Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > ‘NOTÍCIAS SUPERFICIAIS’

Humorístico tailandês satiriza crise política

Por Thomas Fuller em 25/02/2014 na edição 787
Reproduzido da Folha de S.Paulo/The New York Times, 18/02/2014; intertítulo do OI

Em um de seus programas recentes, os apresentadores de Notícias Superficiais em Profundidade convidaram três dançarinas vestidas no estilo da corte real tailandesa da antiguidade para oferecer uma homenagem musical ao comandante do Exército tailandês – um gesto de apreciação pela aparente recusa dele em lançar um golpe de Estado. Rebolando ao som de uma canção que não tinha qualquer relação com o assunto, o elenco jogou beijos para a câmera e gritou: “Amamos você, chefe do Exército! Beijinho, beijinho!”

Fundado por dois tailandeses de origem parcialmente americana, Notícias Superficiais em Profundidade é um programa semanal de baixo orçamento publicado no YouTube. O programa, que está no ar há cinco anos, emprega um tipo de humor que não é comum na Tailândia – o sarcasmo acirrado.

Com a intensificação da crise, sua audiência chegou a centenas de milhares de pessoas. “Se você levar a sério tudo o que acontece na sociedade tailandesa, enlouquecerá”, disse um dos apresentadores, Winyu Wongsurawat. Ironia é algo que não falta na Tailândia. Um bilionário é louvado como defensor dos pobres. Um político envolvido em escândalos lidera um movimento de massas contra a corrupção. Manifestantes declaram que precisam impedir eleições para salvar a democracia.

Winyu fundou o programa com sua irmã, Janya Wongsurawat, a principal roteirista. Eles dizem que produzir o programa é uma espécie de terapia cômica para superar uma crise que vem destruindo amizades, rachando famílias e provocando hipertensão em um país antes conhecido pelos sorrisos suaves e pelo pendor pela conciliação.

Os manifestantes em Bancoc prometem derrubar o governo e expulsar da vida política tailandesa a primeira-ministra, Yingluck Shinawatra, e seu bilionário irmão, o ainda influente ex-premiê Thaksin Shinawatra, cujas políticas populistas o converteram em herói para muitos pobres desse país. Eles se opõem à eleição atual e estão fazendo tudo o que podem para frustrá-la. Os manifestantes impediram pessoas de votar em muitos distritos, criando confusão suficiente para atrasar o processo eleitoral por semanas ou até meses.

Tentativa de “derrubar” a democracia

Enquanto isso, a Tailândia está paralisada e o governo não funciona plenamente. Os membros do elenco de Notícias Superficiais em Profundidade dizem que são xingadores em favor da igualdade de oportunidades. O programa ironiza os manifestantes por se descreverem como “a grande massa do povo”, ao mesmo tempo em que bloqueavam eleições que sabiam que iriam perder. Zomba do hábito deles de fazer selfies a todo momento enquanto protestam.

O programa mostra Thaksin – autoexilado desde que foi deposto em um golpe militar em 2006 – como satélite que orbita o país. E faz brincadeiras constantes com as guerras de cores do país. Os partidários de Thaksin são conhecidos como os camisas vermelhas, e o movimento para afastá-lo foi liderado pelos chamados camisas amarelas. Para deixar claro que não toma partido, Winyu certa vez fez uma entrevista sem camisa. “Não temos a intenção de ser levados a sério”, disse. “Somos palhaços, nada mais.” No entanto, por baixo da sátira e do sarcasmo constantes percebem-se fortes doses de crítica social e aulas de civismo.

Filhos de um cientista político que conheceu sua mulher, também professora universitária, quando estudava nos EUA, Winyu e Janya não têm medo de encarar temas potencialmente entediantes. Em novembro, a Corte Constitucional tailandesa afirmou que uma emenda que transformaria o Senado de organismo parcialmente eleito em um plenamente eleito era uma tentativa de “derrubar” a democracia. Naquela semana, o programa mergulhou numa aula sobre a separação dos poderes entre o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. Nattapong Tiendee, outro apresentador do programa, disse que Notícias Superficiais tem uma mensagem a transmitir. “Mas precisa transmiti-la de uma maneira leve.”

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Thomas Fuller, do New York Times

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