Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > SENSACIONALISMO

Quem tira a foto sabe que alguém quer vê-la

Por Thiago Cury Luiz em 11/02/2014 na edição 785

Cada vez que uma cobertura sensacionalista vem à tona, chega-se à conclusão de que essas coisas de ética não se ensinam em sala de aula. Estão contidas na atuação do profissional (e do antiprofissional) as experiências de toda uma vida. A formação do indivíduo como pessoa e a sua concepção de mundo estão em jogo, muito mais do que as aulas semanais da disciplina de Ética e Legislação que o sujeito teve ou deixou de ter ao longo de um mísero semestre da faculdade.

Quando a imagem chocante, seja ela estática ou em movimento, não carrega consigo informação, a sua intenção é meramente a do espetáculo. Crânios desfigurados e corpos esquartejados não informam, só estarrecem. Nessas circunstâncias, o texto (e olhe lá!) necessita dar conta dos requintes de crueldade. Na maioria dos casos, o indicado é executar o mais simples: “Fulano, 40, médico, sofreu um acidente na rodovia Castelo Branco e não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer no caminho para o hospital. A vítima, que morava em São Paulo, estava em alta velocidade quando perdeu o controle do veículo, caindo na ribanceira.” Uma ou outra informação adicional, mas sem detalhes sobre a situação do(s) corpo(s) do(s) envolvidos(s).

Registrar imagens e publicá-las são atividades acessíveis a muitos hoje (especificamente a quem tem, no mínimo, um celular com câmera e um pacote de internet móvel). A isso se dá o nome de jornalismo cidadão – expressão com a qual eu não concordo, pelo fato de haver um abismo entre compartilhar imagens e relatos na web, ainda que de interesse público, e o trabalho jornalístico. O modus operandi da imprensa transcende a meras questões mórbidas e de tecnologia. Falamos aqui em apuração, clareza, verossimilhança, interesse público e os limites básicos que qualquer atuação profissional requer.

Noção da realidade

Importante destacar que o sensacionalismo não se materializa apenas numa imagem grotesca marcada por destruição e sangue. O sensacionalismo está no discurso apelativo, piegas e mal feito, buscando artificialmente sensibilizar a massa. Está, também, na repetição constante de imagens, ainda que estas não contenham qualquer tipo de tragédia. Enfim, o sensacionalismo é o recurso dos menos capazes, usado quando todas as alternativas já foram implementadas ou quando as mesmas são desconhecidas, pois carece o seu autor do repertório técnico, teórico, ético, científico e filosófico da área. Talvez falte, de igual modo, um tiquinho de sentimento, zelo pela comoção alheia, o que convencionamos chamar de humanidade.

Isso à parte, é desanimador saber que muita gente em meio à sociedade se satisfaz com essas aberrações (lembra-se do efeito catártico?: o sujeito se impressiona com a cena, mas fica inconscientemente aliviado, pois a vítima não foi ele, e sim o outro). O sensacionalismo nada mais é do que a vertente utilitarista do jornalismo: ele faz um trabalho que podemos julgar imoral, mas visa tão somente a maximização da felicidade. Ou seja, se a maioria aprova a ação (e isso, no jornalismo, dá-se com audiência), não importa se ela – a ação – é ou não questionável. O utilitarismo tem como fundamento central o resultado, e não a intenção baseada em princípios racionais. Já o intencionalista age movido pelo pressuposto da deontologia. Isto é, dane-se o resultado, o objetivo final, os índices de audiência. A bandeira do deontólogo é realizar o dever por amor ao dever, e temos aí cristalizado o imperativo categórico, expressão mais que consagrada do filósofo alemão Kant.

Por tudo isso, ao me perguntarem qual a utilidade das disciplinas teóricas num curso de jornalismo, ao deparar com estudantes desprezando as matérias mais pesadas, eis aí uma boa resposta: Filosofia, Sociologia, Economia, Antropologia, Teorias da Comunicaçãoe pastas afins têm como função abordar o campo da comunicação sob a sua dimensão mais crítica. A ideia de faculdade é justamente essa: a de proporcionar uma noção mais horizontal e ampla da realidade, permitindo que se contextualize o fato com os diversos campos do conhecimento. Por isso, os cursos técnicos, no âmbito das ciências humanas e sociais aplicadas, são insuficientes. Saber apertar botão, enquadrar imagem, postar-se diante da câmera, imprimir o tom de voz adequado, constituir o lead não bastam para cumprir a tarefa de informar.

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Thiago Cury Luiz é jornalista e professor, Getulina, SP

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