Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > TEMPOS MODERNOS

Comte de cabelos em riste

Por Melissa Bergonsi em 13/05/2014 na edição 798
Reproduzido do objETHOS, 12/5/2014

Quando Auguste Comte trouxe a experiência das ciências naturais para as sociais, fundando a doutrina positivista, mal sabia ele que estaria ajudando a definir os pilares estruturais do jornalismo moderno. Apuração, hierarquização, ordem, comprovação, dados, checagem, pesquisa, são termos característicos do positivismo comtiano e que fundam no jornalismo aspectos essenciais que garantem o ideal do “dizer a verdade” e, por consequência, a credibilidade que legitimou a profissão como função social.

Como afirma Medina (2008), a herança positivista se encontra “poderosamente operante” no fazer jornalismo nos dias de hoje. A objetividade, o realismo, a busca pelos dados concretos e precisão da linguagem revelam como o jornalista está mergulhado na concepção positivista de mundo. Prova disso, é o desafio proposto pela autora de se encontrar manuais de redação que não estejam impregnados pela doutrina comtiana.

Assim sendo, se nos últimos três séculos, a doutrina positivista influenciou sobremaneira o modo de fazer jornalismo e foi essencial para alçá-lo à função social, Auguste Comte estaria de cabelos em riste se pudesse acompanhar os noticiários da atualidade que acumulam uma sequência de erros?

Um desses episódios que ficou emblemático para o jornalismo mundial aconteceu no início de dezembro do ano passado. A informação do lançamento mundial de um aplicativo batizado como Tubby para que homens pudessem avaliar mulheres de sua rede de contatos tomou conta não só das redes sociais, mas das páginas dos principais veículos de comunicação do país. O lançamento dado como certo pela imprensa gerou tamanha polêmica a ponto de a Justiça de Minas Gerais expedir liminar proibindo as lojas de aplicativos de disponibilizarem o Tubby no Brasil sob pena de multa. O tão cogitado lançamento foi adiado sob a justificativa de que inúmeros acessos ao site teriam causado problemas nos servidores, além de a empresa estar tentando legalizar o lançamento no Brasil. Mais uma vez, toda a mídia replicou a informação que constava da página online. Remarcado para dois dias depois, o fatídico lançamento fez com que a grande imprensa monitorasse durante a madrugada o site do Tubby e foi finalmente surpreendida por um vídeo onde de um suposto diretor da empresa explicava que tudo não passava de uma brincadeira para chamar atenção para atitudes “sexistas” e “infantis”. Durante sua fala, o suposto diretor não poupou a imprensa: “Isso vale também pra nossa grande mídia que nunca checa fonte de nada. Sério que caíram em mais uma…Entendedores entenderão.”

Para sair do limbo

Medina cria o debate em torno do positivismo para defender a necessidade da quebra dos “grilhões positivos” no jornalismo atual. Para a autora, a influência comtiana engessa a narrativa jornalística ao não permitir uma abordagem mais subjetiva dos fatos que desse conta das complexidades da sociedade do século XXI.

Com as ideias de Medina, conversam os pensamentos de Boaventura de Sousa Santos em textos como Para além do pensamento abissal e Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Defende o autor português, que o pensamento que molda os critérios de noticiabilidade atualmente causam a contração do presente e a consequente expansão do passado e do futuro em virtude do imediatismo, da pressa, da superficialidade. Pontos que ficam explícitos no exemplo citado anteriormente. Seguindo em seu pensamento, o jornalismo ainda está entranhado da razão metonímica, tomando a parte como todo, provocando as generalizações comuns dos produtos jornalísticos atuais e que seguem também a lógica do pensamento abissal, onde prevalece a dicotomia, a distinção entre o global e o local, o visível e o invisível, o produtivo e o improdutivo, ordem e desordem, atraso e progresso. O positivismo novamente.

O que se pode absorver é que os dois autores, cada qual a sua maneira, defendem a necessidade de uma quebra de paradigma, o rompimento do modelo de notícia positivista. Entretanto, a questão que ainda resta é a que se hoje, o jornalismo se furta da apuração, peca na exatidão, atropela – por conta de um novo e complexo momento -, os principais dogmas da profissão, ele também tampouco caminha para o que defendem Medina e Boaventura.

É como se, atualmente, o jornalismo estivesse num limbo em busca de uma nova identidade. Usa dos antigos critérios para manter a imagem dos veículos cuja função seria a de retratar o real, mas que pecam na exatidão. Atropelados pela era da internet e da velocidade, empresas e jornalistas que lutam para sobreviver num mercado em plena mutação ainda não se decidiram em atender às necessidades como as propostas por Medina na “arte de tecer o presente”. Antes de romper com o positivismo, o jornalismo atual precisa definir qual será seu valor-notícia. O imediatismo não tem se mostrado suficiente para garantir a credibilidade. E os princípios positivistas já estão, em boa parte, superados por conta da complexidade do momento.

Referências

MEDINA, Cremilda. Ciência e jornalismo – Da herança positivista ao diálogo dos afetos. São Paulo: Summus, 2008.

SANTOS, Boaventura de Sousa. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências” in Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, outubro/2002: 237-280.

SANTOS, Boaventura S. e MENESES, Maria Paula. Epistemologias do sul. 2ed. Coimbra: Almedina, 2010.

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Melissa Bergonsi é mestranda no POSJOR-UFSC e pesquisadora do objETHOS

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