Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

Joaquim Barbosa, de jurista a protagonista

Por Reinaldo Cabral em 23/06/2014 na edição 804

Num tempo em que valores como ética, solidariedade, honestidade ou honradez passaram a ser substituídos por fraqueza mental, individualismo, corrupção e tolice, as férias do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) na França, no primeiro semestre de 2014, serviram mais para expor o nível de (des)qualificação da grande mídia brasileira, através dos seus três principais jornais impressos, do que para exibir a tessitura intelectual do ministro Joaquim Barbosa.

Foi assim que, ao usar seus 30 dias de férias para cumprir uma agenda de trabalho intelectual, a vida de Joaquim Barbosa virou um inferno a ponto de ele considerar como banditismo o tratamento refletido pelas matérias enviadas de Paris e publicadas no Brasil. Foi assim que de importante jurista Barbosa protagonizou um papel destinado a sujar a sua biografia.

A cobertura internacional já teve no passado uma importância relevante na vida da imprensa brasileira em particular e mundial em geral. Não é preciso ir muito longe para se encontrarem correspondentes do nível intelectual de um Antonio Callado e um Paulo Francis, com abordagens sociológicas abrangentes capazes de servir, em cada matéria assinada, como uma janela para o mundo, uma cosmovisão singular única, só possível em quem escreve sobre fatos e pessoas, conectando-os a novos horizontes.

Quem poderia, entre os jornalistas norte-americanos da sua época, emprestar à guerra civil espanhola (1936) de Por quem os sinos dobram e à 1ª Grande Guerra Mundial (1917) de Adeus às armas uma visão tão peculiar e humana do que um Ernest Hemingway? Nossos correspondentes sempre foram vítimas de um certo atavismo político, um vírus jornalístico-sociológico-antropológico que quase afetou a presença do antropólogo alagoano Artur Ramos na direção da Unesco, o órgão de cultura da ONU, durante 30 anos.

Pobreza intelectual

Dá a Joaquim Barbosa a sordidez e pequenez que seus gestos, comportamento e atitudes sequer insinuaram durante ou nos intervalos das suas apresentações como conferencista no ambiente acadêmico francês apenas revelou a miopia não só de quem produziu os textos, mas, sobretudo, de quem os editou. Como podemos criticar a qualidade dos nossos políticos se, na hora de estabelecer uma simples valoração intelectual, preferimos chafurdar como porcos num chiqueiro?

Há dias, o presidente do Senado, senador Renan Calheiros, anunciou a antecipação em 10 anos da aposentadoria do ministro Joaquim Barbosa, do STF. Barbosa leva a lembrança dos aplausos e afagos de quem assistiu às suas conferências na França e dos xingamentos dos autores de textos preconceituosos publicados pela grande mídia brasileira e dos achincalhes dos mensaleiros do PT condenados por participação na bizarra roubalheira.

Pelo jeito, ainda não nos livramos da miopia intelectual que faz do Brasil um país sempre em busca de heróis. Um comportamento típico de onde predomina a pobreza intelectual.

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Reinaldo Cabral é jornalista e escritor

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