Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MERCADO

Em ano de Copa, Pelé tenta gol de placa

Por Matthew Futterman e Reed Johnson em 13/05/2014 na edição 798
Reproduzido do Valor Econômico, 8/5/2014; intertítulos do OI

Ainda falta mais de um mês para o apito inicial em São Paulo, mas já há alguém disputando o título de estrela da Copa do Mundo de 2014: Edson Arantes do Nascimento.

Apesar de sua estatura como um dos maiores e mais populares atletas da história, Pelé e sua nova equipe de assessores vêm lutando para reverter décadas de má gestão e maus negócios, procurando reforçar a marca “Pelé” a tempo de colocá-la sob a luz dos holofotes do esporte internacional quando eles se acenderem no Brasil. Ao 73 anos, essa pode ser a última chance de Pelé.

“Estou muito ocupado agora”, disse o atleta ao The Wall Street Journal na semana passada, em Miami, onde estava promovendo a marca de acessórios de luxo Hublot. De fato, de repente Pelé está em todo lugar, mancando diante das câmeras devido a um implante de quadril, para divulgar uma série de parcerias e um novo livro, Why Soccer Matters (Por que o futebol importa, em tradução livre, que ainda não foi lançado em português).

Um ano após se tornar um defensor do governo brasileiro – algo que causou reações adversas em meio a protestos de rua generalizados contra a corrupção e gastos excessivos com esportes –, Pelé está fazendo propaganda para os relógios Hublot, o banco Santander, sanduíches do Subway e carros da Volkswagen.

“Este é o último grande momento para Pelé brilhar no cenário internacional”, diz Christopher Gaffney, da Universidade Federal Fluminense, que estuda as relações entre esporte e sociedade. “Ele está sempre presente como uma espécie de ícone cultural brasileiro. Mas, na verdade, ele fez a maior parte disso tudo para promover a si mesmo.”

“Ele vem sendo explorado há 40 anos”

Está em negociação um novo licenciamento com a Puma, a marca preferida de Pelé nos seus anos de glória, segundo seu empresário. A Imagine Entertainment deve lançar este ano um longa-metragem sobre a infância e a entrada em cena do jogador, aos 17 anos, como ídolo do futebol mundial, quando o Brasil ganhou o primeiro dos cinco títulos de campeão da Copa do Mundo, em 1958.

“É uma história que vai da miséria à riqueza, com um garoto que saiu da pobreza total”, disse Michael Rosenberg, um dos presidentes do conselho da Imagine. “É a versão futebolística do filme Quem quer ser um milionário?”.

Um museu sobre o jogador está prestes a ser inaugurado em Santos, com objetos históricos que Pelé acumulou. O acervo inclui camisas que ele usou em muitos jogos e um passe de ônibus de 1957. Recentemente, ele apareceu num jantar vestindo a jaqueta militar que fazia parte do traje da Segunda Guerra que ele usou no filme Fuga para a Vitória, de 1981, uma narrativa épica sobre um jogo entre nazistas e prisioneiros de guerra aliados.

Mais de meio século depois de se tornar uma estrela mundial, Pelé diz que continua acreditando ser o maior jogador de futebol de todos os tempos. “Minha mãe disse que sim, então, sim, acho que sou”, disse brincando. “Marquei mais gols do que qualquer outro. Joguei por muito tempo. Ganhei campeonatos jogando pelo Brasil, pelo Santos, pelo Cosmos. Tive muitas conquistas.”

Mas no Brasil, a imagem de Pelé não está livre de ataques. Ele já enfrentou críticas por não usar mais sua influência para promover reformas sociais num país onde milhões de pessoas vivem na pobreza e onde persiste a corrupção generalizada. E teve uma carreira muito irregular como empreendedor, sem nunca acumular uma fortuna comparável a estrelas de hoje como Cristiano Ronaldo, que vai ganhar uns US$ 50 milhões este ano.

Sua construtora faliu. Seu mandato como ministro dos Esportes do país foi marcado por denúncias de corrupção. (Pelé disse que continua orgulhoso do trabalho que fez em favor das crianças brasileiras, mas que decidiu voltar para a vida privada.) O café Pelé é uma marca reconhecida de café, mas rende pouco ao dono do nome, resultado de um mau negócio. Acordos recentes com fabricantes de chuteiras geraram produtos de primeira linha, mas lucros e royalties limitados para Pelé, segundo sua equipe.

“Ele vem sendo explorado há 40 anos”, diz Paul Kemsley, diretor-presidente da Legends 10, o mais recente empreendimento criado por Pelé num esforço de finalmente fazer fortuna. Kemsley, que comanda essa iniciativa, também tem manchas em sua história. Britânico de nascimento e ex-executivo do clube de futebol londrino Tottenham Hotspur, ele ganhou e perdeu centenas de milhões de dólares em investimentos imobiliários e atuou numa versão britânica do programa de TV O Aprendiz. Nos últimos anos, ele esteve várias vezes em tribunais de recuperação judicial e se envolveu em vários litígios.

“Não gostaram que eu estivesse pedindo paz”

Kemsley começou a trabalhar com Pelé quase por acaso. Depois de se mudar para os Estados Unidos após a crise financeira de 2008, ele comprou a propriedade intelectual relacionada ao New York Cosmos, o último time de Pelé, e foi para o Brasil para recrutar a ajuda do ex-jogador para revitalizar a marca, depois assumida por investidores. Isso levou Kemsley a formar sua própria empresa com Pelé. “Não há nenhum mistério nisso”, disse Kemsley na semana passada, em Miami. “Tenho o maior nome do planeta num momento em que a Copa do Mundo e as Olimpíadas serão realizadas no Brasil.”

Kemsley disse que a Legends 10 vai atrair quase US$ 30 milhões em patrocínio e licenciamento este ano e já garantiu cerca de US$ 100 milhões em compromissos contratuais. Pelé detém um terço da empresa, que está buscando uma segunda rodada de captação de recursos. “Falamos com as gerações mais jovens através de Pelé”, diz Ricardo Guadalupe, diretor-presidente da Hublot, que costuma fazer contratos de patrocínio com atletas mais contemporâneos, como Usain Bolt e Kobe Bryant. No evento de Miami, o artista pop brasileiro-americano Romero Brito, que desenhou um estojo de relógio em forma de uma bola de futebol para a Hublot, se referiu a Pelé como “um deus”.

Mas essa mensagem ficou abalada no ano passado, na Copa das Confederações, quando forças do governo atacaram manifestantes que protestavam contra os gastos com esportes em detrimento de serviços básicos, como educação e saúde. Enquanto outras importantes figuras do futebol brasileiro, como o ex-atacante e atual político Romário, ficaram ao lado dos manifestantes, Pelé inicialmente defendeu o torneio e seus organizadores. As manifestações, disse ele, colocam os jogadores, que não tinham nada a ver com a política nacional, numa posição injusta. “Os ativistas políticos que fizeram o protesto não gostaram que eu estivesse pedindo paz”, disse. “Eu estava pedindo uma boa mensagem para o meu país.”

“Pelé nunca ganhou o que merecia”

Depois de ser muito criticado, Pelé mudou o discurso. “Por favor, não me entendam mal”, disse ele no Twitter em junho passado. “Sou 100% a favor deste movimento por justiça no Brasil!”

Os brasileiros continuam divididos, mas Pelé parece ter se recuperado. A Kemsley consolidou quase toda a propriedade intelectual associada ao nome do atleta, pela primeira vez em décadas. “Pelé sempre ganhou dinheiro”, disse Kemsley, “mas nunca ganhou o que merecia, considerando que ele é uma das pessoas mais famosas do mundo.”

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Matthew Futterman e Reed Johnson, do Wall Street Journal

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