Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

Brasil na Copa: ‘Welcome to the jungle’

Por César Felício em 17/06/2014 na edição 803
Reproduzido do Valor Econômico, 12/6/2014; intertítulo do OI

Com o retrato do país feito pela mídia estrangeira que predominou às vésperas da Copa, o viajante que chegar ao Brasil nos próximos dias poderá ter a sensação de penetrar no coração das trevas, como o protagonista do romance do inglês Joseph Conrad, que se dedicava à navegação fluvial na África do século passado.

A sensação de perda de tempo começa antes mesmo de sair dos aeroportos, segundo a revista The Economist, em função da caótica estrutura de transportes. Para o mexicano El Universal, o Brasil não se destaca em nada fora do gramado. “Nem a prosperidade é tanta, nem a infraestrutura é moderna, nem as comunicações avançadas, nem a beleza colonial impressiona”, garantiu um articulista do jornal. “Motins, greves e engarrafamentos encobrem a abertura em São Paulo”, registrou o inglês The Independent.

O clima está pesado, de acordo com o Wall Street Journal e o New York Times, que citam a falta de enfeites na rua e de empolgação popular em São Paulo. “O país está blindado como se tratasse de uma guerra”, observou o chileno El Mercurio. Organizadores de manifestações contra a Copa ganharam lugar de destaque no noticiário do inglês Financial Times e do francês Libération, que classificou a greve dos metroviários em São Paulo como um “movimento de cólera geral”.

O francês Le Monde e a revista alemã Der Spiegel se preocuparam com questões de fundo e recorreram às estatísticas. Uma em cada dez pessoas assassinadas no mundo é brasileira e o trabalho infantil persiste no país. O tom negativo em relação à Copa consegue até coisas impossíveis, como unir a imprensa oposicionista e a governista na Argentina. O Pagina 12, alinhado à Casa Rosada, destacou que a Copa de 2014 custará mais que as duas últimas somadas e que torneios como esse “começam a deixar de ser percebidos como encontros de prestígio para serem vistos como o que são, fenomenais oportunidades para o desperdício”. No polo oposto, o oposicionista Clarín criticou “a enorme massa de cimento no meio da selva”, uma referência à Arena de Manaus.

A presidente Dilma Rousseff jantou com os correspondentes estrangeiros no último dia 3, em um encontro marcado pela amenidade. “Sua informalidade com pessoas que acaba de conhecer é cativante, sua compreensão dos detalhes de questões de política pública é convincente”, escreveu sobre ela, por exemplo, o correspondente da britânica BBC. Mas dos 21 meios de comunicação que escreveram sobre o país nos últimos dias, mesmo depois do exercício de sedução de Dilma, 19 publicaram análises negativas.

Em apenas um caso, o do USA Today, o ponto de vista do governo foi registrado. Segundo o jornal, o ministro da Comunicação Social Thomas Traumann avaliou que tudo indica que não haverá protestos massivos durante a Copa. De acordo com a declaração do ministro transcrita no jornal, depois de junho de 2013 nenhum ato no Brasil reuniu mais de 10 mil manifestantes. Receberam credenciamento da Fifa para acompanhar o torneio cerca de 18,8 mil jornalistas de 163 países. Somente 20% do Brasil.

Erro de avaliação

O desenho de um país atormentado com a realização do evento esportivo contrasta com a percepção sobre o Brasil registrada pela maioria dos pesquisados do instituto norte-americano Pew Research, feita em 37 países, que constatou que 66% dos franceses, 51% dos britânicos e 49% dos alemães têm opinião favorável sobre o país. O mesmo relatório do instituto de pesquisas, entretanto, indica que a imagem brasileira no exterior está em declínio, nos quatro países em que sondagens anteriores foram feitas. Na Argentina, a percepção favorável em relação ao Brasil caiu de 69% em 2010 para 56% na pesquisa concluída em maio. Nos Estados Unidos, a queda foi de 57% em 2009 para 51% agora. No México, a percepção favorável se manteve em 41% entre 2010 e 2014, mas a desfavorável cresceu de 20% para 32%. Apenas no Chile houve estabilidade nos últimos anos e 74% dos pesquisados naquele país avaliam o Brasil de forma positiva.

No alto comando da campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, o bombardeio exterior é visto como um clássico caso de contágio da visão estrangeira pela local. Por esta visão, a necessidade de se apresentar a toque de caixa o Brasil a seus leitores fez com que a mídia internacional se pautasse pelo noticiário dos grandes grupos de imprensa brasileiros, que estariam, com diferentes gradações, tacitamente comprometidos com as oposições na eleição presidencial de outubro. É uma análise que parte do pressuposto de que não existe um olhar estrangeiro, mas somente uma caixa de ressonância dos tambores que por aqui batem.

As exceções, de acordo com este integrante da cúpula governista, estariam no jornalismo inglês, que estaria empenhado, por interesse próprio, em enfraquecer o governo Dilma. É uma referência velada ao jornal Financial Times, ácido crítico da política econômica dos últimos anos.

O problema central desta visão que atribui à partidarização da imprensa a gênese do mau humor social e das dificuldades de imagem do governo é a aposta que se faz no relato. Por esta perspectiva, os fatos em si nada significam. Tudo depende de como são narrados e de quais são os interesses de quem faz esta narrativa.

A partir de hoje [quinta-feira, 12/6], o protagonismo do Brasil na mídia internacional tende a esmaecer, com a atenção voltada para o que acontecer dentro dos gramados. Uma nova conquista brasileira será um episódio rotineiro na história do futebol, já que o país ganhou cinco das 14 últimas Copas, sem qualquer conexão visível com a conjuntura política de cada vitória. Segundo o argentino La Nación e o Financial Times, que replicaram análises já publicadas na mídia brasileira, uma derrota do Brasil pode tornar o ambiente social ainda mais rarefeito e afetar Dilma. De acordo com este integrante da cúpula governista, este é mais um erro de avaliação da imprensa: somente uma catástrofe ligada à infraestrutura, como um desabamento de uma obra ou um colapso nos aeroportos, poderá atingir a reeleição.

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César Felício, do Valor Econômico

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