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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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O organograma da redação está mudando

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 18/02/2014 na edição 786

Reproduzido da Revista de Jornalismo ESPM nº 8, jan/fev/mar 2014; intertítulo do OI

Durante as muitas décadas em que a maneira de fazer jornalismo no mundo ocidental teve sucesso e garantiu negócios lucrativos a quem nele empreendia, não havia necessidade – nem muita disposição – para mudar processos, métodos e formas de organização.

O organograma de um veículo jornalístico, por exemplo, permaneceu igual ao longo de praticamente todo o século 20: redação, publicidade, circulação e industrial. E, na redação: pauteiro, repórter, repórter fotográfico (ou cinegrafista), redator, diagramador, editor, secretário de redação, editor-chefe.

Quando o tsunami provocado na profissão pela internet começou, no início dos anos 1990, a reação estrutural foi muito lenta. Só agora, já na terceira década dessa revolução, é que se começa a mexer de modo mais consistente na categorização dos profissionais de jornalismo.

A adaptação aos novos tempos e técnicas tem sido difícil. Há enormes resistências, muito ceticismo. Nem sempre, de fato, as alterações indicam que se vá trilhar um caminho que leve a resultados melhores (para a sociedade ou para a atividade) do que os colhidos “nos velhos bons tempos”.

Mas aos poucos algumas novas funções vêm se solidificando em várias redações, às vezes com diversas nomenclaturas, pelo menos em países que antigamente compunham o chamado “capitalismo maduro”, que a crise financeira de 2008 pareceu mostrar em alguns momentos que já estavam podres, embora eles pareçam estar se recuperando economicamente e ainda mereçam ser olhados como indicadores de tendência.

Nas redações dos Estados Unidos, por exemplo, já é comum a figura do produtor, que até o fim do século passado era quase inexistente. O produtor monta um “pacote” para uma reportagem ou matéria a ser disseminada em qualquer “plataforma”. Lembra o pauteiro, mas faz muito mais do que este fazia.

O infografista, que em alguns lugares já existia nos anos 1990, mas era meio inexpressivo, quase um assessor do diagramador, tornou-se um dos profissionais mais requisitados e importantes em quase todas as redações.

O jornalista capaz de lidar com bases de dados e números, o gerente de dados, agora é dos mais valorizados. Por isso Nate Silver se transformou num ícone de boa qualidade no jornalismo americano contemporâneo.

Repórter fotográfico é quase espécie em extinção. Em seu lugar entra o que alguns chamam de jornalista de multimídia visual, alguém que além de saber fotografar também deve ser capaz de filmar, formular gráficos, índices, mapas, e também escrever. Tudo isso, claro, em nome da “sinergia” e da contenção de custos operacionais.

Para lidar com as mídias sociais e suas repercussões, criou-se a figura do gerente de comunidades, que monitora Twitter, Facebook e congêneres e tenta mobilizar o público que se comunica por meio deles em benefício do veículo, seja do ponto de vista jornalístico ou comercialmente.

Nem só novas funções humanas aparecem ou são adaptadas. Também há lugar agora para máquinas que fazem jornalismo. Como os drones, já utilizados por alguns veículos brasileiros. Ou os robôs, computadores que por meio de algoritmos fazem as vezes de redatores ou editores, pelo menos em matérias factuais mais simples.

O gerente de comunidades, quando junta o interesse da redação e da publicidade, aponta para uma das mais perigosas tendências nas mudanças em voga: a derrubada do muro que sempre separou “Igreja” de “Estado” na profissão.

Já havia acontecido antes, ocasionalmente, mas – como o novo líder da revista Time – está ficando mais comum que a mesma pessoa cuide dos dois aspectos fundamentais do negócio: gerar informação e ganhar dinheiro. Com provável prejuízo para a sociedade.

Sobreviver é fundamental; a qualquer custo, talvez não valha a pena.

Quando o secreto deve ser público

Daniel Ellsberg vazouem 1971 documentos do Pentágono sobre a guerra no Sudeste asiático, e se tornou herói.

Edward Snowden é menos unânime, talvez porque seus vazamentos aumentem a vulnerabilidade do Ocidente a terroristas do fundamentalismo islâmico. Por isso, a análise sobre o assunto pode ter ficado mais matizada que há 40 anos. A seguir, três exemplos.

Obama e imprensa

The Obama Administration and the Press, de Leonard Downie Jr., relata como o atual presidente americano tem sido mais duro do que qualquer dos antecessores na punição a quem vaza e divulga segredos de Estado e como isso causa dramático efeito na relação entre funcionários públicos e jornalistas e dificulta a coleta de informações por estes.

Leviatã vazado

“The Leaky Leviathan: Why the Government Condemns and Condones Unlawful Disclosures of Information”, artigo de David Pozen na Harvard Law Review, afirma que a administração federal americana não parece disposta a combater vazamentos porque, sem eles, a capacidade de governar ficaria ameaçada: afinal, se a informação vazada é de interesse público, por que deveria ser secreta?

Congresso no jogo

“Whose Secrets?”, de Josh Chafetz, tenta elucidar o dilema ao afirmar que “secreto” é uma categoria política; só dentro de determinado contexto é que informações podem ser consideradas secretas; para democratizar o processo, o Legislativo também deveria ser chamado para decidir a classificação de segredos de Estado. n

Uma frase

“No longo prazo, é claro: ganha receita quem chega ao consumidor.” (Tim Armstrong, CEO do America On Line, ao explicar que ainda acredita no sucesso da rede Patch de jornais digitais em pequenas comunidades, que sua empresa resolveu parar de bancar sozinha e abrir para parcerias.)

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PROTESTOS DE 2013

Quem mais agrediu a imprensa foi a polícia

>> Outra tentativa estruturada para entender a relação entre jornalismo e os protestos de 2013 ocorreu em debate do projeto Ruas em Movimento, iniciativa do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (Ippri) da Universidade Estadual Paulista, Observatório da Imprensa e Instituto CPFL | Cultura. Na reunião, jornalistas discutiram hipóteses para o fato de a imprensa ter sido surpreendida pela intensidade das manifestações. Entre elas: redução de quadros nas redações, prioridade excessiva na agenda para assuntos de políticas e economia, excessiva dependência de fontes oficiais ou rotineiras, falta de tempo para elaboração de pautas especiais, perda de contato com os cidadãos comuns. Iniciativas como estas duas são importantes para o jornalismo melhorar o seu desempenho.

>> A Associação Brasileirade Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgou em dezembro estudo importante sobre agressões sofridas por jornalistas durante os protestos de rua de 2013.

Foram pesquisados 113 casos. Em 77% deles, a violência foi deliberada, ou seja, ocorreram depois de as vítimas terem se identificado como profissionais de imprensa. Do total de ataques deliberados, 78,6% foram cometidos por policiais.

Os episódios de hostilidade física ou intimidação intencional contra repórteres de parte de manifestantes somaram 21,4% do total.

Considerou-se agressão contra jornalistas ocorrência de intimidação, violência física, tentativa de atropelamento, ataque de cães policiais, furto ou dano de equipamentos (não incluídos carros de reportagem ou sedes de empresas de comunicação) e prisão.

O estudo mostra que foram agentes do Estado os que mais tentaram inibir os jornalistas em seu trabalho por meio da força, não cidadãos que manifestavam sua insatisfação com serviços públicos na cidade, Estado ou no país.

Críticos identificaram na hostilidade de alguns manifestantes contra repórteres ou veículos de suas empresas prova de que a sociedade rejeita a atividade. O estudo da Abraji ajuda a trazer objetividade para as interpretações e indica que o maior inimigo do jornalismo ainda é o Estado.

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PRESS-RELEASE VISUAL

Obama avança o sinal para controlar a própria imagem

Os líderes de dois países antônimos, Estados Unidos e Coreia do Norte, tiveram problemas no final de 2013 por causa do controle que exercem sobre imagens visuais de suas atividades públicas.

Kim Jong Il retrocedeu quase um século ao adotar as práticas stalinistas de retocar fotos já publicadas para retirar delas aliados que caíram em desgraça: no caso, seu tio, Jang Song Taek, que foi executado e desapareceu de diversos flagrantes em que aparecia ao lado ou próximo do sobrinho.

Barack Obama, menos incisivo, tem quebrado precedentes históricos ao praticamente proibir a atuação de repórteres fotográficos em quase todas as suas atividades em locais onde seus seguranças podem mantê-los à distância ou diante de portas fechadas.

Nenhum presidente americano impôs tantas restrições ao registro de seus atos. Nem Franklin Roosevelt, cujos assessores tentavam convencer fotógrafos a nunca capturarem imagens que mostrassem a deficiência física do presidente, chegou perto disso.

Encontros de Obama com outros chefes de Estado ou com políticos na Casa Branca recebem a classificação de “privados” para manter os fotojornalistas de fora. Depois, imagens oficiais são distribuídas à imprensa.

Os principais veículos de comunicação do país têm protestado contra essa política. Mas o presidente, com um histórico muito ruim de relacionamento com a imprensa (ele abriu mais processos contra jornalistas do que todos os antecessores juntos, por exemplo), não parece se sensibilizar com isso.

Se transpuser a lógica do registro de imagens para o de palavras, Obama substituirá as entrevistas coletivas pela divulgação de suas declarações em press-releases oficiais.

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Correios no Canadá

Fim de entrega domiciliar indica tendência e afeta jornalismo

Os correios têm sofrido os efeitos da universalização da internet a ponto de torná-los quase inviáveis.

O mais recente e dramático indício do fenômeno foi o anúncio, feito em dezembro de 2013 pelo serviço postal do Canadá, de que o serviço de entrega domiciliar será extinto no país em cinco anos.

Até 2018, a correspondência canadense passará a ser entregue em caixas de correio comunitárias, a serem construídas em vizinhanças. Esta é a mais radical mudança no negócio dos correios no mundo, mas ela indica uma tendência generalizada, já que os problemas do Canada Post são similares aos de diversas empresas estatais congêneres pelo mundo.

O declínio irreversível do volume de cartas, substituídas por mensagens eletrônicas, mais os custos crescentes de salários, aposentadoria e pensão dos funcionários e ex-funcionários fazem com que as dívidas se acumulem.

O corte afeta diretamente jornais e revistas que usam o correio físico para chegar a seus assinantes. Impressos tradicionalmente pagam ao correio estatal preços menores do que o da entrega de cartas.

Para continuar a cumprir prazos com seus clientes, eles terão de usar agora serviços privados de entrega, o que afetará seus custos e piorará a sua já complicada equação de negócios.

Nos Estados Unidos, o Correio ameaçou este ano acabar com a entrega domiciliar aos sábados, mas voltou atrás após intensa pressão de jornais e revistas. A decisão canadense renova os receios dos veículos americanos de que medida similar não tardará muito nos Estados Unidos.

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Carlos Eduardo Lins da Silva é livre-docente, doutor e mestre em comunicação; foi diretor-adjunto da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico

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