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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > AGITOS URBANOS

Uma visão urbanística do ‘rolezinho’

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 18/02/2014 na edição 786

O portal G1, da Globo (30/01), anunciou o fim dos “rolezinhos”, segundo declaração do presidente da Abrasce, a associação brasileira de shopping centers:

“A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) minimizou na quinta-feira do final de janeiro (30/01) o impacto dos ‘rolezinhos’ no faturamento dos centros de compras no país e avaliou que o susto provocado pelo fenômeno acabou. ‘Tenho impressão que sim’, disse o presidente da Abrasce, Luiz Fernando Veiga, ao ser questionado se o susto e o medo já ficaram para trás. ‘O susto veio antes do medo’, afirmou. Segundo ele, se os rolezinhos continuarem acontecendo, o medo ocorrerá por não se saber no que o fenômeno pode se transformar.”

Os “rolezinhos” que tanto têm assustado consumidores e frequentadores de shopping centers trouxeram para esses mundos fora do mundo o que faltava: o inesperado. O acaso. Esses grandes espaços comerciais são privados, e foram desenhados para trazer segurança paga e tranquilidade ao ato do consumo.

O binômio condomínio fechado-shopping center foi a resposta encontrada por incorporadores imobiliários para enfrentar o problema da violência e do caos urbano nas grandes metrópoles no final do século passado. O indivíduo sai de sua casa protegida por seguranças particulares e vai direto para um centro privado igualmente vigiado e policiado. Projetado para deixar gente “indesejável” fora, esse tipo de “urbanismo de promotores de vendas” mostra agora o quão precária é a solução de isolar um espaço de seu entorno, e transformá-lo em ambiente anódino, homogeneizado e “descolado” da realidade ao redor. Os americanos chamam este tipo de “solução” para a cidade moderna de off-world. Fora do mundo, em tradução livre.

O que os rapazes e moças (nem todos das periferias) querem é o mesmo direito que os jovens da classe média: lugar para lazer e consumo. No Rio de Janeiro a coisa praticamente não existiu. A geografia da cidade ajuda o jovem carioca a encontrar lazer com facilidade. E eles chegam de longe, da baixada fluminense (a “zona leste” do Rio), depois de horas espremidos em ônibus, trens e metrô, até a região turística da cidade. Que é igualmente segregada como o resto da cidade: cada grupo da periferia ou zona norte tem seu lugar marcado nas praias do Rio de Janeiro: Flamengo e Botafogo são para o pessoal da periferia. Ou zona norte. Ipanema e Leblon misturam um pouco de tudo, mas muitos frequentadores “torcem o nariz” para a população mais pobre. Em Copacabana encontramos turistas estrangeiros e de outros estados do Brasil.

Universo apartado

Na Barra da Tijuca, as praias também espelham a segregação que encontramos em todas as outras do Rio de Janeiro. Quem quiser saber mais sobre o assunto e verificar o que eu afirmei sobre as praias do Rio dever ver o documentário do Flavia Lins e Silva e Daniella Kallmann Faixa de Areia, exibido em 2004 no canal pago GNT.

O mais interessante nisso tudo é a desconstrução da ideia que prega a construção e disseminação de centros de lazer e compras como solução para transtornos urbanos da sociedade contemporânea: eles proporcionam espaço para estacionar automóveis, ambiente limpo e com temperatura controlada. E uma população consumidora mais ou menos homogênea, que traz a todos uma falsa sensação de segurança.

Com os “rolezinhos”, a rua invadiu o shopping. A realidade aniquilou a ilusão de um universo apartado da cidade cruel e suas mazelas. Suas estruturas arquitetônicas desenhadas em luxo e grandeza para espantar os pobres não impressionam mais uma geração que conta com acesso à web, sabe mobilizar e promover eventos usando as ferramentas que vieram com o aumento do número de jovens conectados à internet.

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Sergio da Mota e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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