Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

O espelho quebrado

Por Moisés dos Santos Viana em 23/06/2014 na edição 804

As notícias produzidas por conta da Copa do Mundo da Fifa 2014 no Brasil criaram um clima pessimista que vai além do #complexodeviralatas e merece uma reflexão mais profunda sobre a questão da produção simbólica no campo da comunicação-jornalismo. Quem olhar os noticiários da noite ou ler as manchetes dos “grandes” jornais e revistas verá uma tendência de mostrar um país falido, mal administrado, com um povo corrupto e mal-educado. Um país sem infraestrutura, competência e inoperante. A produção simbólica parece ligada a um uníssono pensamento, inclusive em léxicos, a um alinhamento político-ideológico que concede aos noticiários o mau caráter visceral historicamente já apresentado pela história da comunicação no Brasil.

O que isso significa? Observam-se duas questões: o noticiário dos atuais meios de comunicação-jornalístico funciona através de condições determinadas e ideologicamente direcionadas; esse mesmo sistema produtivo cria para si e comunica sobre si uma imagem de espelho da realidade, testemunha ocular do seu tempo e guardiã da verdade, mas que na prática perde credibilidade e cada vez mais é questionada e descreditada.

A notícia é fruto de um processo que hoje se capitalizou e adquiriu característica industrial, interagindo com o contexto social e político-ideológico de seu produtor. Na notícia estão imbricados o contexto e os sentidos da realidade, a ideologia que permeia toda a sua industrialização e a torna valor mercadológico, transformando-a em bem cultural, ou seja, mecanismo reproduzível, visões de mundo e interesses políticos.

O equívoco e o descrédito

A realidade da notícia é uma versão da realidade factual. Na dinâmica do processo de periodicidade imediata, a informação torna-se a mercadoria rápida por excelência, superficial e manipulável como uma manufatura nas mãos de seus produtores. A sua veiculação como informação é refém de uma demanda que envolve tempo instantâneo, superficial e fragmentado. Como as páginas do jornal e da revista, o site da internet, o plantão do telejornal, a escuta da rádio-notícia. Seleciona-se o que é mais importante, para emitir, transmitir, imprimir. Enfim, vender mais rápido. Vende-se uma versão escolhida como certa ou direcionada como certa, em uma orquestrada visão de mundo, a do dono, empresário da comunicação.

Além disso, a notícia é difusão de opiniões que informam e orientam de acordo com o que se deseja ao produzir. Além de materializar a ideologia, ela é em si um produto de venda e consumo em um mercado que necessita de informação para alimentar seu pensamento e seu mundo de significados: os empresários para negócio, a bolsa de valores, os pronunciamentos dos políticos e bancadas, o Ministério Público e a mídia para se retroalimentar. Compra-se a informação e assimila-se a verdade relatada em temas: moda, política, economia e turismo. Tudo em um mecanismo de produção simbólica cada vez mais questionável e criticado.

No entanto, na perspectiva dos produtores tem-se a notícia como espelho da realidade, por vezes, objetiva, que descreve e narra o fato. O caráter peculiar da notícia de retratar o senso comum é sempre o recorte sem contexto ou profundidade da realidade. Seria a versão mais pobre do que é real. Porém, a notícia não consegue, de fato, mostrar a realidade “nua e crua”, porque mostra uma versão que é parcial. Um recorte, apenas, do que pode ser captado num lapso de tempo, em um determinado local. Isso constitui uma espécie de formador do cotidiano, pois as informações transmitidas pelo jornalismo sofre influência de mercados no sentido amplo do termo e essa arbitrariedade é sustentada pela ideologia dos que dominam os meios de comunicação. Portanto, todo o cotidiano impulsiona a busca e o sentido de adequação social nos meios de comunicação.

O espelho quebrado da notícia está aí. O equívoco está aí. O descrédito de um sistema de produção que só produz idiossincrasias cada vez mais grotescas que lega ao futuro a perspectiva de repensamos o mercado das trocas simbólicas que fazem surgir a realidade brasileira. Mais um legado dessa Copa do Mundo de 2014: o descrédito quase total dos sistemas de notícia da grande mídia viciada e anacrônica.

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Moisés dos Santos Viana é professor de Comunicação

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