Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

O testamento de Eisner

Por Jotabê Medeiros em 06/05/2014 na edição 797
Vida, em quadrinhos, de Will Eisner; tradução: Rene Ferri, Editora Criativo (500 págs., R$ 99,00); reproduzido do Estado de S.Paulo, 4/5/2014; intertítulo do OI

Quase toda a obra de Will Eisner (1917-2005) era autobiográfica, mesmo quando não era. Porque sua narrativa gráfica se valia de um acervo prodigioso da memória, de sua infância pobre no Bronx à depressão econômica, depois às atribulações da Segunda Guerra Mundial e, finalmente, à dificuldade de se afirmar como um artista de “subcultura”, um meio popular cercado pelo preconceito.

Ou seja: mesmo quando ele parecia não perceber, falava de si mesmo – mas numa perspectiva de humanismo universal, o que o tornou um dos maiores autores de sua época. Assim, o volume póstumo Life, in Pictures (Vida, em Quadrinhos), um calhamaço de gráfico de quase 500 páginas que a Criativo Editora está lançando neste momento no Brasil, não careceria do selo que leva logo na capa, Histórias Autobiográficas.

Todo o resto, no entanto, é perfeitamente justificável e lógico: a escolha cronológica (póstuma) das histórias que formam uma linha vital da experiência de Eisner no planeta foi feita pelo cartunista e editor Denis Kitchen – e ninguém seria mais habilitado no mundo. Kitchen foi o fundador da Kitchen Sink Press (1969-1999), editora que publicou mestres como Al Capp, HarveyKurtzman, Crumb e Eisner.

“Aqui, com memória seletiva, fato e ficção se misturam, resultando em uma realidade especial. Acabei confiando na veracidade da memória intuitiva”, escreveu Eisner na introdução de Ao Coração da Tempestade.

O livrão compila histórias que tratam do aprendizado, das desventuras e da vida de Eisner em volumes já publicados, como o citado Ao Coração da Tempestade, O Sonhador, O Nome do Jogo, Nova York – A Grande Cidade, entre outros. Também apresenta, ao final, um espetacular sketchbook e uma história em quatro páginas, O Dia em Que me Tornei Um Profissional, inédita aqui no Brasil, que é uma espécie de haicai gráfico da saga de Eisner.

Nessa história, O Dia em Que Me Tornei Um Profissional, Eisner se arruma todo para tentar mostrar seus originais para um prestigioso executivo, o diretor de arte da Young American Magazine. Senta-se na sala de espera ao lado de um homem de roupas mais simples, mais velho. Ele está impecável em seu novo terno. A secretária o manda entrar.

Mais para Proust do que para Crumb

“A história é horrível”, diz o diretor de arte. “Não publicamos lixo.” Quando o artista sai da sala, totalmente arrasado, recolhendo o casaco e seus próprios cacos, o homem que esperava para entrar depois dele lhe diz: “Há uma passagem no Talmude que diz: ‘Se não pode vender sua mercadoria nesta cidade, vá a outra’.” O homem era Ludwig Bemelmans (1898- 1962), famoso autor e ilustrador de livros infantis.

Os dois textos que abrem o livro, um de Scott McCloud e o outro de Denis Kitchen, valem o volume. “Eisner, assim como os gigantes do cinema, do romance e do teatro, se recusava a acreditar no mito do destino manifesto; aquela suposição confortante, porém ilusória, de que as convenções da narrativa popular de nossos dias são apenas fruto inevitável da época, lugar e ferramentas do mercado. Ele sabia que as vidas das formas de arte não são traçadas pelo destino, mas sim pelos caminhos arbitrários de indivíduos criativos”, escreveu o ensaísta e crítico Scott McCloud, autor de Reinventing Comics e Understanding Comics, entre muitos outros.

Denis Kitchen, que faz anotações sobre personagens que aparecem nas histórias e são na verdade pessoas reais (como o criador do Batman, Bob Kane), faz uma revelação importante no seu texto introdutório.

“Esta compilação, o último dos três livros de capa dura da Biblioteca Will Eisner, foca na porção autobiográfica de seus romances gráficos, apesar de não representar a íntegra desse tipo de trabalho. Alguns elementos da trilogia Um Contrato com Deus são autobiográficos também. Eisner se inspirou em experiências pessoais em muitas de suas histórias, mas evitou autobiografia pura por muito tempo. Cartunistas amadores – meio desenhistas e meio escritores – não apreciam as duradouras tradições como seus primos da literatura. E até Eisner, inovador vitalício e pioneiro do gênero de romances gráficos na última fase de sua longa carreira, seria influenciado, como ele mesmo reconhecia, por uma geração mais jovem de cartunistas underground.” Entre eles, Justin Green e o papa da contracultura, Robert Crumb.

O biógrafo de Eisner, o escritor americano Michael Schumacher, disse ao Estado no ano passado que Eisner, ao morrer, estava se aventurando numa novíssima e interessante direção ao fazer a graphic novel Os Protocolos dos Sábios do Sião. “Até então, fizera histórias de ficção, embora baseadas em memórias, coisas biográficas. E agora estava investigando uma nova área, a não ficção. Não sei o que ele escolheria fazer hoje, e fico fascinado em imaginar.”

Há alguns anos, Eisner, ao ser convidado para ilustrar uma graphic novel sobre a vida do guitarrista Jimi Hendrix, abriu mão do convite com a seguinte justificativa: “Eu estou muito mais para Glenn Miller do que para Jimi Hendrix.” Com essa compilação de suas histórias autobiográficas, fica claro que Eisner está muito mais para Marcel Proust do que para Robert Crumb.

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Jotabê Medeiros, do Estado de S.Paulo

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