Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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FEITOS & DESFEITAS >

Ronald, um big ladrão

Por Luiz Martins da Silva em 24/12/2013 na edição 778

As sociedades já não produzem ladrões como os de antigamente. Nem mesmo o cinema. Os de hoje são por demais inverossímeis, quando não são replicantes, androides ou simplesmente pastelões de tribunais superiores, avançando sobre os últimos recursos infringentes e outras algaravias jurídicas e clínicas, com direito a regime semiaberto e trabalho, por sinal, algo indigno para a reputação de um verdadeiro gatuno. Que ridicularia, essa de ladrão ir para a cadeia e arranjar emprego lá fora!

Ladrões exemplares existem até nos textos sagrados, que o diga o Bom Ladrão, aquele santificado porque uma vez, ao lado do Rei dos Judeus, suplicou vaga num outro Reino: “Mestre, lembra-te de mim quando chegares ao teu Paraíso”, obtendo como resposta uma garantia: “Ainda hoje estarás lá, comigo”. Houve até um certo Robin Hood, que não amealhava para si, mas para uma legião de excluídos.

Agora, quando já ultrapassado em seu próprio ocaso, nos últimos fiapos de vida e nos estertores da demência, eis que reaparece no noticiário o folgazão Ronald Biggs, mentor e protagonista do lendário assalto ao trem pagador, fujão espetacular e oportunista de primeira, com direito a exílio de celebridade carioca e pantomima cinematográfica. Confesso o despudor de um dia tê-lo admirado, mas, perdão, eu era ainda um adolescente, portanto, na etapa conclusiva de meu processo de maioridade moral.

Tempos idos

Ladrões, evidentemente, não são nada exemplares e nem paradigmas pedagógicos, mas, vem você, leitor, me dizer que a meninada não aprecia um contraventor criativo? Digo isto, porque vi, como meus próprios olhos de cinéfilo do interior, aquelas algazarras de matinês, irreverências de torcer aos gritos pelos facínoras, maus, mas intrépidos, a pular feito pumas sobre as suas presas, inocentes passageiros e condutores de diligências, entre elas, donzelas tão virgens e tão frágeis quanto as flores dos cactos de desertos far West.

Crianças e jovens estão ainda em vias de formação do seu “julgamento moral” (Piaget). Até lá, dispõem dessa licença poética que só Adão teve, antes de se danar para fora do Éden, em companhia de sua Eva, a parir com dor e a sangrar todo mês. Quem não se lembra da sua primeira sessão de cinema? A minha foi um tal de O revólver era a lei, o que se poderia hoje chamar de clássico, não fosse a sua mediocridade de nem sequer figurar nas grandes mostras, qual magníficas, mas sonolentas referências, como O nascimento de uma nação (David Grifith).

Éramos pouco mais do que crianças e adorávamos aquelas porcarias, a ponto de brincar toda uma semana de cowboy, até o próximo frenesi. Isto, as matinês eram aos domingos. Nos outros dias, filmes noturnos, geralmente chatos, a não ser quando conseguíamos burlar alguma classificação para “de maior”. Eu e um colega conseguimos, não sabemos como, até hoje, comprar ingresso para um filme “maior de 18” e tratamos de entrar atrasados, na carreira, ficando o porteiro a nos olhar embasbacado. Quando o idiota caiu em si, já estávamos sob o manto do escurinho, trailer já avançado; tratamos logo de nos aboletar nas cadeiras do meio, lanterninha nenhum nos localizou. Mas, depois veio a decepção. Zorba, o grego, estava mais para uma lírica aula de catecismo do que o prometido envolvimento de um maluco aventureiro (Anthony Queen) com uma velha prostituta. A música, no entanto, imperdível, aprendemos tirar um solo no violão e aquela dança nos impregnou por muito tempo.

Ah! Ronald Biggs! Você foi um big Ronald, um Ronaldo fenômeno, intrépido, famoso e até bonachão como o nosso Ronaldo Golias, agora, também saudoso. Confesso que em tempos de imaturidade torci por você e contra aquela estúpida e trapalhona polícia inglesa, mas, agora, já se foi a minha licença poética, digo, moral, de me admirar com feitos de bandidos inteligentes. Ao mesmo tempo, não comungo do entusiasmo dessa laia de apresentadores de telejornais policialescos, justiceiros de desgraçados. São uns fariseus televisivos, a berrar sobre os infortúnios de uma ralé delinquente: “Eu adoro bandido burro!”. Agora, já não venero bandido nenhum, nem esperto, nem besta, nem de colarinho branco. Mas, volto a confessar: houve um tempo em que os anti-heróis tinham o seu charme.

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Luiz Martins da Silva é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

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