Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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FEITOS & DESFEITAS > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

O final errado

Por José Hamilton Ribeiro em 25/02/2014 na edição 787
Reproduzido do suplemento “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo, 23/2/2014

As imperfeições absolutamente certas de Eduardo Coutinho

No filme “Edifício Master” (2002), Eduardo Coutinho, sentado numa cadeira, entrevista moradores de um prédio classe média baixa de Copacabana. Pessoas comuns, histórias comuns. Começa e termina com gente contando sua “vidinha mais ou menos”, aí já mostrando o propósito do diretor –”cada vida dá um livro”, ou “nada é mais importante para uma pessoa que sua própria história”, ou “o espetáculo do homem é mesmo o homem”.

O filme vai mostrando as entrevistas, mas uma delas, no terço final, indica –para um observador comum– que ali está o fim. Um personagem forte conta quanto sabia da história de Frank Sinatra (a quem até tinha visto de perto) e termina imitando o cantor em “My Way”. Empolga-se à medida que canta, seu rosto fica vermelho do esforço, e nos acordes finais, diz, abrindo os braços, no último fôlego: “Fim!”.

É, mas o filme não termina aí. Passa o personagem do “My Way”, vêm outras “entrevistas comuns” e “Edifício Master” morre como se tivesse acabado o tempo do filme.

– Coutinho, o homem do “My Way” não era naturalmente –e gloriosamente– o final do “Edifício Master”?

– Você não é a primeira pessoa a me dizer isso…

Metralhadora

Coutinho falava rápido. Não falava, metralhava as palavras, aparentemente sem pensar nas respostas, como se já soubesse as perguntas. Tinha dificuldade em palavras com dois erres. Assim, dizia em espanhol “muer”, em vez de “murrer” (“mujer”); “esfia”, em vez de “esfirra”.

Era um querido amigo; puro, bom, solidário, leal, honrado. Nos conhecemos como jovens jornalistas em São Paulo na segunda metade da década de 1950; ele na revista “Visão”, eu, na Folha.

Uma circunstância muito nos aproximou: seus pais eram separados, e ele ficara do lado da mãe, dona Carolina, que se unira a um jornalista, Aristides Lobo, também da Folha. Aristides era um comunista histórico, passível de ser preso a qualquer hora. E eu gostava muito dele. Quando me levou num domingo para almoçar em sua casa, dei ali com Eduardo Coutinho e ficamos ainda mais próximos.

Todos nós torcíamos por sua atuação num programa de TV, “Absolutamente Certo!”, uma espécie de gincana intelectual em que a pessoa respondia sobre um tema de sua escolha. Coutinho escolhera Chaplin e, aflito como era, não esperava o locutor terminar a pergunta, já emendava a resposta –certa, “absolutamente certa”.

Entrara no programa com objetivo declarado de continuar até que conseguisse dinheiro para ficar dois anos em Paris estudando no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos.

Quando alcançou o dinheiro que queria (nem era muito, Coutinho sempre foi modesto e frugal), saiu do programa, deixando em todos a impressão de que, se quisesse, poderia ficar ali até ganhar uma bolada. Era quase impossível formular uma questão sobre Chaplin cuja resposta ele não soubesse.

Isso era em 1957 e, nesse ano, o destino nos uniu mais ainda: fomos os dois ao Festival da Juventude Comunista, em Moscou. Depois de um mês na União Soviética, um convite para outro mês em Praga, mais um em Berlim (do lado comunista, quanta mordomia!) e um tempo na França (já a essa altura comendo sanduíche). Ficamos quase seis meses juntos no exterior.

O filme “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, estava rodando o mundo com tanto sucesso que as pessoas que a gente conhecia no “mundo comunista” nos chamavam –ao Coutinho e a mim– de cangaceiros. Coutinho era o “Cangaceiro chico” e eu, um pouco mais alto, o “Cangaceiro grande”.

Voltei para o Brasil, ele ficou na França para passar seus dois anos no “Institut” de cinema. Nos reencontramos nos anos 1980, na TV Globo. Ao lado de Washington Novaes, Coutinho era mestre na edição do “Globo Repórter”, e ambos eram escalados para ajudar eventuais repórteres novos por lá –como era o meu caso.

Nesse tempo, ele já estava com “Cabra Marcado para Morrer” na cabeça; só faltava a decisão de deixar o emprego e ir atrás do dinheiro –coisa para a qual ele era praticamente inábil.

– Coutinho, você está com uma obra-prima na mão!

– Tá mais é pra matéria-prima…

À medida que fazia filmes, expunha –metralhava– suas ideias: “Filme militante é uma tragédia porque já está escrito antes” (numa conversa com Zuenir Ventura).

Sobre seus filmes serem toscos, sem acabamento: “A pureza e a perfeição são fascistas”. “Então meus filmes são pela vida, porque a vida será sempre imperfeita. A perfeição é a morte” (conforme citado pela antropóloga Debora Diniz em entrevista a Mônica Manir, no caderno “Aliás”, de “O Estado de S. Paulo”).

Enquanto a agenda não ficou carregada por sua nova condição de celebridade, toda vez que vinha a São Paulo me ligava e a gente se via. Na estreia de um de seus filmes, na sala de cinema da livraria Cultura, na avenida Paulista, comentei com ele:

– Quem poderia pensar que você, que precisou ganhar dinheiro para estudar cinema se exibindo na televisão, iria ser o cineasta tão premiado de hoje?

– Se é por prêmio, você deve ter a resposta: volta e meia vejo notícia que você ganhou prêmio de jornalista…

– Seja por você ou por mim, o que explica tanto prêmio?

– Acho que estamos durando muito…

Coutinho era um pouco mais velho que eu. O fato de comer de maneira irregular –gostava mais de croquete e “esfia” que de comida– e de viver sempre com um cigarro na boca parece que cobrou caro de sua saúde, seu rosto, sua postura. Tinha hora que parecia transparente. Fernanda Torres via nele a magreza do santo.

Eu estava preparado para a notícia: “Coutinho morreu!”. Mas não do jeito que foi…

Errou o final?

O assunto da última cena do “Edifício Master” tinha surgido na conversa porque eu contara a ele que um grupo de jornalistas da Globo, numa roda de corredor, tinha discutido o filme. Um dos colegas, versado em cinema, arguto e agudo, dizia que o homem do “My Way” era obviamente o encerramento, tanto que as entrevistas que vêm depois nada acrescentam. Seria um final grandioso.

– Como disse, você não é a primeira pessoa a me dizer isso…

Metralhou as palavras no “ritmo Coutinho”; eu, sem gravador, registrei mais ou menos isso:

– Se terminasse com o personagem do “My Way”, seria um final de melodrama. O filme não era uma escada para o “My Way”, não era escada para ninguém. Cada história vale por si. Cada vida vale por si.

O tiroteio continuou por mais algumas frases que agora não tenho como confirmar. Na dúvida sobre o final do filme, Coutinho talvez tivesse razão. Não seria novidade.

******

José Hamilton Ribeiro, 78, jornalista ganhador de sete prêmios Esso, é repórter especial do Globo Rural (TV Globo) e autor de O Gosto da Guerra (Objetiva)

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