Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA DA COPA

Mídia Ninja prepara portal para transmitir ‘outro lado’ da Copa

Por Nelson de Sá em 13/05/2014 na edição 798
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 11/5/2014; intertítulo do OI

Há um mês, a Mídia Ninja completou um ano no ar e suas imagens dos protestos de junho, que tornaram o coletivo conhecido, entraram para o acervo do MAM-SP (Museu de Arte Moderna de SP). Mas a data que importa para o grupo é 3 de junho, quando estreia o portal que marca sua libertação do Facebook. “Estamos trabalhando loucamente para isso”, diz Rafael Vilela, que coordena os preparativos em São Paulo.

O site estará no Oximity, plataforma lançada há meio ano por programadores alemães e que já acolhe a rede midiativista Global Voices. Vai abrigar versões editadas dos vídeos, mais fotos e textos, além de incorporar as transmissões em streaming, características do grupo.

O bordão informal da Mídia Ninja, repetido por Vilela e Filipe Peçanha, que coordena os preparativos no Rio, é “baixa resolução e alta fidelidade”. Suas imagens de celular, tomadas ao vivo do meio das manifestações, tornaram-se referência online.

“Estamos organicamente inseridos, com as pessoas que cobrimos”, diz Peçanha, o Carioca, cujas transmissões o levaram à prisão em junho.

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que dirigiu a Globo por três décadas, vê a mudança como inevitável. Diz que já é possível transmitir em alta definição com três linhas de celular e que as novas tecnologias aposentaram os caminhões de externas.

“A TV tem que aceitar que o conteúdo é mais importante que a qualidade tecnológica”, diz. “Tem que saber que, se não fizer cobertura, alguém fará. E tem que ficar no meio, não mais de longe.” Em suma, deve “ir para o campo que a molecada aponta”.

Mas Boni alerta que agora “qualquer um pode usar [a tecnologia] para o bem e para o mal, pacificar ou agitar”.

Sylvia Moretzsohn, professora da Universidade Federal Fluminense, afirma que “o mais grave, quando se fala de Ninja e iniciativas parecidas, é que não contextualizam”. Também como linguagem, “se enaltece essa ideia da cobertura ao vivo, sem cortes, que não é novidade”. Citando o cinema-verdade dos anos 1950, diz que “é uma linguagem conhecida e formalmente não acrescenta nada”.

Copa

O portal Ninja vai concentrar a cobertura planejada para os protestos contra a Copa. “Ninguém sabe o que vai acontecer”, diz Vilela. “O planejamento está no portal, na estrutura, em ter equipes fortes de rua e de redes.”

Carioca participa de reuniões semanais com outros coletivos, como Rio na Rua. “A gente se articula para, quando pegar fogo, produzir e difundir em consonância.”

A Mídia Ninja continua no Facebook, porque “não dá para fingir que não existe”, segundo Carioca, mas busca no Oximity – e em outras plataformas, como Medium – uma ferramenta que permita mais liberdade de edição.

Busca também, diz Vilela, uma troca de serviço, sem envolver dinheiro, “numa lógica solidária, de fortalecimento mútuo”. No contrato de um ano, os brasileiros pagarão pela plataforma dando subsídios para o desenvolvimento da mesma pelos alemães.

Essa “economia colaborativa” é um dos sustentáculos da Mídia Ninja, diz Pablo Capilé, fundador do Fora do Eixo, coletivo cultural em que nasceu o de mídia. Ele afirma que, passado um ano, “são duas redes já autônomas”.

Outras fontes de custeio estão sendo buscadas para a Mídia Ninja. “Acabamos de fechar parceria com a Fundação Ford”, diz Capilé. A fundação afirma estar “conversando”, mas que é negociação “ainda em andamento”.

O coletivo também vai buscar recursos via colaboração direta, crowdfunding. O portal terá mecanismos para doação on-line semanal, mensal ou por cobertura.

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Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo

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