Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

Outra versão, 40 anos depois

Por André Pereira em 25/02/2014 na edição 787

Estudantes forçados a reflexionar sobre a rasura do mercado jornalístico, profissionais ainda encantados com o imaginário romântico inspirado pela entidade passadista e veteranos que conviveram os episódios ainda se indagam, 40 anos ultrapassados: a Coojornal teria sobrevivido ao impacto eleitoral que determinou o rompimento interno e a saída de suas hostes de boa parte do núcleo da reportagem e da fotografia? Teria ela mais alguns gordos anos de sobrevida se os jovens contestadores de então assumissem a condução da empresa gerida por jornalistas, sabidamente avessos aos meandros da gestão?

Para os que prosseguiram na direção com a árdua missão de administrar a famosa Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, até a penosa agonia final imposta aos mais de 300 sócios e compartilhada com os colegas fiadores da locação imobiliária de dois prédios, defensores da versão conveniente de que a ditadura exacerbada daqueles idos é a culpada maior pelo fim da Coojornal, certamente a resposta é não.

Argumentam que, ao impor a censura jornalística de coturnos e mostrar as garras de condor para assustados anunciantes que deixaram de investir em peças publicitárias na publicação, o arbítrio asfixiou­lhe mortal e irremediavelmente o fôlego financeiro. Ademais, os afoitos cabeludos e as meninas de bata da oposição certamente não estavam amadurecidos o suficiente para dirigir a Coojornal com a visão empresarial que se exigia. Então, interrogam tão prosaicamente: de que adiantaria uma diretoria com postura divergente frente a este contexto externo violentamente avassalador?

Sob ditadura

É possível que se concorde com este diagnóstico por conta da interpretação recorrente mais conhecida e firmada, como sempre, pelos vitoriosos. E que tem sido, amiúde e à exaustão, disseminada até por graduados de jornalismo, com a conivência descomprometida com a história da imprensa de mestres e doutores em comunicação.

Mas se, afinal, no âmbito da especulação cabem assertivas e negativas ao gosto do freguês, pode­se estabelecer a hipótese de uma opinião bem oposta: a da visão ignorada dos derrotadas nas urnas de antanho. Com o crédito de ter sido um dos primeiros repórteres associados a integrar o dia-a-dia executivo da instituição antes da existência do próprio mensário, vos digo: animem­se, a Coojornal teria sobrevivido com destino diferente se aquele pioneiro grupo histórico, de espírito idealista e de vigorosa juvenilidade permanecesse, portando­se fiel à doutrina cooperativista que inspirara o grupo fundador em 1974.

Teriam, por óbvio, que ajustá­la à prática de uma gestão viável no mercado capitalista em que se inseria, mas não precisariam abdicar do cotidiano que três dezenas de nós, cumpridores de expediente diário alongado, incorporamos ao nosso estilo de vida, a nossa própria jornada existencial. Era uma doce época em tempos bicudos de trindade lenora e paixões marinas (se é que me entendem) de resistência cívica, dos almoços caseiros preparados por dona Leocádia, dos romances adúlteros que saíram dos lençóis para casamentos com prole, das mudanças radicais de vocações profissionais, dos bailecos com chope na sala maior da casa alugada na rua Comendador Coruja? das efervescentes reuniões contumazes de pauta em que tonitruava uma escritora em busca de recorde no Guinness sem contudo interromper o dormitar de um chargista? das cenas habituais que sequer apareceram naquele vídeo promocional com deboches de protagonistas alienígenas que acompanha a competente coletânea de reportagens Coojornal, um jornal de jornalistas sob o regime militar, organizada pelo Rafa Guimaraens, Elmar Bones e Ayrton Centeno, com arte da Clô Barcellos, da editora Libretos.

A pergunta não tem nem terá resposta definitiva

De fato, não estava em nosso horizonte administrativo, assentado em auditoria externa que nossa chapa propugnava, a aventura do lançamento do semanário O Rio Grande nem a megalomania da aquisição de uma gráfica própria que resultaram em frustração financeira impondo o fracasso econômico derradeiro. Não bastou a chamada à razão interposta na histórica Assembleia Extraordinária em que a situação venceu a eleição graças em boa parte aos votos por procuração, enviados por correio de outros estados por associados mal informados sobre a situação cá nos pagos.

A esta morte anunciada ali (O Rio Grande durou apenas 27 edições) contrapomos um planejamento modesto com limiar econômico ortodoxo, conservador até – logo nós, os mais inexperientes, os socialistas pré­PT, como alguns anos depois nos cunharam, simpáticos brittistas. Nosso programa de governo rejeitava arroubos de grandiloquência e ignorava a criação de novos veículos? ao contrário, apostava na fortalecimento da produção para terceiros como base para investir na principal publicação mensal, isto é, reforçando a edição do Coojornal.

Propúnhamos, também e sobretudo, uma gestão com igualdade participativa e democracia interna, valores teóricos que a Coojornal defendia nas páginas do mensário mas repórteres e fotógrafos só acompanhávamos na prática de algumas cooperativas de produção no interior do estado, que cobríamos com contagiante regularidade para a inovadora revista Agricultura & Cooperativismo, que editávamos para a Federação das Cooperativas de Trigo e Soja, a então poderosa Fecotrigo.

Não duvidávamos que participação igualitária animaria o grupo e convocaria novos adeptos na cruzada da imprensa contribuindo para o fim do regime – o inimigo palpável de todos nós ­que já durava mais de uma década. Por esta projeção sonhadora de equilíbrio nas finanças e convivência harmoniosa entre almas diferentes, seríamos todos felizes no final, como sói acontecer em novelas platinadas e em filmes oscarizados. Entretanto, em nome da sobriedade existencial e do rigor profissional que repele teses sem comprovação possível, só me resta acatar a férrea realidade e concordar que a pergunta, passadas quatro décadas, não tem e jamais terá uma resposta definitiva.

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André Pereira é jornalista e participou da fase histórica da Coojornal, de 1974 a 1978

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