida em reunião do conselho de administração em fevereiro de 2014 – não significa que as demais publicações do portfólio serão fechadas no curto prazo. Mas receberiam menos investimentos do que as quatro publicações escolhidas.

Os quatro setores, diz Gianca, “geram produtos impressos, digitais, eventos e negócios de e-commerce”. A área de eventos é considerada de grande potencial. “A Abril está fazendo neste ano mais de 200 eventos e não está descartada a possibilidade de fazermos aquisições, ampliando o leque nessa área”, diz. Ele menciona “uma empresa de feiras”, que organize feiras de negócios, como exemplo de ativo que pode interessar. Não há interesse em empresas voltadas a entretenimento.

Ainda na divisão de produtos editoriais, Gianca comenta a parceria com The Huffington Post, site que publica notícias sobre política e celebridades, pertencente à americana American Online (AOL): “O acordo com o Huff Post nos leva a um ramo novo, de como fazer um jornal eletrônico barato e não canibalizar o que já temos.” O Brasil Post, a versão brasileira que deve começar a funcionar até o fim de janeiro, vai reproduzir notícias de outros veículos e oferecer algum conteúdo original.

Venda de produtos pelos sites das revistas

O parque gráfico da Abril, um dos maiores da América Latina, tem o grupo como cliente principal, que usa entre 80% e 96% de sua capacidade. “Mas se e quando as tiragens caírem, há novos produtos que podem ser feitos pela gráfica”, diz Gianca. Ele cita como exemplo um chip que pode ser colado em produto. Este chip – impresso num pedaço fino de papel – permite, por exemplo, acompanhar a trajetória que o produto faz em um caminhão, via satélite. Ainda não está sendo fabricado pela Abril, mas pode ser no futuro.

Sobre o processo de reorganização dos negócios, Barbosa diz que a companhia precisa ser mais “ágil” e capaz de entregar um produto “bom, o suficiente”. Em sua visão, “não podemos demorar muito para produzir algo excelente, com o risco de quando for apresentado ao mercado, já estar ultrapassado”. Resumindo, “o produto tem que ser rápido e de qualidade”. A internet é vista como grande oportunidade, mas o movimento de migração de assinantes das revistas do papel para a web tem sido lento. Barbosa diz não acreditar que essa migração vá ocorrer de forma definitiva.

“Acho que o leitor vai acessar de forma diferente o conteúdo, dependendo do lugar e do momento.” O hábito de ler a Veja aos sábados pela manhã no sofá, lembra, ainda pode manter o produto em papel por muito tempo. O fato de a internet via banda larga ainda não funcionar adequadamente no país também impede que a curva dos assinantes digitais cresça mais rapidamente. A Abril deve chegar a dezembro com 4,2 milhões de assinaturas, sendo 355 mil digitais. A internet abre ainda outro nicho de atuação para a Abril, o de varejo. A companhia comprou, há cerca de um mês, o site Meu Espelho, especializado na venda de perfumes e cosméticos. A Abril já vendia produtos atrelados às revistas, pela web, com parceiros, mas é a primeira vez que faz uma aquisição desse tipo. “Temos uma audiência enorme e vender produtos pelos sites das revistas é uma forma de prestar serviço ao leitor. Mas é uma operação pequena, em termos de receita. Não vamos ser uma empresa de e-commerce dentro da divisão de mídia”, diz Gianca. O negócio de logística da Abril, no entanto, tende a crescer com o mercado de varejo online.

“Sou um Brasil de longo prazo”

O setor de logística no país, diz o empresário, vai passar por um processo de consolidação. A DGB está olhando o mercado e “há possibilidades de fazer aquisições, sim, já em 2014”. Douglas Durán, o executivo que comanda a DGB e que também é vice-presidente de Finanças da Abrilpar, não tem dúvidas de que a DGB “é a pedra mais preciosa da Abril, com potencial de ser maior do que a Editora e a Educação”.

Gianca fala da operação de logística: “Depois dos Correios, somos a maior empresa de entrega de mercadorias de 30 kg para baixo. Fazemos a last mile e somos mais rápidos e mais baratos do que os Correios. Nós já somos a UPS do Brasil.” Emenda uma pergunta: “Não seria interessante juntar a maior empresa de logística para pacotes abaixo de 30 kg [a DGB] com a maior varejista online do país?” Ele próprio responde: “Seria, mas não queremos um acordo que exija exclusividade. Já recusamos propostas por isso.” A Abril, diz, vem sendo muito procurada por varejistas querendo fazer negócio com a área de logística, mas a DGB, pelas ofertas de associação recebidas, só poderia trabalhar para o novo sócio. “Não é isso o que queremos. Se surgir uma proposta que não exija exclusividade, podemos olhar, sim”, diz Gianca.

Sua visão sobre a economia brasileira no médio prazo é cautelosa. “2013 continua sendo um ano difícil. Eu espero que a maré vire, mas vejo que, pelos próximos dois anos, ainda teremos um mercado difícil. A economia internacional ainda não está robusta e isso afeta o Brasil”, diz ele, emendando um contraponto: “Mas eu sou um Brasil de longo prazo. Eu sou long Brasil”.

Como seu pai, Gianca estudou na Graded, uma escola americana no bairro do Morumbi, em São Paulo. Formou-se em comunicação social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e complementou os estudos nos Estados Unidos, na Harvard Business School. “As conversas com meu pai eram 70% em português e 30% em inglês.”

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Abril Educação pode chegar a R$ 2 bi em 2018

A Abril Educação está estruturando um plano de cinco anos. O objetivo é ter uma estrutura simples, integrada e mais eficiente do ponto de vista fiscal. A receita, que neste ano pode ultrapassar R$ 1 bilhão, chegaria a R$ 2 bilhões em 2018.

A companhia, controlada pela família Civita e presidida desde a sua criação por Manoel Amorim, contratou a consultoria Galeazzi, que vai ajudar na reorganização dos negócios. Amorim, quando olha para o futuro do Grupo Abril, diz que “ele tende a seguir o mesmo caminho da Pearson”, a gigante inglesa que é dona do jornal Financial Times e de metade da revista The Economist, mas que tem a maior parte de seu faturamento em negócios ligados à educação. Desde que foi criada, em 2010, a Abril Educação vem crescendo com aquisições e hoje abriga 17 empresas – de editoras de livros (Ática e Scipione) a sistemas de ensino (Anglo e Maxi, entre eles), passando por escolas de idiomas (Wise Up e Red Balloon) e cursos preparatórios para concursos públicos (AlfaCon). Ao fim dos cinco anos previstos no plano de reorganização, a fatia das editoras de livros didáticos, que no ano passado respondeu por 57% da receita da Abril Educação, deverá ser inferior a 25%. As demais áreas, com destaque para os sistemas de ensino e escolas de idiomas, equivaleriam a mais de 75% da receita.

O plano, que começa a ser deslanchado em janeiro, deverá reduzir o número de empresas, para que o número de notas fiscais emitidas, por exemplo, também possa ser menor. A ideia também é deixar a força de vendas mais eficiente. Em vez de um cliente receber vários vendedores da Abril Educação – cada um vendendo um produto diferente –, a companhia quer que todo o portfólio de marcas seja oferecido pelo mesmo vendedor.

Abril vai comprar empresa de tecnologia de educação

O “orçamento base zero” – modelo empregado em grandes empresas como AmBev e Grupo Pão de Açúcar – também será adotado pela Abril Educação. “O objetivo é aumentar a capacidade de controlar a operação e comparar resultados em cada área do negócio”, diz Amorim. Com isso, segundo ele, fica mais fácil eliminar atividades que não geram valor.

A integração dos sistemas de informática é um ponto importante da nova organização dos negócios da Abril Educação. A companhia já anunciou que investirá R$ 60 milhões nessa área nos próximos três anos, até 2016. O plano é ter, para toda a operação, o mesmo backbone (rede de comunicação única).

A política de aquisições terá uma pausa de um ano – o de 2014, quando o plano de reorganização estará sendo deslanchado, com diferentes fases de implementação, dependendo da área. Mas antes disso, a Abril Educação fará ainda mais uma aquisição. Até o fim do ano, apurou o Valor, a companhia vai comprar uma empresa de tecnologia de educação, que vai complementar o portfólio de produtos e serviços para escolas.

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DGB enxuga estrutura e planeja triplicar receita

A DGB, holding voltada à distribuição de revistas e logística do Grupo Abril, opera com seis empresas, mas a tendência é concentrar as atividades em três apenas. O enxugamento na estrutura faz parte de um plano mais ambicioso, que prevê triplicar o valor do negócio em até três anos e, assim, atrair um investidor estratégico. À frente desse projeto está Douglas Durán, que também ocupa a vice-presidência financeira da Abrilpar, a holding que controla o grupo. “A área de logística é a pedra mais preciosa da Abril, com potencial de ser maior do que a editora e a educação”, diz ele.

Neste ano o faturamento da DGB deve chegar a R$ 511 milhões – em 2012 ficou em cerca de R$ 400 milhões. O objetivo de Durán é triplicar a receita atual, em dois a três anos. “O mercado em que a DGB atua está estimado em R$ 52 bilhões e cresce de 20% a 25% ao ano”, diz o executivo. A reorganização dos negócios deve começar em 2014, quando as distribuidoras Dinap (que atende cerca de 100 editoras), Fernando Chinaglia (cerca de 250 editoras) e a Magazine Express (uma operação menor, dedicada a revistas estrangeiras) devem ser fundidas numa mesma companhia. As publicações da Abril respondem por cerca de 40% da receita combinada de Dinap e Fernando Chinaglia.

“Também estamos em estudos para juntar a Total Express e a Entrega Fácil, a tendência é juntar”, diz Durán. Estas duas empresas são especializadas em encomendas de pequeno porte, abaixo de 30 kg, e operam no mercado de comércio online – para consumidor final e para empresas. A Treelog, a sexta empresa da DGB, é a que faz a entrega dos produtos negociados pelas outras cinco companhias da holding. “A Treelog trabalha com uma rede de 194 distribuidores. As outras empresas são comerciais, não fazem entregas”, diz Durán.

Desde 2009, quando foi criada a DGB, já foram investidos R$ 200 milhões na operação. “Aumentamos a nossa capacidade em cinco vezes.” Entre os equipamentos comprados está um sorter – similar às esteiras usadas em aeroportos para levar malas a passageiros. Ele é capaz de separar até 250 mil pacotes por dia, de acordo com o CEP da pessoa que vai receber a encomenda. “Isso aumentou muito a capacidade de atendimento ao mercado de e-commerce”, diz Durán. O uso dessa capacidade está, atualmente, em 60 mil pacotes/dia. O sorter velho, usado até o ano passado, podia separar até 50 mil pacotes – a DGB estava usando 40 mil. O novo equipamento não constrangerá a expansão futura da empresa.

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Cynthia Malta, do Valor Econômico

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