Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > PERFIL / ZUENIR VENTURA

Repórter dos anos rebeldes

Por Tom Cardoso em 13/05/2014 na edição 798
Reproduzido do Valor Econômico, 9/5/2014; intertítulos do OI

O amigo – e igualmente octogenário – Ziraldo o alertou: “Agora chegou a pior parte, dos 80 aos 90”. A idade, porém, não representou, até agora, nenhum impedimento, nenhuma restrição a Zuenir Ventura. E, mesmo que os 82 anos impusessem algum tipo de limitação, não seriam suficientes para lhe roubar a altivez. “Eu não sei o que é depressão. No meu DNA está escrito: ‘Vai ser careca e otimista’”, diz Zuenir, enquanto aguarda ao lado da mulher, Mary, e do repórter, o táxi que levará o trio do Leblon, onde mora o casal, até o bairro da Lagoa, sede do charmoso italiano CT Trattorie, comandado por Claude Troisgros.

O táxi custa a chegar. E os que passam estão todos ocupados. Estamos no começo de noite de uma sexta-feira e os bares e restaurantes começam a encher. Zuenir não se impacienta. Estica os braços compridos – as pernas são igualmente longas – e propõe uma estratégia: que cada um dos três fique numa esquina. Dá certo: cinco minutos depois, Mary, do outro lado da rua, consegue um táxi.

A presença de Mary no jantar é mais do que oportuna. Primeiro, pela conhecida falta de memória do marido (mais lenda do que realidade), que funciona muito melhor, segundo ele, estimulada pelos outros. A parceria (do jornalista com os amigos, parentes, colegas de profissão) rendeu até um livro de memórias, “Minhas Histórias dos Outros” (Planeta), que, apesar de narrado em primeira pessoa, não seria lançado se o autor não recorresse ao talento de repórter para investigar a própria trajetória. Segundo, por Mary, também jornalista, já aposentada, ser há muito tempo a redatora de luxo de Zuenir. Nada é publicado sem que antes seja submetido ao rigoroso crivo da companheira.

Zuenir já foi chefe de Mary, quando ambos trabalhavam no “Jornal do Brasil”. Hoje quem dá a palavra final sobre os textos do marido é ela. A intimidade (estão casados há 51 anos) permite que Mary seja dura quando preciso. Há poucos meses, não gostou de uma das colunas que Zuenir escreve às quartas e sábados em “O Globo” “Não ficou tão boa”, afirma Mary, sentando ao lado de Zuenir no banco de trás do táxi. Zuenir acha ótimo contar com uma redatora tão franca: “Quando ela diz que está bom, sei que não é para me agradar.” O jornalista escreveu a tal coluna que não agradou à mulher ainda sob o impacto da morte do documentarista Eduardo Coutinho (assassinado pelo próprio filho, Daniel, no início de fevereiro), amigo de longa data do casal, sobretudo de Mary, que chegou a fazer uma figuração em “O Homem Que Comprou o Mundo” (1968), um dos filmes menos conhecidos de Coutinho.

O restaurante do francês Claude Troisgros faz jus às casas do gênero: aconchegante e rumoroso. O couvert é servido. Zuenir preocupa-se com a gravação da conversa. “Será que o barulho vai atrapalhar?” Ele sugere que o repórter faça um teste. Discorre, já sendo gravado, sobre os benefícios que a tecnologia trouxe à reportagem. Hoje, qualquer serviço de armazenamento em nuvem – servidores que guardam uma grande quantidade de arquivos de textos, fotos e vídeos – livraria Zuenir da tragédia que foi perder dois anos de anotações e entrevistas num caderno: a matéria-prima para a biografia de Glauber Rocha, que o jornalista estava disposto a escrever e se perdeu após ser esquecida no banco de trás de um táxi. “Eu coloquei até anúncio no jornal, sabendo que o caderno tinha apenas valor para mim e para mais ninguém, mas não consegui reavê-lo. Desisti de começar tudo de novo.”

Quem acabou se animando foi Nelson Motta, que tempos depois escreveu a biografia de Glauber (“A Primavera do Dragão”, Objetiva). “O Nelsinho, queridíssimo amigo, meu aluno na UFRJ, veio aqui em casa e disse que tinha vontade de escrever a biografia do Glauber, mas, antes, queria saber se o meu livro ainda estava de pé”, diz Zuenir. “Contei a história do táxi e disse para ele ir em frente.”

Atitude firme

Enquanto o “sommelier” sugere um Columbia Crest Grand Estates Chardonnay 2008, Zuenir cochicha com o repórter. Explica que, além do desânimo de recomeçar um trabalho que já tinha sido feito durante dois anos, ele interpretara o sumiço das anotações como uma espécie de aviso enviado por Glauber, de que ele, Zuenir, não deveria escrever sua biografia. “Não sou supersticioso, mas o Glauber Rocha era – e muito, meio macumbeiro. Achei bem melhor não contrariá-lo”, brinca.

Zuenir prova e aprova o vinho. O repórter lembra que a biografia de Glauber, escrita por Motta, foi criticada por integrantes da geração Mapa, grupo de intelectuais que atuou na Bahia nos anos 1960, sob liderança do cineasta. Outros especialistas na obra de Glauber também apontaram diversas incorreções históricas no livro. Seria a maldição de Glauber? Zuenir, o biógrafo original, não quer entrar em polêmica. Sobre eventuais erros do livro do ex-aluno, o jornalista prefere não opinar: “Sou como Machado de Assis: sofro de tédio à controvérsia”.

Não que o repórter não entre em controvérsia quando necessário. Em “1968: o Ano Que Não Terminou” (lançado originalmente em 1989), uma minuciosa investigação sobre o período que virou um clássico do jornalismo literário brasileiro, Zuenir comprou briga com um compositor afeito à polêmica: Caetano Veloso.

No livro, o jornalista relata o episódio ocorrido durante um festival de samba, em que Chico Buarque teria sido vaiado por um grupo e Gilberto Gil, também na plateia, teria não só apoiado a vaia como ajudado a puxá-la. Zuenir deu as duas versões no livro, a descrita acima, publicada nos jornais da época, e a de Caetano, que atribuiu a Gil um papel inverso: o autor de “Domingo no Parque” teria, na verdade, repreendido o grupo que vaiara Chico. “Quando o livro saiu, o Caetano ficou muito irritado comigo, disse que eu tinha dado pouco espaço para a entrevista de duas horas que ele havia me concedido. Mas eu tinha outras pessoas para ouvir”, diz Zuenir.

Caetano e Zuenir ficaram 15 anos sem se falar, até que a paz foi restabelecida graças à intermediação de Paula Lavigne (mulher de Caetano na época e filha do advogado Arthur Lavigne, amigo de Zuenir), que pegou o escritor pelo braço, durante um show na Vila Cruzeiro, no Rio, e o levou ao encontro do compositor. “Quando ficamos um de frente ao outro, a Paulinha disse, com aquele jeito dela, sem rodeios: ‘Caetano, Zuenir. Zuenir, Caetano. Vamos acabar com essa v…?’”, conta. Os dois se abraçaram e nunca mais tocaram no assunto. No entanto, com Chico Buarque, que também mantinha uma relação próxima a Zuenir até a publicação de “1968”, a amizade nunca mais foi a mesma. O compositor, talvez pelos mesmos motivos de Caetano, não teria gostado do livro. “Ele não brigou publicamente comigo, não houve uma ruptura, mas deixou de falar”, diz. Já Gilberto Gil, protagonista da polêmica, não se queixou. “Continuamos amicíssimos. Gil é uma santa pessoa.”

Os pratos são pedidos. Mary vai de espaguete à la carbonara com carne-seca e Zuenir, de saltimbocca alla romana. Enquanto o repórter se diz em dúvida entre o espaguete e o penne de paleta de cordeiro assado com cogumelos e farofa de Panko, Zuenir conta que na época em que Paula Lavigne estava no centro da polêmica, acusada de agir de forma belicosa como porta-voz do grupo Procure Saber (associação formada por músicos como Caetano, Chico, Gil e Roberto Carlos que defendia, entre outras reivindicações, a autorização prévia para a publicação de biografias), ele decidiu escrever uma coluna no “Globo” relembrando o episódio das pazes com Caetano e quanto ela havia sido importante para a reconciliação. “Achei que era o momento de mostrar um outro lado da Paulinha, uma pessoa muito transparente, muito aberta e que deu a cara a tapa num momento em que muitos outros preferiram se omitir”, afirma Zuenir. “Em determinado momento, parecia que tudo era culpa da Paulinha.”

O jornalista pretende lançar uma versão ampliada de “Minhas Histórias dos Outros”, com novos relatos de sua trajetória como repórter, recordados, como de costume, com a providencial ajuda de amigos e colegas de profissão. O amigo e documentarista João Moreira Salles sugeriu que Zuenir não deixasse de incluir, na nova versão, os bastidores de sua cobertura das viagens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Brasil, na década de 90, batizadas de Caravanas da Cidadania. Foram 30 dias grudado no líder do PT, tomando café no mesmo hotel, almoçando, jantando – “e dividindo a mesma cachaça”, revela Zuenir.

“Apesar de todas as divergências que eu tenho hoje em relação ao Lula, poucas vezes vi um político ter uma proximidade genuína, autêntica com o povo”, comenta. “Eu sentia que o Lula queria, durante a caravana, conhecer mesmo as pessoas, ouvi-las.” Zuenir lembra que quando alguém do partido transformava a visita a alguma cidade num ato político, Lula ficava possesso. “Ouvi mais de uma vez ele reclamar: “Esses petistas são um saco!’”

Na nova versão de “Minhas Histórias dos Outros”, Zuenir também pretende mudar o desfecho do capítulo em que narra a saga de Genésio Ferreira da Silva, principal testemunha do caso Chico Mendes (líder seringueiro assassinado em 1988, em Xapuri, no Acre), que, ameaçado de morte por fazendeiros ligados ao crime, foi levado para o Rio por Zuenir, na época cobrindo o caso para o “Jornal do Brasil”, e escondido na própria casa do repórter. “Ele [Genésio] entrou na minha vida por acaso, resultado de uma transgressão que cometi de uma lei básica do jornalismo – a de que, ao reportar os acontecimentos, não se deve interferir neles”, escreveu Zuenir.

Genésio, na época com 13 anos, morou na casa do jornalista – já pai de dois filhos adultos, de 25 e 24 anos – até os 18. Em “Minhas Histórias dos Outros”, Zuenir conta detalhes da dura adaptação do garoto à vida da grande cidade e lamenta não ter evitado que ele virasse um menino com uma série de problemas, inclusive o alcoolismo. O capítulo “A Saga de uma Testemunha”, o último do livro, terminava num tom melancólico: “De todas as minhas histórias, a de Genésio Ferreira da Silva foi – está sendo – a mais difícil e sofrida de viver e contar. Tem o gosto amargo de um fracasso – o meu”.

Zuenir dará outro fim à história, menos tétrico e mais otimista. Diante das circunstâncias, diz ele, tudo o que poderia ser feito por ele e por Mary para ajudar Genésio foi feito. Se antes o jornalista confessava a frustração por não ter conseguido que o menino se tornasse um grande profissional, com uma sólida formação educacional, hoje, passados tantos anos, Zuenir tem certeza de que ele e Mary fizeram o possível – e o fato de Genésio estar vivo, levando a vida, já pode ser considerado uma grande vitória. “Para nós e para ele”, diz Zuenir. “A vinda do Genésio para cá, e naquelas circunstâncias, foi muito dura, um choque cultural tremendo, que começou assim que entramos com ele no Túnel Rebouças [que liga a zona norte à zona sul do Rio]”, continua. Zuenir recorda-se do dia em que levou o garoto para ver o mar pela primeira vez. “Ele ficou tão maravilhado quanto confuso: não acreditava que a água pudesse ser salgada.”

Genésio, que por muitos anos residiu em Brasília, mora hoje numa cidade “mais para o Norte”, relata Zuenir, que prefere não revelá-la. “Ele passou a vida em permanente fuga e ainda corre certo perigo.” Hoje, aos 38 anos, Genésio continua mantendo contato com a família que o criou dos 13 aos 18. Zuenir conseguiu que um velho amigo, o jornalista Elcio Martins, ajudasse Genésio a escrever um livro sobre a sua saga como principal testemunha do caso Chico Mendes, a infância passada em Xapuri, a fuga para o Rio e a luta para se adaptar à rotina de uma família de classe média carioca.

O livro será lançado pelo Instituto Vladimir Herzog. “Ele é um homem de grande caráter, foi de uma coragem, de uma firmeza incrível durante o julgamento.” Empregado do fazendeiro Darly Alves da Silva, condenado por ser o mandante do assassinato de Chico Mendes, Genésio relatou no tribunal detalhes de tudo o que ouvira na fazenda onde o crime foi planejado, segundo Zuenir. Foi Mary que acompanhou Genésio ao tribunal e cobrou dele uma atitude firme. “Ela [Mary] era dura com Genésio, do mesmo jeito que sempre foi com os meus dois filhos”, observa Zuenir. “Eu sempre fui bem mais maleável.”

Dois cafés

A sobremesa é pedida – creme “bruciata”, uma espécie de versão italiana do creme “brûlée”, para todos. A idade, como se vê, não representou de fato, até agora, nenhum impedimento – muito menos alimentar – para o octogenário Zuenir, autor da frase que já ficou famosa: “Se soubesse que era tão bom fazer 80 anos, eu tinha feito antes”. Aliás, um musical sobre a velhice está praticamente certo e vai juntar três grandes amigos: Zuenir, de 82 anos, Ziraldo, de 81, e o caçula do trio, Luis Fernando Verissimo, de 77.

“Fazemos palestras juntos pelo país há mais de 20 anos. Costumo dizer que já fizemos de tudo juntos, menos sexo”, afirma Zuenir. Mary comenta: “Quando o Zuenir diz isso nas palestras, o Verissimo só fala uma palavra: “Ainda’.”

O musical, com o título provisório “A Bárbara Idade – A Ópera dos Três Velhinhos”, já está acertado com uma grande produtora, ainda mantida em segredo. “O problema é que nenhum dos três faz a mínima ideia do que seja velhice”, comenta.

Zuenir Ventura, por exemplo, é um jovem que continua ditando moda no Rio. Há quem diga – Mary garante – que o jornalista foi o primeiro a trajar macacão – um branco, do Posto Shell, usado pelos frentistas, com que se encantara durante uma tarde, abastecendo o carro. “Eu achei lindo e passei a ir à redação do ‘Jornal do Brasil’ com ele.” Sem o logotipo da Shell, claro. “Naquela época usar um macacão com um símbolo do capitalismo pegava muito mal.” Depois, lembra Zuenir, passou a andar de tênis Bamba. “Fui o primeiro a usar”, diz. “E com meias coloridas!”, completa Mary. Ela conta que o marido passou a usar a combinação ainda na época, no começo dos anos 60, em que lecionava comunicação verbal na Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

As meias coloridas passaram a fazer parte de sua indumentária, tanto que Zuenir não deixou de usá-las nem quando a ocasião exigia um figurino um pouco mais formal: a participação numa sabatina, em 2010, organizada pelo jornal “O Globo” com o então candidato à Presidência da República José Serra. Na primeira fila da plateia, Luis Fernando Verissimo foi questionado por jornalistas, ao fim do debate, sobre o desempenho do tucano. Verissimo respondeu como Verissimo. “Não há dúvida: o melhor candidato à Presidência é a meia do Zuenir.” Ela fez tanto sucesso que os amigos decidiram presenteá-lo com todo tipo de peúga. A meia com a Monalisa, uma de suas favoritas, foi dada por Ziraldo.

Dois cafés são pedidos e o jantar chega ao fim. Zuenir espera que Mary se levante e depois se ergue da cadeira. O repórter, curioso, espia-o, olhando para baixo, tentando descobrir qual seria o par de meias escolhido para a ocasião e frustra-se ao deparar com os tornozelos nus do escritor. “Ah, hoje está muito calor, vim sem meia”, explica Zuenir.

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Tom Cardoso, para o Valor Econômico

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