Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & COPA

Os corajosos ‘vira-latas’ e os covardes ‘cães de guarda’

Por Eduardo Silveira de Menezes em 27/05/2014 na edição 800

Durante as décadas de 1920 e 1930, o jornalista americano Henry Louis Mencken discorreu sobre temas que, passados mais de 80 anos, continuam atuais. Dentre as muitas preocupações do articulista de jornais como Sun e Evening Sun estava a identificação sobre o lugar que o sujeito ocupa na sociedade. Se forem considerados os últimos acontecimentos envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o cientista político Emir Sader – intelectual identificado com o Partido dos Trabalhadores (PT) – sob a perspectiva de Mencken, é possível identificar uma tomada de posição temerária, na qual a perda do real sentido de responsabilidade pública pode colocar o colunista da agência Carta Maior no papel, antes por ele criticado, de mero “cão de guarda” do poder político e econômico.

O curioso é que o referido intelectual conhece muito bem essa posição. A apresentação do livro Os novos cães de guarda, de Serge Halimi, publicado pela Editora Vozes, em 1998, no Brasil, é assinada por ele. Já nas primeiras páginas, Sader faz referência a Paul Nizan, criador da expressão “cães de guarda”, uma clara alusão aos pensadores cujo compromisso fundamental seria com as instâncias de poder, e não com a verdade. Inconformado com uma possível repercussão negativa do protesto realizado pelo MTST no dia 15 de maio, data escolhida para marcar o Dia Internacional de Lutas contra a Copa, Sader agiu justamente da forma descrita por Nizan. Como se acometido por uma amnésia oportuna, esqueceu-se do que havia dito e vociferou, via Twitter, que “a Gaviões da Fiel protegeu o Itaquerão e enxotou os vira-latas”. Não satisfeito, ainda alertou que no dia 12/6, data marcada para a abertura oficial da Copa do Mundo de 2014, a torcida organizada do Corinthians iria estar preparada, novamente, se fosse preciso, para “enxotar os vira-latas”.

Nada mais controverso. O próprio sociólogo, outrora dito marxista, está acostumado a criticar colunistas da grande mídia, os quais, segundo ele, costumam optar por seguir as orientações do capital financeiro em detrimento dos interesses públicos, tal qual descrito na introdução ao texto de Halimi. Dada a atual conjuntura, o que mais chama a atenção na crítica de Sader aos manifestantes – e, consequentemente, ao MTST – não é apenas o uso da retórica conservadora do complexo de vira-latas – cunhada, nos anos 1950, por Nelson Rodrigues, em uma referência ao trauma da derrota da Seleção brasileira para a Seleção uruguaia e a perda do título da Copa naquela oportunidade –, mas a sua incapacidade – e de muitos outros jornalistas e articulistas da mídia não hegemônica – em separar os interesses de classe dos interesses do partido que está no poder.

Jornalismo chapa-branca

Alguns leitores do professor Emir tentaram justificar sua atitude, aparentemente emocional e impensada. Disseram que teria havido uma interpretação equivocada de suas colocações. Sob este ponto de vista, a grande mídia, que repercutiu de forma oportunista a carta de repúdio do MTST às declarações do sociólogo, estaria regozijando-se com a desavença entre um conhecido defensor dos direitos dos trabalhadores e o movimento social. A revista Veja e o jornal O Globo, para citar dois dos veículos pertencentes ao chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG) – expressão popularizada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim em seu blog, Conversa Afiada, e muito utilizada pelo intelectual petista – certamente aproveitaram a situação para apresentar as contradições do ocorrido.

Ao falar da atividade jornalística e relacioná-la à prática política, H. L. Mencken destaca que a linha editorial de qualquer órgão de imprensa, seja ele movido por interesses do governo ou do mercado, é capaz de incutir um conceito de verdade em seus articulistas, cuja essência consiste em mobilizar a emoção e mitigar o raciocínio. O autor diz, ainda, que “o mais vira-lata dos cães tem sentidos mais agudos e é infinitamente mais corajoso, para não dizer mais honesto e confiável, que o homem”. Sob esta perspectiva, não resta dúvidas de que uma parcela significativa – e importante, é bom que se diga –, da mídia dedicada a combater o chamado PIG precisa realizar um exercício de autocrítica, sobretudo para não legitimar o discurso da oposição, que os acusa de realizar um jornalismo chapa-branca, patrocinado por outro PIG – o Partido da Imprensa Governista.

Copa do povo

Atualmente, os trabalhadores sem teto estão ocupando um terreno no Parque do Carmo, localizado nas proximidades da Arena Corinthians, que será sede da abertura do evento, no dia 12 de junho. Muitos corintianos, ao serem questionados sobre as manifestações, relataram não ser contra aos atos do MTST e que teriam ido ao Itaquerão, no dia do protesto, para defender um patrimônio que acreditam, ingenuamente, pertencer aos torcedores. Os sem-teto, em sua maioria, não se dizem contrários à Copa, mas à subserviência do Estado aos interesses do mercado, materializadas nas inúmeras remoções forçadas para favorecer a iniciativa privada por meio da especulação imobiliária.

A Lei Geral da Copa, que dá autonomia para a Federação Internacional de Futebol (Fifa) atuar no mercado sem qualquer tipo de intervenção do Estado, bem ao gosto do neoliberalismo, permite que o órgão fixe os preços para os ingressos e restrinja a área comercial no entorno dos estádios, de modo a beneficiar os patrocinadores do evento. Como se não bastasse, estima-se que esta será a maior arrecadação da história da Fifa, cuja imagem está sendo cada vez mais colocada a prova, com denúncias de corrupção envolvendo o processo de escolha das sedes do evento e a eleição para escolha do novo presidente, marcada para 2015.

A aparente contradição no suposto conflito, prenunciado por Emir Sader, não se explica pela teoria de que o brasileiro vive um “complexo de vira-latas”, mas pela falta de coragem dele e de outros intelectuais brasileiros em ultrapassar os limites da retórica petista. Ao criticar a ação dos grupos conhecidos por black blocs, que abusam dos limites democráticos para expressar sua indignação e, muitas vezes, atentam contra os patrimônios público e privado, Sader atinge, de tabela, as milhares de famílias excluídas pelo modelo político e econômico que, em outros tempos, foi tão criticado por ele. E para piorar sua situação, demonstra que não entende nada de cachorros. Do contrário, saberia que mais vale um “cão fiel”, mesmo sem raça definida, do que um “vira-lata”, adestrado, com complexo de “cão de guarda”.

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Eduardo Silveira de Menezes é jornalista e mestre em Ciências da Comunicação

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