Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > PROTESTOS & IDEOLOGIA

Os coxinhas niilistas

Por Vítor Cei em 17/06/2014 na edição 803

O nome “coxinha”, além de designar o “salgadinho empanado e frito em forma de coxa de galinha”,passou a fazer alusão aos playboys, “mauricinhos” e “engomadinhos” que, além de chamarem atenção pelo consumismo exagerado, possuem valores morais individualistas, convencionais e conservadores.

Niilismo, conceito filosófico, é a convicção de que a vida não tem sentido e, por isso, não vale a pena viver. A palavra provém do latim nihil, “nada”, que apresenta os sentidos de redução ao nada, aniquilamento e não existência. No significado mais comum, dicionarizado, recebe as seguintes acepções: ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência; total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu; rejeição radical às leis e às instituições formais; ideologia de um grupo revolucionário russo da segunda metade do século 19 que pregava a destruição das instituições políticas e sociais para abrir caminho a uma nova sociedade, mesmo empregando medidas extremas; ação anarquista, terrorista ou revolucionária.

Os protestos no Brasil em junho de 2013, também conhecidos como Manifestações dos 20 centavos ou jornadas de junho, que já são considerados um dos maiores movimentos políticos da história do país, compõem o cenário do surgimento dos coxinhas niilistas. A minha hipótese interpretativa é que essa parcela dos manifestantes mobilizou-se em nome do nada. Uma postura de niilismo político, segundo o qual a política não vale nada e não leva a nada.

“Queremos os militares”

Enquanto alguns grupos políticos apresentavam reivindicações claras, com uma concepção ética subjacente, os coxinhas niilistas ofereciam apenas frases de efeito e gritos de guerra esvaziados de sentido, sem referências valorativas. Milhares de manifestantes, com perfil pacifista, paradoxalmente usavam a máscara de Guy Fawkes, soldado inglês que, em 1605, planejou explodir o Parlamento do Reino Unido; outros estavam em clima de festa, desfilando com roupas brancas, nariz de palhaço e postando fotos no Facebook e no Instagram; as ruas do país e as redes sociais foram tomadas por gente que queria simplesmente o direito de se manifestar “contra-isso-que-está-aí”; pessoas insatisfeitas com tudo, que negavam tudo, queriam mudar tudo, mas sem saber bem o que; negavam a esquerda, negavam a direita, negavam o governo, queriam mudança, mas não sabiam para onde; pessoas que manifestavam a indiferença do niilismo, crendo que tudo é igual e nada faz sentido. Opondo-se a tudo, no fim das contas opõem-se a nada.

Podemos perceber uma experiência da negatividade radical, da ausência de fundamento, da voluptuosidade do nada. Nas ruas e redes sociais, insatisfações de todo tipo. Como se uma bolha tivesse estourado, os brasileiros tivessem finalmente olhado para a barbárie em volta e, aterrorizados, concluído que não estão satisfeitos com o estado de coisas que aí está. Diante de tanta insatisfação, os coxinhas niilistas apontam o dedo para os nossos políticos. Todos eles. De todos os partidos. “Direita? Esquerda? Eu quero é ir pra frente!”, alardeavam os coxinhas niilistas.

Exemplar é a página do Partido Militar Brasileiro no Facebook, onde se podiam ler comentários como “Manterei a minha cara de palhaço no perfil do Facebook até que o Brasil volte a ter o mínimo de decência que este vigente Regime Comunista nos subtraiu”. Nesse contexto, as hashtags favoritas eram #BrasilAcordou e #OGiganteAcordou, como se antes estivesse dormindo. Expressam, assim, uma autoimagem negativa e uma consciência niilista.

Tais discursos niilistas também são marcados por contradição performativa, que se manifesta na combinação ilógica entre as críticas que fazem de algumas mazelas sociais e a defesa pragmática de algumas dessas mazelas. Podemos ver, por exemplo, pessoas delirantes vociferando contra a “ditadura comunista” implantada pelo PT, ao mesmo tempo em que defendem uma nova ditadura militar. Exemplar é uma página do Facebook intitulada Golpe Militar 2014, que usa a hashtag #QueremosOsMilitares e afirma que “Nosso partido é o povo. Queremos os militares ao nosso lado”. “Estamos juntos contra a ditadura fascista da esquerda!” Enquanto isso, outros têm uma perspectiva salvacionista, vendo em Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal, o Batman brasileiro, o futuro presidente salvador da pátria, o messias que chegou para nos salvar.

À beira do abismo

Parafraseando Nietzsche, eu digo que a visão da política agora cansa – o que é hoje o niilismo, se não isto? O povo brasileiro está cansado da política e dos políticos. Nesse sentido, o discurso dos coxinhas niilistas pode ser considerado uma indignação sem direção, um grande desabafo inoperante, que gera um tipo de niilismo: a indiferenciação axiológica do “tudo se equivale”, presa de uma vontade de negar.

Esse desabafo inoperante e niilista constitui o procedimento de desmonte de premissas e valores preestabelecidos, negando-os no geral sem propor nada para substituí-los. Nesse sentido, como observou Luis Eustáquio Soares em artigo publicado neste Observatório da Imprensa, o niilismo é radicalmente distinto da utopia, que nega valores instituídos a fim de afirmar outras perspectivas. Não é circunstancial que os niilistas desacreditem, diminuam e neguem precisamente a perspectiva utópica de povos e movimentos sociais, acusando-a de inútil quimera idealista de ignorantes.

Ainda é cedo para prognósticos. Não obstante, a dinâmica dos protestos urbanos e os movimentos reativos do governo federal e da oposição mostram que beiramos um abismo. O esforço e a criatividade dos agentes interessados vão, em grande parte, determinar o rumo da sociedade. Se o rumo for de protestos contra tudo e todos, contra tudo isso que está aí, e as reivindicações forem genéricas como contra a corrupção, contra a violência, contra a Copa do Mundo, pela paz, por saúde e educação, não chegaremos a lugar nenhum. Esse tipo de mobilização nunca deu em nada e nem vai dar em nada.

Se a vida não tem sentido a priori, depende de cada cidadão conferir-lhe sentidos na medida em que afirmem seus valores. Que mudanças esperamos? Que sociedade queremos? O que caracteriza um mundo melhor? O que define uma educação de qualidade? Sobre essa nossa decisão existencial se fundamenta a possibilidade de superação do niilismo.

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Vítor Cei é doutorando em Estudos Literários

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