Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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FEITOS & DESFEITAS >

Nanodicionário de termos e expressões indevidos, v. 8

Por Mauro Malin em 24/12/2013 na edição 778

Foi usada aberrantemente neste Observatório, pelo autor deste tópico:

>>“Desistência à candidatura…”. A regência indicada por Francisco Fernandes (Dicionário de regimes de substantivos e adjetivos, 1a ed., 8a imp., Porto Alegre, Editora Globo, 1958) é com a preposição de. Ele dá abonações de Morais (“desistência da citação, dos embargos, da ação proposta”) e de Constâncio (“desistência da pretensão”). Ocorrência recente: texto do autor destas linhas publicado na edição 777 deste Observatório (“Propinas e campanhas“): “Os quatro mais influentes jornais brasileiros – Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor e O Globo – deram na terça-feira (17/12) a desistência de José Serra à candidatura à presidência da República pelo PSDB sem estabelecer nenhuma relação com a denúncia de corrupção em compras de produtos e serviços para os sistemas de metrô e trem de São Paulo, objeto de noticiário que cresce de intensidade desde agosto”, erro corrigido cinco dias depois da publicação.

Raramente, hoje em dia, é usada na mídia brasileira a construção, correta:

>> “Direito do cidadão pedir”. De acordo com a norma que tomou de assalto as redações, o correto seria “direito do cidadão de pedir”, forma impecável, ou, canhestra mas usualmente, “de o cidadão pedir” (o “erro” está no Globo de 16/12, pág. 3, box: “O texto regulamenta o direito do cidadão pedir e receber dos órgãos públicos…”; não foi apontado como tal na “Autocrítica” do jornal: terá sido um retorno aos melhores usos da língua nesse diário?). O veto à contração da preposição com o artigo ou pronome (de+o e variações) pode ter sido obra de Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998), gramático que assinou durante muitos anos uma coluna no Estado de S. Paulo. Tenha ou não partido dele a iniciativa, a coisa grudou como carrapato. Domingos Paschoal Cegalla, um autor que tem juízo, escreve (Dicionário de dificuldades da língua portuguesa, 3a ed., Rio de Janeiro, Lexikon, 2009): “É lícito, em benefício da eufonia, contrair a preposição de com o artigo ou o pronome antes de orações infinitivas, em construções do tipo – Antes do sol nascer, a neblina cobria o vale; A maneira dele tratar o servo deixou-me revoltado. Certos gramáticos desinformados e caturras condenam a contração e querem que se diga – Antes de o sol nascer… / A maneira de ele tratar o servo… Alegam que o sujeito não pode vir regido de preposição. Evidentemente, uma alegação equivocada, porquanto a contração, no caso em apreço, não infringe aquele princípio gramatical. Na primeira frase supracitada, por exemplo, a prep. de não rege o sujeito sol, mas o verbo nascer [antes de nascer o sol], ainda que contraída com o artigo o. Não houve alteração sintática, mas apenas um fato de ordem fonética, uma acomodação da escrita à fala, a bem da eufonia e da espontaneidade da expressão.” (A argumentação continua longamente, povoada de exemplos de bons escritores portugueses e brasileiros que preferem o que é mais natural e mais elegante. No verbete “o fato de o”, Cegalla diz que é melhor não contrair “na linguagem culta formal”, fazendo concessão ao gramaticismo pernóstico, mas ocupa a maior parte do verbete com abonação contrario sensu de bons escritores que, “para fugirem ao artificialismo de tais pronúncias – de o, de a –, preferiram a contração, a qual, aliás, está mais de acordo com a tradição do idioma.”) Evanildo Bechara trata do tema com idêntica compreensão (Moderna gramática portuguesa, 32a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1988, págs. 311-12). Celso Cunha, que não era nem caturra, nem desinformado, recomendava evitar a contração (“Quando a preposição que antecede o artigo está relacionada com o verbo, e não com o substantivo que o artigo introduz, é aconselhável que os dois elementos fiquem separados, embora não faltem exemplos de sua aglutinação na prática dos melhores escritores”; C Cunha e Lindley Cintra, Nova gramática do português contemporâneo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985). Rubem Braga escreveu: “Isso é que dá encanto ao costume da gente ter tudo desarrumado”. Jamais teria escrito “Costume de a gente [soa de agente] ter tudo desarrumado.”

É usado equivocadamente na mídia brasileira:

>>“Por se tratarem”. Sigamos com Cegalla (ibidem): “No sentido de ‘estar em causa’, ‘ter por objeto’, ‘versar sobre’ [igualmente ‘ter relação com’, ‘consistir em’, apud Aulete], o verbo tratar concorda obrigatoriamente na 3a pessoa do singular” (seguem-se exemplos em número suficiente para esclarecer a mente mais rebelde às normas da língua culta). No final do verbete, a explicação: “Em tais frases, o sujeito é indeterminado, razão pela qual o verbo fica no singular.” Aparição recente da tropelia gramatical: na mesma página do Globo acima referida (“O acesso a esses dados foi negado por se tratarem de informações classificadas como reservadas.” Não foi assinalada na “Autocrítica” do jornal publicada no dia seguinte). Em outras acepções, o verbo vai para o plural: “Tratam-se com antibióticos”, “Tratam-se como cavalheiros”.

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