Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Inteligência padrão Fifa

Por Guilherme Scalzilli em 23/06/2014 na edição 804

Dois grupos humanos predominam entre os inimigos da Copa do Mundo: os incautos e os maliciosos.

Os primeiros compartilham uma singela ignorância acerca das bases econômicas, administrativas e legais de eventos desse porte. Pouco importa se são desinformados, crédulos ou preguiçosos, pois a sinceridade os redime. Eles acreditam mesmo que o governo federal construiu estádios a fundo perdido, que haveria mais escolas, hospitais e linhas de metrô sem a competição, que superfaturamentos, atrasos e politicagens não ocorrem no resto do planeta. A Copa só lhes fornece o bode expiatório mais oportuno para as mazelas cotidianas que os afligem.

A outra categoria agrega uma elite intelectualizada, com experiência, capacitação profissional e às vezes bagagem acadêmica para discernir as tolices do imaginário anti-Copa. Esses formadores de opinião sabem como funcionam as parcerias público-privadas, os contratos estaduais e municipais, as desapropriações, os muitos interesses conflitantes em jogo. Apesar de tudo, porém, manipulam estatísticas, falseiam comparações e espalham mentiras para legitimar os equívocos da maioria ingênua.

A intransigência dos maliciosos é proporcional à simplicidade do repertório indignado que eles adotam. Quando refutamos certas ponderações honestas, mas conceitualmente equivocadas (chamar os empréstimos tomados junto ao BNDES de “gasto público”, por exemplo), recebemos floreios argumentativos que se empobrecem até culminar na tese de que o país simplesmente “não está preparado” para sediar eventos internacionais. A menor discordância diante desse delírio provinciano liberta uma avalanche de jargões rasteiros e ofensivos que inviabilizam qualquer debate.

Maiores legados

Grande referência dos diletantes sabujos, o comentarismo dito “especializado” viola sistematicamente sua obrigação ética de manter fidelidade aos fatos. Culpa o governo federal por atrasos em obras a cargo de administrações regionais e companhias privadas. Lamenta a falta de sinal para internet e outros serviços capengas sem citar um único nome de empresa. Festeja a seleção da CBF como se ambas não tivessem nada a ver com as arbitrariedades da Fifa. Cobra investimentos estatais quando faltam e os demonizam quando existem.

A recente adesão do jornalismo cínico à causa rentável da Copa busca sacramentar as deturpações enquanto fatos consumados, livrando-as de análises críticas. As tentativas tardias de forjar uma racionalidade imparcial em torno de certos mitos sobre o torneio soam ridículas. Provam apenas que os veículos agiram conscientemente desde o início, desqualificando o torneio e incentivando seus sabotadores antes que a repercussão positiva fornecesse dividendos políticos para a gestão Dilma Rousseff. Garantido o estrago, agora temem que as turbas manipuladas constranjam os anunciantes.

Incautos e maliciosos são responsáveis pela bizarria que domina os questionamentos sobre a Copa do Mundo. Em vez de discutir as raízes corporativas e institucionais do desperdício de recursos, da falta de planejamento e dos improvisos, o público reproduz baboseiras ideológicas de mal disfarçado pendor eleitoral. Nunca houve tanta gente se dizendo preocupada com a imagem do país, que, no entanto, jamais sofreu tamanha desmoralização. A solidariedade com as populações carentes atinge níveis inéditos, mas não tolera os benefícios que elas podem receber do torneio malévolo.

Os maiores legados da Copa serão a hipocrisia, o oportunismo e a manipulação. Nada mais próximo do tal padrão Fifa, tão reivindicado pelos baluartes republicanos.

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Guilherme Scalzilli é historiador e escritor, mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor da Unicamp; seu blog

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