Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

Paraíso para a mídia internacional

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 20/05/2014 na edição 799

O jornal O Globo (18/5) informou que a prefeitura do Rio escolheu usar a beleza da cidade como pano de fundo das áreas de imprensa criadas para a transmissão da Copa do Mundo. Nada do velho cenário com os estádios atrás e os âncoras à frente nas transmissões de TV. Agora, alguns dos principais centros de mídia do mundo vão exibir como fundo cenas do cotidiano da praia de Copacabana, assegurou o diário. Outros pontos turísticos também foram assinalados pela prefeitura como espaços reservados para a mídia internacional no Rio de Janeiro.

“O enquadramento nada óbvio para um evento futebolístico se impôs pela beleza – essa sim, óbvia e inevitável – da cidade”, explicou a repórter Catarina Wrede em uma reportagem fortalecida com cenas paradisíacas dos melhores espaços turísticos da Cidade (pág.14, na versão impressa). O site do jornal apresentou a mesma matéria no mesmo dia, mas não houve espaço para acomodar as excelentes tomadas feitas pelo fotógrafo. A plataforma tinta-papel supera as vantagens da web na exibição de grandes imagens em reportagens ao possibilitar uma área de leitura maior que uma página da web.

A jornalista informou que “uma estrutura tubular de 22 metros de altura e 55 de extensão, com dois andares de altura, estará à disposição de 10 estúdios de televisão: a BBC e a ITV da Inglaterra, a TV 4 da Suécia, a Sky Itália, a KBS, da Coreia do Sul, a SBS, da Austrália, a NRK da Noruega, a TyC Sports da Argentina, a belINSport, o canal de esportes da Al-Jazira, do Qatar, e a SVT da Suécia”. O trabalho da imprensa só vai começar no início de junho, confirmou o jornal.

Belezas precisam ser mostradas

A estrutura foi obra da firma franco-suíça HBS Group, “que trouxe mais de 3 mil profissionais para trabalhar nas estruturas televisivas”, informou o periódico. Em Copacabana ficarão dois pontos de imprensa: um no Forte e outro no Leme – um em cada extremidade da famosa praia. Ao todo são 13 áreas reservadas para a mídia internacional trabalhar ao ar livre tendo como cenário as vistas mais lindas da cidade. Todas foram previamente escolhidas pela prefeitura.

A UERJ, com sua vista privilegiada do Maracanã, também foi escolhida para abrigar a imprensa internacional. A universidade do estado, o estádio do Engenhão e o portal de entrada do estádio do Vasco da Gama, em São Cristóvão, são locais estratégicos para a mídia internacional mostrar ao mundo que o Rio não se resume a seus pontos turísticos e aos bairros que os abrigam. A Zona Norte e a periferia da cidade são mundos desconhecidos para o público mundial.

Até a mureta da Urca, lugar tradicional das noites cariocas, foi reservada para a mídia estrangeira. É uma das melhores locações para filmagens da Baía da Guanabara. O Mirante do Leblon está sendo cogitado para abrigar outra área de imprensa (isso é uma heresia para muitos cariocas). As escolhas da prefeitura atendem interesses comerciais das emissoras internacionais e da FIFA, mas também escondem do resto do mundo as mazelas do urbanismo carioca.

Só espero que a mídia internacional não caia na ilusão do “Rio-Cartão Postal” e acabe seduzida pela natureza exuberante do Rio de Janeiro. Ela deverá vir preparada para o desconhecido, para o inesperado. Para as manifestações que virão com certeza. Que ela saiba trabalhar sem medo e preconceitos, e tenha a coragem de mostrar ao mundo não a imagem que a Fifa e os políticos locais querem exibir, mas a realidade cruel da dinâmica urbana do Rio de Janeiro.

Esta cidade não pode ficar oculta atrás de suas belezas naturais. Belezas outras precisam ser mostradas ao mundo. A mídia internacional terá uma chance histórica única, ao poder testemunhar ao vivo um momento de descontentamento e transformação da sociedade brasileira aqui no Rio de Janeiro. Que ela esteja à altura de sua tarefa.

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Nota do autor

Na edição original, o signatário afirmou que “as escolhas da prefeitura refletem o medo dos planejadores locais de mostrarem ao mundo as mazelas do urbanismo carioca”. A fragilidade do argumento foi detectada e o texto original alterado às 7h55 de 21/5, de acordo com as melhores normas para a administração de inconsistências ou erros em jornalismo. (S.M.A.)

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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