Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

Futebol poliglota

Por Henrique Kugler em 23/06/2014 na edição 804
Reproduzido do Ciência Hoje On-Line, 18/6/2014

Narrar uma partida de futebol não é das tarefas mais fáceis. E entender o que um narrador fala também pode ser complicado – a depender do entusiasmo do profissional e da estonteante velocidade de sua dicção virtuosa. Se compreender um duelo futebolístico em nossa própria língua pode ser às vezes difícil, imagine uma narração em inglês ou espanhol.

Excetuando-se os mais experientes nessas duas línguas, o telespectador ou ouvinte mediano dificilmente imaginaria que, em inglês, o verbo to blast quer dizer “mandar uma bomba”. E nem todos entenderiam que, em espanhol, saque de esquina significa “escanteio”. E por aí vai. O futebol guarda uma interessante riqueza lexical. E, pensando nisso, uma equipe de linguistas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) lançou o Field – um dicionário trilíngue com traduções de termos do esporte mais popular do Brasil.

É uma ferramenta online. Totalmente gratuita, ela apresenta ao internauta – que bem pode ser um professor de idiomas ou um aluno interessado em enriquecer seu vocabulário – mais de 600 verbetes usados no futebol. E versões para iOS e Android já estão a caminho.

O dicionário é ricamente ilustrado. Ele traz desenhos explicativos que auxiliam no entendimento das mais diversas situações de jogo. E o público-alvo é bastante amplo. “Quando desenvolvemos o Field, pensamos em um sistema que pudesse ser usado por adultos, crianças, estrangeiros, estudantes e professores”, conta a mestranda em linguística aplicada Aline Nardes, que participou da elaboração do dicionário.

A equipe técnica de desenvolvedores, aliás, merece crédito à parte. Pois a interface é assaz amigável; e a estrutura de navegação não deixa ninguém perdido. A estética do dicionário está em sintonia com o que há de mais atual em termos de usabilidade e desenho.

Teoria em jogo

O Field é um dicionário diferente. Pois não se baseia apenas na mera busca por palavras. Na verdade, o usuário pode realizar uma busca baseada em contextos. Por exemplo: ao clicarmos em “cabeceio”, veremos todos os termos relativos a essa situação de jogo: “ajeitar de cabeça”, “cabecear” e mesmo “peixinho”.

Ou, se quisermos pesquisar os termos usados para se referir às diferentes “reações da torcida”, basta clicarmos no referido cenário – e lá estarão traduções para palavras como “vaiar”, “aplaudir”, “aclamar”.

“É uma forma menos tradicional de organização das palavras”, explica a linguista Rove Chishman, que coordenou o projeto de elaboração do dicionário. Na verdade, essa estratégia de busca por contextos, e não por palavras, deriva de uma teoria linguística chamada de semântica de frames. “Diversos dicionários baseados nessa teoria já foram lançados, mas sempre para o público especializado”, lembra Nardes. É o caso do Kicktionary – um dicionário de referência que, assim como o Field, contempla termos do futebol. É bastante completo. Mas sua interface é amedrontadora.

Treinamento

Mãos à obra. Digamos que você queira saber quais são os termos usados quando, por exemplo, uma equipe faz um gol. Nesse caso, basta clicar no cenário ‘marcar gol’. Assim, o Field vai mostrar os diversos termos – e suas respectivas traduções – que podem ser usados quando alguém coloca a bola na rede.

Dentro do cenário “marcar gol”, é possível aprender que um “gol de letra” pode ser traduzido para o espanhol como gol de rabona. Já no inglês, seria um rabona goal. Outro exemplo: clicando no cenário “drible”, aprendem-se os nomes de diversos tipos de habilidades que os jogadores usam para transpor seus adversários. Conhece o famoso “drible da vaca”? Pois bem, em inglês ele se chama dummy; e, em espanhol, autopasse.

Mas atenção: o mundo das traduções é cheio de truques. Que o leitor não saia por aí pensando que um “frango” pode ser traduzido como chicken. Nada disso. Em inglês, a falha do goleiro chama-se goalkeeper bundle. E em espanhol é uma cantada!

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Henrique Kugler, do Ciência Hoje On-line

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