Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > SOMOS TODOS MACACOS

Viva a banana!

Por Kenneth Maxwell em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 1/5/2014, tradução de Paulo Migliacci; intertítulo do OI

Daniel Alves, o lateral direito brasileiro que joga pelo Barcelona FC, causou um terremoto no domingo passado (27/4) ao pegar, descascar e comer uma banana jogada nele como insulto racista durante um jogo do campeonato espanhol no estádio El Madrigal, contra o Villarreal, na cidade espanhola homônima. Logo depois desse episódio lamentável, o Barcelona virou o jogo aos 37 minutos do segundo tempo, quando o atacante argentino Lionel Messi marcou o gol que deu a vitória por 3 a 2 à equipe catalã. Foi o resultado perfeito.

O gesto de Daniel Alves se tornou um viral na internet. Neymar Jr., seu colega brasileiro de equipe, postou uma foto no Instagram que o mostrava ao lado do filhinho Davi Lucca. Neymar tinha uma banana descascada nas mãos. Davi Lucca tinha um brinquedo em forma de banana descascada, quase de seu tamanho. Neymar tem 10,4 milhões de seguidores no Twitter e 4,6 milhões no Instagram. A assinatura da foto (em português, inglês, espanhol e catalão) dizia “Somos todos macacos, somos todos iguais. Diga não ao racismo!”

Símbolo da Copa

A banana é, de fato, uma escolha inspirada para qualquer brasileiro. Jamais esquecerei da minha primeira visita a uma feira livre brasileira em Copacabana. Quando criança, acostumei-me a comer as bananas nada saborosas que eram importadas das colônias britânicas no Caribe pela Inglaterra do pós-guerra. Fiquei atônito ao descobrir as bananas brasileiras, que me pareciam infinitamente variadas em tamanho, cor, forma e espécie, e todas incomparavelmente saborosas.

Não há dúvida de que existe racismo também no Brasil. Adilson José Moreira, um brilhante e jovem acadêmico de Minas Gerais, que é negro, acaba de concluir seu doutorado na escola de direito da Universidade Harvard, e agora leciona na Fundação Getulio Vargas em São Paulo. Sua tese é uma história devastadora da persistência do racismo brasileiro e de suas manifestações nas práticas judiciais do país. O tuíte de Neymar foi planejado por uma agência de publicidade. Mas, e daí? A reação de Daniel Alves a um insulto racista e a esperteza de Neymar nas mídias sociais já receberam apoio de músicos, de artistas de TV e de outros jogadores de futebol, como os brasileiros Oscar, David Luiz e Willian, do Chelsea (Inglaterra), do italiano Mario Balotelli, do Milan FC, bem como do primeiro-ministro de seu país, Matteo Renzi, e foram vistas por dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo.

E isso é uma boa notícia. Viva Daniel Alves! Viva Neymar! Viva a banana! De fato, o Brasil deveria adotar a banana como símbolo informal da Copa do Mundo deste ano.

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Kenneth Maxwell é colunista da Folha de S.Paulo

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