Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > CAÇANDO BURACOS

Notas contra a barbárie

Por Victor Toscano em 25/03/2014 na edição 791
Reproduzido do Jornalirismo, 19/3/2014; intertítulo do OI

Imagino que os dias de uns tantos brasileiros podem ser resumidos desta forma: caçar buracos. É assim para mim. A cada novo assassinato cometido pela PM, a cada novo linchamento popular, comentário machista ou racista entendido como direito de expressão, a cada desocupação brutal de moradias, chacina de índios, sem-teto, pobres, mulheres, a cada inauguração de loja de grife alardeada por portais de notícias e conhecidos de internet, a cada nova edição do Jornal Nacional, do Fantástico, do Bom Dia Brasil, a cada palavra ofensiva que obrigatoriamente se escuta na rua rotineiramente, a cada ataque homofóbico, pregação religiosa, marcha da família com deus pela liberdade, a cada vez que escuto pedirem o retorno dos militares, a cada vez que eu me pego numa conversa que acabou de ficar deveras surreal porque as pessoas ali têm opiniões apaixonadamente conservadoras sobre tudo, procuro o buraco mais próximo onde possa desaparecer e ruminar uma vergonha sem medida do meu país.

Acabei me transformando num exímio caçador de buracos. Passo muitos dos meus dias neles, no escuro. E não passamos todos? Se você é um pouco como eu, talvez pense que possa existir um caminho de combate por meio da educação. Não falo de educação institucionalizada – apenas de manter viva qualquer coisa do espírito iluminista, compreensivo. E se você for mesmo um pouco parecido comigo também, já terá descoberto que o brasileiro gosta de defender a educação; a educação nas escolas, faculdades e cursos técnicos, mas que, curiosamente, possui verdadeira aversão à cultura. É na verdade uma das coisas que mais me faz sair correndo em disparada para dentro do buraco mais próximo: o fato de o brasileiro estar mais interessado em arranjar um diploma (qualquer que seja, não importa) para conseguir arrumar um trabalho (qualquer que seja, não importa) para poder comprar coisas (quaisquer que sejam, não importa).

Cinema? Claro, pipoca e dois litros de coca, vamo que o filme é hilário. Teatro? Ótimo para ver o Falabella e dar umas risadas. Museu? Ih, coisa de velho, vê se eu vou ficar olhando para umas coisas idiotas que até uma criança sabe pintar! Ler? Ah, cê tá de brincadeira! Olha o sol lá fora, vamo viver, cara, não tenho tempo a perder! Música? Eu adoro o… Bom, você já entendeu.

Vulgaridade e barbárie

Parece haver duas vertentes muito presentes no pensamento brasileiro médio em operação todos os dias: o autoritarismo e o anti-intelectualismo. Não sei em que medida um se dá e reina pleno pela competente execução do outro. Não consigo entender por que tanta gente é tão rápida em descartar a experiência artística de sua vida por considerá-la inútil. O próprio uso do conceito de utilidade no mundo parece ter atingido um grau de perversão sufocante, que encontra pasto livre e amplo no Brasil.

Esforçar-se na contemplação de um quadro de Edward Hopper, por exemplo, pode suscitar questões importantes sobre o tempo em que vivemos, solidão e desconexão (a despeito do que podem dizer por aí). A leitura de Madame Bovary talvez te faça refletir sobre se vale a pena viver em função de ideias de consumo, romance, aventura escolhidas para você, ou se isso na verdade não nos leva a uma espiral inescapável de frustração. Um filme como Azul É a Cor Mais Quente pode fazer com que você chegue à conclusão de que não é preciso encadear tipos certos de afeto com gênero, que a expressão do afeto, como acontece na própria arte, se dará sempre de forma distinta e única. Uma peça de Samuel Beckett pode fazer com que sua necessidade de narrativa entre em curto-circuito e você veja que a própria vida apenas apresenta uma ideia de narrativa, com acontecimentos e pessoas. Enfim, a experiência da arte e cultura sempre me pareceu o resguardo mais eficiente contra a barbárie.

Tristemente, o discurso da experiência artística e intelectual parece estar proibido na rotina do brasileiro. O policiamento é exercido por meio de palavras, como prepotente, metido, elitista etc. Isso faz com que as pessoas aceitem de forma natural forças irrefletidas, faz com que aceitem, em suma, a força. A força policial, religiosa, do Estado, corporativa, familiar; faz com que se enfraqueça ao ponto de tornar doente a possibilidade de questionar o autoritarismo. E essa proibição silenciosa do discurso intelectual faz com que muita gente tenha de se meter a caçar buracos para se esconder de tanta vulgaridade e barbárie. Meu país pende cada vez mais aceleradamente para o lado feio. Onde está o buraco mais próximo?

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Victor Toscano é jornalista e professor

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