Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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O choque social e os impactos da violência urbana

Por Reinaldo Cabral em 25/02/2014 na edição 787

Os impactos sociais gerados pela onda de violência urbana desencadeada por múltiplos interesses políticos que agora parecem convergir para a desestabilização do processo democrático estão provocando as mais diferentes reações no Brasil. Elas vão desde o temor pela volta da repressão aos movimentos sociais organizados até a pura, irresponsável e ingênua especulação de que a ditadura deve voltar como forma de controlar a baderna. É nesse contexto que se indaga: até onde a violência pode ser inserida na sociedade brasileira, se ela, ao longo da história, nunca esteve inserida com o um elemento-chave na sua formação cultural?

Os golpes e contragolpes políticos registrados nos últimos 100 anos não fazem parte de uma condição antropológica, de fundamentos religiosos ou raciais capazes de caracterizar a formação social do país. O antropólogo Roberto da Matta costuma lembrar que cultura é um conjunto de regras que podem e devem nos ajudar a classificar a sociedade.

A introdução na segunda-feira (17/2) de uma série de regras pelo Ministério da Justiça para garantir a realização de manifestações populares sem violência abre uma temporada de legitimação dos protestos, uma janela através da qual o Brasil ingressa, a muito custo, na maioridade política, apesar dos agouros dos apressados em que esses protestos têm dia certo para acabar, ou seja, quando a ditadura retornar.

A pobreza da criatividade

É nesse contexto que à mídia, especialmente a grande mídia, é reservado um papel fundamental ao invés de ficar estimulando, irresponsavelmente, golpes ou contragolpes militares via cobertura de ações obtusas de determinados agentes da direita radical. Esclarecer, não confundir a opinião pública. Declarar-se ou não a favor das liberdades democráticas. E, a partir daí, vislumbrar seus verdadeiros e não pontuais leitores.

Pode-se dizer tudo da imprensa norte-americana, menos que ela despreza o ponto de vista dos seus leitores. Um hábito que vem desde sua fundação norteia seu comportamento: sempre perto das eleições, a grande mídia dos EUA abre o jogo perante seus leitores ao revelar o nome dos seus candidatos e evitar, assim, o engodo político eleitoral. Sustentar teses políticas abertamente nunca foi a praia da nossa mídia. Contudo, já que estamos saindo de uma encruzilhada, não deveria ser permitido o simples jogo de palavras, embora esse seja nosso campo de trabalho. Engrandeceria nossa mídia abrir seu leque de propostas submersas como o próprio governo finalmente projeta nesse mesmo ambiente seu novo modo de ver, encarar os novos ritmos e caminhos a serem trilhados pela sociedade.

Quem se der ao trabalho de apreciar detalhadamente um clássico da sociologia brasileira – Casa grande & Senzala, de Gilberto Freire – não encontrará nenhum traço de mascarados nas manifestações populares ali registradas. Esconder o rosto para provocar danos ao patrimônio tem sido, no mínimo, uma tática medíocre, de quem não se assume. E quem não se assume não pode representar nenhuma causa: se anarquistas, anulam-se no momento da contestação. E se a produção de danos ao patrimônio é a radicalização de Macunaíma, afunda-se na pobreza da criatividade. Pois o traço da destruição não personifica artisticamente o ato, sua característica estética é o lixo – e desse a população está exausta.

Cair na real

Pressionado pela mídia e pelos colegas de profissão de Santiago Andrade, o governo abandona o casulo, onde parecia esconder-se, e cria regras necessárias à assimilação de traços para a nova cultura brasileira.

A monarquia fez isso na Inglaterra desde a primeira grande guerra mundial em 1917, a partir de quando as liberdades de expressão são permitidas numa praça pública determinada, onde, em cima de um banco, com os pés fora do chão, qualquer pessoa pode dizer o que bem quiser, até falar mal da rainha.

O Brasil pode e deve cair na real: numa sociedade sem regras nem as igrejas escapam, muito menos as famílias que são as células por onde tudo começa.

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Reinaldo Cabral é jornalista e escritor

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