Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > SININHO

A mídia vai criar um mito

Por Ligia Martins de Almeida em 18/02/2014 na edição 786

Os jornais e revistas estão felizes. Conseguiram dar uma cara aos black blocs, culpados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade. E, para alegria dos pauteiros sensacionalistas, a cara dos black blocks é uma morena miúda, bonitinha, de cabelos curtos que, como se não bastasse, ganhou dos colegas de confusão o apelido de Sininho.

Se a cara dos black blocs fosse a de um dos mascarados, o apelo seria bem menor. A verdade é que, até agora, as imagens de TV ou fotos de revistas e jornais não tinham dado destaque às mulheres entre os mascarados. Naquela multidão usando bonés e máscaras, a cara limpa de Sininho faz a alegria dos fotógrafos.

Conhecida até outro dia apenas por seus seguidores no Facebook, Elisa Quadros ganhou perfil no diário gaúcho Zero Hora, matéria grande no Globo e, glória das glórias, virou capa de Veja no domingo (edição 2361, de 19/2/2014).

Na matéria “Os segredos de Sininho”, Veja diz:

“Três personagens foram fundamentais para revelar a face mais sinistra dos black blocs: Fábio Raposo, o Fox, que carregou o rojão que atingiu o cinegrafista; Caio Silva de Souza, o Dik, que levou o artefato até perto da vítima; e Elisa Quadros, a Sininho, militante ativista (a definição é dela) que surgiu do nada para oferecer ‘assessoria jurídica’ aos dois acusados e não parou mais de aparecer.”

Enquanto os dois presos são considerados “peões” do movimento, Elisa é definida pela revista como “parte da elite que decide e dá ordens e faz a ponte entre os black blocs e a parcela da classe política que nutre simpatia pelo grupo.”

Outra história

Para justificar a definição de Elisa como uma das chefes do movimento, Veja diz que ela é “articulada, gosta de mandar – em passeatas, é vista apontando a direção a ser tomada pelos mascarados – e de alardear amizade com quem julga poderoso, como o deputado Marcelo Freixo, do PSOL”.

Mais objetivo, o Zero Hora, de Porto Alegre, fez um longo perfil da moça, sem, no entanto, considerá-la parte da chefia dos black blocs:

“Personagem nos protestos violentos ocorridos no Rio de Janeiro (um deles resultou na morte do cinegrafista da Band, Santiago Andrade, atingido por um rojão lançado por um black bloc), a ativista Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, 28 anos, é de uma família de militantes. A jovem porto-alegrense, que deixou o Estado com a mãe, aos 11 anos, tem uma história de classe média: frequentou boas escolas, fez política estudantil e mora em Copacabana, um dos metros quadrados mais caros do país. Aproximou-se de ativistas da Frente Independente Popular e da Organização Anarquista Terra e Liberdade (grupos de orientação anarquista, ultrarradicais, que defendem o emprego de métodos violentos de luta). Tornou-se voz ativa em assembleias populares, realizadas em quatro bairros do Rio. Com a explosão dos protestos, em junho, assumiu a liderança não oficial em manifestações. De rosto limpo, mas sempre próxima de radicais mascarados, vocifera contra a imprensa e os policiais.”

Uma das entrevistadas pelo Zero Hora diz que Elisa se destacava porque era articulada, mas só ganhou importância durante o Ocupa Câmara (em agosto, no Rio de Janeiro). Diz a advogada (que o jornal não identificou): “Ela tem uma condição social boa, que permite ficar sem emprego fixo. Com tempo livre, acabou aparecendo mais”.

Nessas matérias sobre Elisa Quadros, há uma constante de mau jornalismo: fala-se muito sobre ela, mas ninguém abre espaço para a moça. Tudo o que se sabe sobre ela é o que os outros disseram ou o que ela postou no blog. Talvez uma entrevista bem feita – ela alega que a Rede Globo cortou a entrevista dela e distorceu suas declarações – sirva para destruir o mito que a mídia está criando.

O futuro da nova celebridade depende das próximas ações dos black blocs. Porque a imprensa, todos sabemos, vai esquecer dela assim que surgir outra musa para ocupar esse espaço. De preferência uma musa bonita e sensual e que não assuste ninguém.

A verdade é que se a pessoa morta pelos black boca não fosse jornalista e se o líder conhecido não fosse uma mocinha bonitinha, a história seria bem diferente, sem direito a perfil nos jornais e, muito menos, capa de Veja.

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Ligia Martins de Almeida é jornalista

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