Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / CLAUDIUS CECCON

‘A essência do meu trabalho é a natureza política’

Por Alvaro Costa e Silva em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 4/5/2014; título original “Colega de ‘O Pasquim’ tem mostra em SP”

A figura do gaúcho Claudius Sylvius Petrus Ceccon lembra o Dom Quixote imortalizado nas gravuras de Gustave Doré: alto, de barbicha, mas não tão magro hoje, aos 76 anos.

Sua visão de mundo, profundamente política e divertida, está contada na retrospectiva “Claudius, Quixote do Humor”, a ser inaugurada na quinta-feira [8/5] no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. Multimídia e interativa, a mostra reúne cerca de 300 desenhos que marcam sua trajetória de cartunista profissional, iniciada no Jornal do Brasil.

Como Fortuna, ele foi um dos fundadores do semanário O Pasquim. Hoje colaborador regular da “Ilustríssima”, Claudius – cujo estilo se inscreve na tradição de Saul Steinberg (1914-99), passando pela influência do amigo Millôr Fernandes (1923-2012) – já teve seus desenhos publicados, além de na Folha, nos jornais Diário Carioca e Correio da Manhã e nas revistas O Cruzeiro e Pif-Paf, entre outros periódicos.

Você consegue encontrar um traço comum na sua trajetória?

Claudius Ceccon – Acho que a essência do meu trabalho é a natureza política, presente até nos cartuns cuja aparente finalidade é apenas fazer rir. É muita pretensão minha. Vã pretensão, mas não tem jeito. Vem de longe, de uma formação religiosa, de um aprendizado político um tanto errático e da convicção de que tenho uma enorme responsabilidade social por meio do que faço. Sinto que é apenas uma pobre retribuição aos meus semelhantes pelo dom que me foi concedido graciosa e imerecidamente.

Por essa natureza sua, o golpe militar de há 50 anos está na mostra…

C.C. – A exposição se organiza tematicamente, e o golpe, a ditadura, a repressão, a tortura e a anistia tinham de estar. Mostramos quão ridícula é uma ditadura militar, mas seria preciso contextualizar cada imagem. É difícil entender como foi possível, suspensos todos os direitos constitucionais, com a censura nas Redações, criar e circular nacionalmente um jornal como O Pasquim. A resistência tem muitos heróis anônimos Brasil afora. Espero que os visitantes recebam as mensagens enviadas na época com a cumplicidade de então.

Por que o Quixote?

C.C. – Fiquei fascinado pelo personagem desde que o conheci lendo Monteiro Lobato e o Tesouro da Juventude, e o tenho utilizado de muitas maneiras em meu trabalho. Um dos desenhos de que mais gosto é o do Quixote empunhando uma pena (meu instrumento de trabalho) em lugar da lança, e enfrentando o moinho, cujas pás são as lâminas de uma tesoura, a tesoura da censura, que veladamente continua a existir, aqui e ali.

Você consegue pinçar um desenho e uma frase que definam a mostra?

C.C. – Não. Mas poderia ser um que mostra pai e filho, no alto de um edifício, olhando um enorme congestionamento e o pai diz: “Nunca mais conseguiram desfazer o Grande Engarrafamento de 1962.” Nem lembro se era 1962, mas é profético. Ou melhor: imaginativo. Outro seria o da cidade estrangulada pelas vias que conduzem carros até ela, ilustração para seminários que o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) promoveu recentemente sobre reforma urbana.

Como você analisa a qualidade e o alcance da charge hoje no Brasil?

C.C. – Acho que a Folha tem um belíssimo time atuando na página A2 e nas tiras. Nem preciso citar nomes, eles são todos ótimos. Poucos jornais fazem esse investimento de qualidade. No Globo, há anos, o Chico [Caruso] faz uma charge diária, identificada com sua linha editorial. Talvez meu desejo seja impossível de realizar: ser como um ombudsman, podendo criticar em charges o próprio jornal que publica o meu trabalho.

Como arquiteto, como você observa as mudanças urbanísticas pelas quais passa o Rio, onde mora?

C.C. – As empreiteiras tomaram conta do pedaço: estão planejando o Rio ao seu bel-prazer e pelo lucro. Resultado claro do financiamento privado das campanhas eleitorais. Decisões são tomadas de improviso, sem qualquer consulta aos atingidos pelas propostas e sem respeitar pareceres contrários de órgãos de classe como o IAB ou o Clube de Engenharia. Em nome de uma falsa (e bota falsa nisso) eficiência, projetos incompletos são iniciados a toque de caixa, fazendo com que os custos se multipliquem descontroladamente. Isso para a Copa do Mundo e a Olimpíada.

Os planos de incorporação das favelas ao tecido urbano, por sua vez, uma bela ideia do programa Morar Carioca, complementar às UPPs sociais, depois de dois anos de preparação e da escolha, por concurso, de 40 escritórios de arquitetura para planejar 240 áreas selecionadas, simplesmente foi engavetado pelo prefeito do Rio de Janeiro. E o programa Minha Casa, Minha Vida? Está repetindo os piores erros cometidos pelo BNH [Banco Nacional da Habitação] durante a ditadura. As habitações que estão sendo feitas são simplesmente horrendas.

Não admira que as manifestações de junho tivessem a prefeitura como ponto de chegada e o cerco à casa do governador como ponto de encontro: o povo não é bobo, a opinião pública os vê como responsáveis pelo caos no Rio. Dizer que o planejamento urbano deve ser democrático não é uma frase de efeito. A democracia deve refletir-se no modo como é organizado o tecido urbano.

Além de cartunista, você tem um trabalho que relaciona desenho e educação. Conte sobre ele.

C.C. – Essa relação tem sido explicitada no Centro de Criação de Imagem Popular (Cecip), uma ONG que produz materiais educativos da qual sou diretor. Comunicação, educação e humor formam uma unidade. Os vídeos são divertidos, as publicações são cheias de humor sem deixar de ser precisas, factual e cientificamente falando. A relação desenho e educação vai mal, obrigado. Desenha-se cada vez menos nas escolas e esse problema vem de longe. Lembro que no Colégio Andrews, no Rio, quando eu tinha 13 anos, tive um professor de desenho que me desestimulava, com críticas ácidas. Acontece que, em minha casa, todos – meus pais, meus dois irmãos e eu – tínhamos no desenho uma atividade lúdica, absolutamente normal, o que me ajudou a resistir às críticas e continuar, teimosamente, a desenhar. Mas quantos terão desistido por causa dele? Espero que essa exposição estimule muitas crianças, jovens e pessoas de todas as idades a desenhar, por puro prazer, sem outro compromisso que o de se divertir.

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Alvaro Costa e Silva é jornalista

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